Выбрать главу

Olhou para ele, simpatizando com o homem másculo, robusto, lembrando-se de todas as horas agradáveis que tinham passado juntos em Avisyard e na França. Ele, Penelope, Jacques, Susanne, as crianças, juntos no Natal ou nas férias de verão, boa comida e bons vinhos, boas risadas e grandes planos para o futuro. Jacques, certamente o mais sensato, o mais discreto e, até as acusações de Alan, possivelmente o próximo a sucedê-lo. "Mas não agora, não até que tenha provado a sua inocência, e eu esteja certo. Desculpe, meu amigo, mas você tem que ser testado. "

— Vou fazer algumas modificações na organização — disse. — Linbar foi para Sydney hoje, como sabe. Vou deixá-lo Iá durante um mês para tentar acertar a fusão da Woolara. Não estou esperando grande coisa. Quero que você assuma a Austrália. — Viu os olhos de Jacques se arregalarem momentaneamente, mas não percebeu se de preocupação ou felicidade. — Já apertei o botão do nosso plano Toda e...

— Como foi que ele reagiu?

— Engoliu a isca com anzol e tudo.

— Merde, mas que formidável! — Dunross viu o amplo sorriso de Jacques e não notou nele nenhuma malícia. O homem fora um dos principais articuladores do plano de navegação, destrinchando as complexidades do financiamento. — Que pena o pobre do John não estar vivo para saber! — disse Jacques.

— É. — John Chen trabalhara juntamente com Jacques de Ville. — Tem visto o Phillip?

— Jantei com ele ontem à noite. Pobre coitado, envelheceu vinte anos.

— Você também.

Um dar de ombros gaulês.

— É a vida, mon ami. Mas é verdade que estou triste por causa da pobre Avril e do pobre Borge. Por favor, desculpe-me, eu o interrompi.

— Gostaria que você assumisse a Australásia, a partir de hoje, e fosse o responsável por colocar em execução todos os nossos planos australianos e neozelandeses. Não comente com ninguém até o fim do mês. Contarei apenas para o Andrew, mas organize-se e prepare-se para partir nessa época.

— Está bem — disse Jacques, com ligeira hesitação.

— O que é? Susanne jamais gostou de Hong Kong... não terá problemas com ela, terá?

— Ah, não, tai-pan. Desde o acidente... francamente, ia pedir-lhe para me mudar daqui, por uns tempos. Susanne não se sente feliz aqui e... Mas ia pedir-lhe se podia assumir o Canadá por um ano ou dois.

Dunross ficou sobressaltado ante a nova idéia.

— É?

— É. Pensei que talvez pudesse ser útil por Iá. Meus contatos entre os franco-canadenses são bons, muito bons. Quem sabe podíamos mudar o escritório canadense da Struan de Toronto para Montreal ou Ottawa. Eu podia ajudar muito, de Iá. Se nossa operação japonesa der certo, vamos precisar de madeira, cobre, trigo, carvão e mais uma dúzia de matérias-primas canadenses. — Ele deu um débil sorriso, depois continuou, firme: — Ambos sabemos como o primo David anda doido para voltar para cá, e pensei que, se me mudasse para Iá, ele podia voltar. Na verdade, está mais bem qualificado para ficar aqui, para lidar com a Australásia, non? Fala cantonense, um pouco de japonês, lê e escreve chinês, o que eu não faço. Mas você é quem sabe, tai-pan. Assumirei a Australásia se quiser. É mesmo verdade que me agradaria uma mudança.

Dunross deixou o pensamento voar. Decidira isolar Jacques de Hong Kong enquanto descobria a verdade. Seria bem fácil contar ao Crosse ou ao Sinders secretamente, e pedir-lhes que usassem suas fontes para investigar, para observar e sondar. Mas Jacques era membro da assembléia interna. Como tal, estava por dentro de um monte de segredos e informações particulares que correriam risco. "Não", pensou Dunross, "é muito melhor eu mesmo lidar com a minha gente. Pode ser que demore mais, mas descobrirei a verdade. De um jeito ou de outro, ficarei sabendo a verdade sobre Jacques de Ville.

"Canadá?

"Logicamente, Jacques ficaria melhor ali. Seria melhor para a Struan (eu mesmo devia ter pensado nisso), nunca houve motivo para duvidar da sua lealdade comercial, ou da sua sagacidade. Há dois anos David berra pedindo para voltar. A troca seria mais fácil. Jacques tem razão. David está mais bem qualificado para a Australásia, e a Austrália e a Nova Zelândia são muito mais importantes para nós do que o Canadá, muito mais importantes... são vitais, e a tesouraria de toda a Ásia. Se Jacques for inocente, poderá ajudar-nos no Canadá. Se não for, poderá causar-nos menos danos ali.

— Vou pensar no assunto — disse, já tendo decidido fazer a alteração. — Mantenha o assunto em segredo, e vamos acertar tudo no domingo.

Jacques levantou-se e estendeu a mão.

— Obrigado, mon ami.

Dunross apertou a mão estendida. Mas, intimamente, perguntava-se se era a mão de seu amigo... ou de seu Judas.

Sozinho, mais uma vez, sentiu-se assoberbado pelo peso dos problemas. O telefone tocou, e ele lidou com aquele problema, depois outro, depois outro — o telefone de Tiptop ainda ocupado —, e pediu que Phillip subisse. O tempo todo parecia que estava caindo num buraco fundo. Então, seus olhos se encontraram com os de Dirk Struan na parede, olhando para ele do quadro a óleo, com um meio sorriso, supremamente confiante, arrogante, o mestre dos veleiros — a embarcação mais bela que o homem já construiu. Como sempre, sentiu-se confortado.

Levantou-se e ficou parado diante do tai-pan.

— Puxa, não sei o que faria sem você! — disse em voz alta, lembrando-se de que Dirk Struan fora afligido por fardos muito maiores, e os dominara. Para ser morto no auge da vida, aos quarenta e três anos, pela tempestade, a ira da natureza, como grande comandante inconteste de Hong Kong e da Ásia.

" 'Aqueles a quem os deuses amam morrem moços. ' Será sempre assim?", perguntou a si mesmo. "Dirk tinha a minha idade quando os Ventos do Demônio do Grande Tufão destroçaram a nossa casa de três andares novinha em folha no Happy Valley e ele morreu soterrado. Era velho ou moço? Não me sinto velho. Seria aquele o único modo de Dirk morrer? Violentamente? Numa tempestade? Moço? Morto pela natureza? Ou será que a expressão quer dizer 'aqueles a quem os deuses amam morrem moços de coração'?"

— Não importa — disse para seu mentor e amigo. — Quisera ter vivido pra conhecê-lo. Digo-lhe francamente, tai-pan, espero em Deus que haja uma vida após a morte, para que, em algum lugar da eternidade, eu possa lhe agradecer pessoalmente.

Novamente confiante, voltou para a mesa de trabalho. Na gaveta de cima estava a matriz de Wu Quatro Dedos. Seus dedos tocaram-na, acariciando-a. "Como vou me sair dessa?", perguntou-se, sombriamente.

Bateram à porta. Phillip Chen entrou. Envelhecera nos últimos dias.

— Santo Deus, tai-pan, o que vamos fazer? 9, 50! — falou, atropeladamente, com um guinchar nervoso na voz. — Tenho vontade de arrancar os cabelos! Dew neh loh moh! Por causa da alta, lembra-se, comprei a 28, 90. Gastei cada tostão supérfluo e muito mais, e Dianne comprou a 28, 80 e vendeu a 16, 80, e exige que eu cubra a diferença. Oh ko, o que vamos fazer?

— Rezar... e fazer o que pudermos — disse Dunross.

— Conseguiu falar com o Tiptop?

— É... não, tai-pan. Venho tentando com intervalo de minutos, mas o telefone ainda está enguiçado. A companhia telefônica disse que deixaram o fone fora do gancho. Mandei meu primo da companhia telefônica verificar pessoalmente. As duas linhas da casa dele estão fora do gancho.

— O que aconselha?

— Aconselhar? Não sei. Acho que devíamos mandar um mensageiro, mas não quis fazê-lo antes de consultá-lo... com a queda das nossas ações e a corrida aos bancos, o pobre John e os repórteres rondando... todas as minhas ações estão em baixa, todas! — O velho soltou o verbo, obscenidades cantonenses, pragas contra Gornt, seus ancestrais e as futuras gerações. — Se o Vic cair, o que vamos fazer, tai-pan?

— O Vic não vai cair. Se o Tiptop falhar, sem dúvida o governador declarará a segunda-feira feriado bancário. — Dunross já contara ao seu representante nativo a conversa com Tiptop, Yu, Johnjohn e Havergill. — Vamos, Phillip, pense!