— acrescentou, com raiva fingida, tornando a voz mais brusca deliberadamente, para ajudar o velho. — Não posso mandar um maldito mensageiro até a casa dele para dizer: "Você deixou deliberadamente a porra do seu telefone fora do gancho!"
Phillip Chen sentou-se, a raiva incomum fazendo-o controlar-se um pouco.
— Desculpe, sim, desculpe, mas é que tudo... e John, o pobre John...
— Quando vai ser o enterro?
— Amanhã, amanhã às dez, o cristão. Segunda-feira, o chinês. Será... será que você poderia dizer algumas palavras, amanhã?
— Mas claro que sim. Bem, e quanto ao Tiptop? Phillip Chen concentrou-se, com grande esforço. Finalmente, falou:
— Convide-o para as corridas. Para a sua tribuna. Ele nunca foi, e isso lhe daria grande prestígio. Essa é a maneira. Você poderia dizer... Não, desculpe, não estou pensando direito. É melhor, muito melhor, tai-pan, deixar que eu escreva. Escreverei o bilhete convidando-o por você. Direi que você quis convidá-lo pessoalmente, mas que infelizmente seu telefone está com defeito... assim, se ele quiser vir, ou for proibido pelos superiores, não perde prestígio, nem você. Eu poderia acrescentar: "A propósito, a Casa Nobre já enviou telex à firma em Sydney encomendando o tório... " — Phillip Chen ficou mais animado. — Será um negócio muito bom para nós, tai-pan, o preço dado... Já verifiquei os preços, e podemos suprir todas as necessidades deles facilmente, e obter ofertas muito competitivas da Tasmânia, África do Sul e Rodésia. Ah! Por que não mandar o jovem George Trussler de Cingapura para Johannes-burg e Salisbury numa missão exploratória dos tórios?... — Phillip Chen hesitou — e... bem... certos outros metais e materiais aeroespaciais básicos. Fiz umas verificações rápidas, tai-pan. Fiquei espantado em saber que, tirando a Rússia, quase noventa por cento de todo o suprimento do mundo livre de vanádio, cromo, platina, manganês, titânio, todos vitais e essenciais ao setor aeroespacial e de foguetes, provêm da parte meridional da Rodésia e da África do Sul. Imagine só! Noventa por cento, tirando a Rússia. Nunca me dei conta de como essa área é imensamente importante para o mundo livre, com todo o ouro, diamantes, urânio, tório, e sabe Iá Deus quantas outras matérias-primas essenciais. Talvez o Trussler também pudesse investigar a possibilidade de abrirmos ali um escritório. Ele é um rapaz vivo, à espera de uma promoção. — Agora que sua mente estava totalmente ocupada, o velho respirava com mais facilidade. — É. Esse negócio, e mais o do sr. Yu, poderiam ser muito lucrativos para nós, tai-pan. Estou certo de que isso poderá ser tratado com delicadeza. — Ergueu os olhos para Dunross. — Eu também falaria ao Tiptop sobre Trussler, que estamos mandando um executivo, alguém da família, como preparação.
— Excelente. Faça-o imediatamente. — Dunross apertou o interfone. — Claudia, ligue-me com George Trussler, por favor. — Voltou a olhar para Phillip. — Por que o Tiptop cortaria as comunicações?
— Para barganhar, para aumentar a pressão sobre nós, para obter mais concessões.
— Devemos continuar a ligar para ele?
— Não. Depois do bilhete entregue em mãos, ele ligará para nós. Sabe que não somos idiotas.
— Quando ligará?
— Quando tiver permissão, tai-pan. Não antes. Um pouco antes de segunda-feira às dez horas, quando os bancos devem abrir. Sugiro que diga àqueles montes de carne de cachorro, Havergill e Johnjohn, para não telefonarem... conseguirão enlamear águas já turvas. Não se usa um girino para pegar um tubarão.
— Ótimo. Não se preocupe, Phillip — disse, compassivo. — Vamos sair desta enrascada.
— Não sei, tai-pan, espero que sim. — Phillip Chen esfregou com ar cansado os olhos vermelhos. — Dianne... aquelas malditas ações! Não vejo jeito de sair do atoleiro. O...
Claudia interrompeu no interfone:
— O jovem Trussler na linha 2.
— Obrigado, Claudia. — Apertou a linha 2. — Alô, George, que tal Cingapura?
— Boa tarde, senhor. Muito bem, senhor, quente e chuvosa — replicou a voz alegre e entusiástica. — Que surpresa agradável! Em que posso servi-lo?
— Pode tomar o próximo avião para Johannesburg. Parta imediatamente. Mande por telex o nome do seu hotel e o número do vôo, telefone-me tão logo chegue ao hotel em Johannesburg. Entendeu?
Uma ligeira hesitação, e um pouco menos de entusiasmo.
— Johannesburg, na África do Sul, tai-pan?
— É. No próximo avião.
— Já estou indo. Mais alguma coisa?
— Não.
— Pois não, tai-pan, já estou indo. Até logo.
Dunross desligou. "O poder é um dispositivo maravilhoso", pensou com grande satisfação, "mas ser tai-pan é melhor. " Phillip se levantou.
— Vou cuidar imediatamente do bilhete.
— Um momentinho, Phillip. Tenho um outro problema para o qual preciso do seu conselho. — Abriu a gaveta e tirou de Iá a matriz. Além dele mesmo e dos tai-pans anteriores que ainda viviam, apenas Phillip Chen, no mundo inteiro, conhecia o segredo das quatro moedas. — Veja, quem me deu...
Dunross se interrompeu, paralisado, totalmente despreparado para o efeito que a matriz causara no seu representante nativo. Phillip a fitava, os olhos quase saltados das órbitas, os lábios arreganhados. Como que num sonho, em câmara lenta, Phillip Chen estendeu a mão e segurou a matriz, os dedos trêmulos, e olhou-a de perto, mexendo a boca sem emitir som.
Então o cérebro de Dunross detonou, e ele se deu conta de que a meia moeda devia ter pertencido a Phillip Chen. Devia ter sido roubada dele. "Mas claro!", Dunross teve vontade de gritar. "Jin-qua deve ter dado uma das quatro meias moedas a Sir Gordon Chen! Mas por quê? Qual a ligação entre a família Chen e um mandarim Co-hong que faria com que Jin-qua desse ao filho eurasiano de Dirk Struan um presente tão valioso?"
Ainda em câmara lenta, viu o velho erguer a cabeça e olhar para ele com os olhos apertados. A boca se moveu de novo. Nenhum som. Depois, soltou uma exclamação abafada, estrangulada:.
— Bar... Bartlett deu... já lhe deu isso?
— Bartlett? — ecoou Dunross, incrédulo. — Mas, em nome de Deus, o que tem o Bartlett a ver...
Parou quando nova explosão pareceu estilhaçar o seu cérebro, e mais pedaços do quebra-cabeça se encaixaram com violência. Os conhecimentos secretos de Bartlett! Conhecimentos que poderiam vir apenas de um entre sete homens, todos eles fora de suspeita, Phillip Chen mais do que todos!
"Phillip Chen é o traidor! Phillip Chen trabalhando em conluio com Bartlett e Casey... foi Phillip Chen que nos vendeu e entregou nossos segredos e moeda. "
Ficou tomado por uma raiva cega. Teve que apelar para todo o seu treinamento para manter a fúria controlada. Viu a si mesmo levantar-se e ir até a janela e ficar olhando para fora. Não saberia dizer quanto tempo ficou ali parado. Mas, quando se virou, sua mente estava depurada, e o vasto erro na sua lógica agora estava bem claro aos seus olhos.
— E então? — falou, com voz gélida.
— Tai-pan... tai-pan.. — começou o velho, voz entre-cortada, torcendo as mãos.
— Diga a verdade, meu representante. Agora! A palavra amedrontou Phillip.
— Foi... foi o John — exclamou, ofegante, as lágrimas escorrendo. — Não fui eu, juro...
— Eu estou sabendo! Ande logo, puta que o pariu! Phillip Chen então revelou tudo. Contou que pegara a chave do filho e abrira o seu cofre individual no banco, descobrira as cartas de e para Bartlett, e a segunda chave, e que, na noite do jantar na casa do tai-pan, subitamente tivera um pressentimento sobre seu cofre secreto enterrado no jardim, e que depois de desenterrá-lo descobrira o pior. Até mesmo contou ao tai-pan sobre sua briga com Dianne, e que haviam imaginado que a moeda poderia estar no corpo de John, e que, quando o Lobisomen telefonou, ela sugeriu chamarem o primo dele, Wu Quatro Dedos, para mandar seus combatentes de rua seguirem-no, a ele, Phillip, e depois aos Lobisomens...