Dunross soltou uma exclamação abafada, mas Phillip Chen não notou, continuando a falar, em meio às lágrimas, contando como mentira para a polícia e pagara o resgate aos jovens Lobisomens que nunca mais reconheceria, e como os combatentes de rua de Quatro Dedos, que deveriam protegê-lo, não haviam interceptado os Lobisomens, recapturado John ou recuperado o seu dinheiro.
— Esta é a verdade, tai-pan, toda a verdade — choramingava ele. — Não há mais... nada. Nada até hoje de manhã, e o corpo do meu pobre filho em Sha Tin, com aquele cartaz nojento sobre o peito...
Dunross tentava pôr as idéias em ordem. Não sabia que Quatro Dedos era primo de Phillip, nem podia calcular como o velho marujo pusera as mãos na moeda... a não ser que fosse o chefe dos Lobisomens, ou estivesse de combinação com eles, ou de combinação com John Chen, que idealizara um suposto seqüestro para arrancar dinheiro do pai, que odiava. E depois Quatro Dedos e John Chen haviam brigado ou... o quê?
— Como foi que John soube dos nossos segredos? Como obteve todos aqueles segredos para entregar ao Bartlett... como a Casa é estruturada? Hem?
— Não sei — mentiu o velho.
— Você deve ter contado ao John... só você, Alastair, meu pai, Sir Ross, Gavallan, De Ville e eu sabemos, e destes, apenas os quatro primeiros conheciam a estrutura!
— Não contei a ele... juro que não!
A fúria cega de Dunross começou a crescer de novo. Porém, mais uma vez, ele a controlou.
"Seja lógico", falou com seus botões. "Phillip é mais chinês do que europeu. Lide com ele como um chinês! Onde está o elo? A parte que falta do quebra-cabeça?"
Enquanto tentava resolver o problema, olhava penetrantemente para o velho. Esperava, sabendo que o silêncio também era uma grande arma, na defesa ou no ataque. Qual a resposta? Phillip jamais contaria ao John um segredo daqueles, portanto...
— Santo Deus! — exclamou, à idéia repentina. — Você anda mantendo registros! Registros particulares! Foi assim que John descobriu! No seu cofre! Não é?
Apavorado pela fúria demoníaca do tai-pan, Phillip deixou escapar, antes que pudesse se conter:
— É... é... tive que concordar... Interrompeu-se, lutando por controlar-se.
— Teve? Por quê? Fale, porra!
— Porque... porque meu pai, antes de... passar a Casa e a moeda para mim... fez-me jurar que manteria... que registraria as transações particulares da... Casa Nobre, para proteger a Casa de Chen. Foi apenas isso, tai-pan. Jamais para usar contra a Casa Nobre ou contra você, apenas uma proteção...
Dunross olhava para ele, odiando-o, odiando John Chen por ter vendido a Struan, odiando o seu mentor Chen-chen pela primeira vez na vida, doente de raiva com tantas traições. Depois, lembrou-se de uma das advertências de Chen-chen, há anos, quando Dunross estava quase chorando de raiva por causa da maneira injusta como o pai e Alastair o estavam tratando:
— Não fique com raiva, jovem Ian, vá à forra. Disse a mesma coisa ao Culum e à Bruxa, quando eram moços... Culum nunca ligou, mas a Bruxa, sim. Esta é a maneira civilizada: não fique com raiva, vá à forra!
"Com que então Bartlett conhece a nossa estrutura, nossos balanços gerais. O que mais terá?"
Phillip Chen apenas tremia e fitava-o, assustado.
— Vamos, Phillip, puta que o pariu, pense! Todos temos os nossos segredos escusos, um bocado deles! Você também, a Bruxa, Chen-chen, Shitee T'Chung, Dianne... puta que o pariu, quanta coisa mais está documentada, e que John pode ter passado adiante? — Uma onda de náusea o envolveu ao recordar sua teoria sobre a ligação entre Banastasio, Bartlett, a Par-Con, a Máfia e as armas. "Porra, se nossos segredos caírem em mãos erradas!" — Hem?
— Não sei... não sei... O que foi, o que foi que Barttlett pediu? Em troca da moeda? — Então, Phillip exclamou: — É minha, pertence-me!
Notou o tremor incontrolável das mãos de Phillip e um súbito tom cinzento no seu rosto. Havia garrafas de cristal com uísque e conhaque sobre o aparador. Dunross serviu uma dose de conhaque e deu-a ao velho. Agradecido, ele bebeu, engasgando um pouco.
— Obri... obrigado.
— Vá para casa e traga tudo e... — Dunross interrompeu-se e apertou um botão do intercomunicador. — Andrew?
— Sim, tai-pan? — respondeu Gavallan.
— Quer vir aqui um minutinho? Quero que leve Phillip para casa. Ele não está se sentindo bem e há uns papéis que é preciso trazer para cá.
— Já estou indo.
Os olhos de Dunross não haviam se desviado dos de Phillip.
— Tai-pan, o que foi que Bartlett...
— Fique longe deles, se tem amor à vida! E entregue tudo ao Andrew... as cartas de John, as cartas de Bartlett, tudo... — disse, com voz gélida.
— Tai-pan...
— Tudo. — A cabeça lhe doía, de tanto ódio. Ia acrescentar: "Vou decidir sobre você e a Casa de Chen durante o fim de semana". Mas ficou calado. A frase "Não fique com raiva, vá à forra" ecoava em seus ouvidos.
Casey entrou. Dunross foi ao seu encontro. Ela segurava um guarda-chuva e usava de novo o vestido verde-claro que acentuava perfeitamente os seus olhos e cabelos. Dunross notou que tinha olheiras. Elas conseguiam torná-la ainda mais desejável.
— Desculpe tê-la feito esperar — falou, com um sorriso cálido, porém sem sentir o seu calor. Ainda estava abismado por causa de Phillip Chen.
A mão de Casey era fresca e agradável.
— Obrigada por me receber — disse. — Sei que está ocupado, portanto vou direto ao assunto.
— Primeiro o chá. Ou prefere uma bebida?
— Nada alcoólico, obrigada, mas não quero dar trabalho.
— Não será trabalho algum. Vou tomar o meu chá agora: quatro e quarenta é a hora do chá. — Como num passe de mágica, a porta se abriu e um criado de libre trouxe uma bandeja de prata com chá para dois — com torradinhas amantei-gadas e os bolinhos ingleses típicos, os scones mantidos quentes num abafador. O homem serviu o chá e se retirou. A bebida era castanho-escura e forte. — É Darjeeling, uma das misturas da Casa. Nós comerciamos com ela desde 1830 — falou, sor-vendo-a satisfeito, como sempre agradecendo intimamente ao gênio inglês desconhecido que inventara o chá da tarde, que, de alguma maneira, sempre parecia aliviar os problemas do dia e colocar o mundo em perspectiva. — Espero que goste.
— É fantástico, talvez um tantinho forte demais para mim. Tomei um pouco por volta das duas horas, e acordei de vez!
— Ainda descontrolada pelos fusos horários?
Ela fez que não com a cabeça, e contou-lhe sobre Peter Marlowe.
— Oh, mas que azar! — Apertou o interfone. — Claudia, ligue para a Casa de Saúde Nathan e veja como está passando a sra. Marlowe. E envie umas flores. Obrigado.
Casey franziu a testa.
— Como sabia que ela estava na Nathan?
— O dr. Tooley sempre usa essa casa em Kowloon. — Ele a observava atentamente, atônito ao vê-la tão amistosa, quando era óbvio que a Par-Con estava tentando sabotar o negócio deles. "Se passou acordada a maior parte da noite, isso explica as olheiras", pensou. "Bem, olheiras ou não, cuidado, mocinha, empenhamos a nossa palavra na transação. " — Mais uma xícara? — indagou, solícito.
— Não, obrigada, já chega.
— Recomendo os scones. Nós os comemos assim: uma boa porção de nata de Devonshire em cima, uma colher de chá de geléia de morango feita em casa no meio da nata e... magia! Tome!
Relutante, ela aceitou. O bolinho era pequeno o bastante para ser comido de uma vez só. Sumiu.
— Fantástico — exclamou, limpando um pouco da nata do canto da boca. — Mas todas essas calorias! Não, obrigada, não quero mais mesmo. Não tenho feito outra coisa senão comer, desde que cheguei aqui.
— Não está parecendo.
— Mas logo vai parecer. — Viu que ela lhe devolvia o sorriso. Estava sentada numa das fundas poltronas de couro de espaldar alto, com a mesinha de chá entre eles. Ela cruzou as pernas de novo, e Dunross pensou mais uma vez que Gavallan estava certo a seu respeito: seu calcanhar de Aquiles era a impaciência. — Posso começar agora? — perguntou.