— Tem certeza de que não quer mais chá? — perguntou, tentando deliberadamente enervá-la.
— Não, obrigada.
— Então, acabou o chá. O que é que há? Casey inspirou fundo.
— Parece que a Struan está encrencada, e prestes a afundar.
— Por favor, não se preocupe com isso. A Struan está realmente em forma.
— Você pode pensar assim, tai-pan, mas não é o que está nos parecendo. Nem ao resto do pessoal. Já verifiquei. A maioria parecer pensar que o Gornt e/ou o Victoria não vão fazer valer a incursão. A opinião quase geral é de que vocês estão acabados. Bem, o nosso negócio...
— Temos um acordo até terça-feira. Foi o que combinamos — disse, a voz mais cortante. — Devo entender que querem desdizer-se, ou modificá-lo?
— Não. Mas no estado em que vocês estão, seria uma loucura ou um mau negócio continuar. Portanto, temos duas alternativas: ou a Rothwell-Gornt, ou ajudamos a salvar a sua pele.
— É?
— É. Tenho um plano, um plano parcial que talvez possa salvá-lo e nos render a todos uma fortuna. Certo? Você é o melhor para nós... a longo prazo.
— Obrigado — disse, sem acreditar nela, todo ouvidos, bem ciente de que qualquer concessão que ela oferecesse ia ser proibitivamente cara.
— Que tal o seguinte: nossos banqueiros são o First Central New York, o banco odiado aqui. Eles querem muito voltar a Hong Kong, mas jamais obterão nova licença, certo?
O interesse de Dunross cresceu ante a nova idéia.
— E daí?
— Daí que recentemente eles compraram um pequeno banco estrangeiro com agências em Tóquio, Cingapura, Bangkok e Hong Kong: o Royal Belgium and Far East Bank. É um banquinho de nada, e eles pagaram três milhões por tudo. O First Central pediu-nos para enviar nossos fundos através do Royal Belgium, se o nosso negócio se concretizar. Ontem à noite, encontrei-me com Dave Murtagh, que é o responsável pelo Royal Belgium, e ele não parou de gemer e de se lamentar de que os negócios vão muito mal, de que o sistema daqui lhes tirou o couro, e de que, embora tenham a bancá-los os imensos recursos em dólar do First Central, quase ninguém abre contas e deposita os dólares de Hong Kong de que necessitam para fazer empréstimos. Conhece o banco?
— Sim — falou, sem entender aonde ela queria chegar —, mas não sabia que o First Central estava por trás dele. Não creio que isso seja do conhecimento geral. Quando foi comprado?
— Faz dois meses. Bem, e se o Royal Belgium lhe adiantasse na segunda-feira cento e vinte por cento do preço de compra dos dois navios da Toda?
Dunross, pego desprevenido, fitou-a, boquiaberto.
— Com que garantia?
— Os navios.
— Impossível! Banco algum faria isso.
— Os cem por cento são para a Toda, os vinte por cento para cobrir todas as despesas periódicas, seguros, e os primeiros meses de operação.
— Sem fluxo de caixa, sem fretador estabelecido? — perguntou, incrédulo.
— Você poderia fretá-los em sessenta dias, para obter um fluxo de caixa para sustentar um plano de pagamento razoável?
— Facilmente. — "Santo Deus, se eu puder pagar à Toda imediatamente, poderei pôr para funcionar imediatamente meu plano de venda e arrendamento com os dois primeiros navios. " Apegou-se a essa esperança, imaginando qual seria o preço, o preço real. — Isto é teoria, ou eles realmente o farão?
— Podem fazê-lo.
— Em troca do quê?
— Em troca dos depósitos de cinqüenta por cento de todas as operações cambiais da Struan no exterior, por um período de cinco anos; de uma promessa de que manterão uma média de depósitos em dinheiro com eles, entre cinco a sete milhões de dólares de Hong Kong, cerca de um milhão e meio de dólares americanos; de que usarão o banco como seu segundo banco em Hong Kong, e o First Central como sua principal fonte de empréstimos americana fora de Hong Kong, durante um período de cinco anos. O que me diz?
Ele teve que usar todo o seu autocontrole para não gritar de alegria.
— É uma oferta firme?
— Creio que sim, tai-pan. Estou um pouco por fora... nunca lidei com navios, mas cento e vinte por cento me pareceu fantástico. E os outros termos também me pareceram bons. Não sabia até onde devia ir na negociação, mas disse a ele que era melhor que fizessem jogo limpo, caso contrário você nem se interessaria.
Ele sentiu uma pontada gelada nas entranhas.
— O representante local nunca teria autoridade para fazer uma oferta dessas.
— Foi isso o que Murtagh alegou a seguir, mas ele disse que teríamos o fim de semana para discutir, e que, se você topasse o esquema, ele se penduraria nas comunicações.
Dunross recostou-se na cadeira, perplexo. Deixou de lado três perguntas vitais, e disse:
— Vamos ficar por aqui, por enquanto. Qual a sua parte nisso tudo?
— Daqui a um minuto. Há mais um detalhe na oferta dele. Acho que ele está louco, mas disse que ia tentar persuadir os chefões a criarem um fundo de cinqüenta milhões de dólares americanos, contra o valor das ações não emitidas que você tem no seu tesouro. Portanto, você estará numa ótima. Se fizer o negócio.
Dunross sentiu o suor irromper nas costas e na testa, consciente do risco tremendo que correria, independentemente do tamanho do banco. Com esforço, pôs a cabeça para funcionar. Com os navios já pagos e o fundo, ele poderia rechaçar Gornt e anular o seu ataque. E com Gornt fora de ação, o Orlin voltaria humildemente para ele, que sempre fora um ótimo cliente... e o First Central não fazia parte do consórcio do Orlin Merchant Bank?
— E quanto ao nosso negócio?
— Fica como está. Você faz o comunicado na hora melhor para nós dois, para você e para a Par-Con, conforme o combinado. Se, e é um se grande, o First Central topar a jogada, todos nós podíamos ganhar uma nota, uma nota preta, comprando ações da Struan às nove e cinqüenta da manhã de segunda-feira... Vão ter que subir para 28, talvez 30, não é? A única coisa que não consigo ajeitar é como lidar com as corridas aos bancos.
Dunross pegou o lenço e enxugou a testa, abertamente. Depois, levantou-se e preparou dois conhaques com soda. Entregou-lhe um e voltou a sentar-se na cadeira, a mente alucinada, apática num minuto, no seguinte tonta de felicidade, logo depois agitada, doendo de esperança e medo, perguntas, respostas, planos e contraplanos.
"Puta que o pariu!", pensou, tentando acalmar-se.
O conhaque caiu bem. O travo e o calor eram muito bons. Notou que ela apenas bebericou o dela, depois largou o cálice e ficou olhando para ele. Quando a cabeça dele ficou desanuviada, e ele se sentiu pronto, olhou para ela.
— Tudo isso em troca do quê?
— Você terá que estabelecer os parâmetros com o Royal Belgium, isso cabe a você. Não conheço com toda a precisão o seu fluxo de caixa. Os juros vão ser bem altos, mas valerão a pena, para salvar-lhe a pele. Você vai ter que dar a sua garantia pessoal por cada centavo.
— Pombas!
— É. E mais o prestígio. — Ouviu a voz dela endurecer. — Vai lhe custar prestígio lidar com os "filhos da mãe pol-trões". Não foi assim que Lady Joanna se referiu ao pessoal do First Central, com um imenso ar de desdém e "Mas o que se pode esperar, são... " Imagino que quisesse dizer "americanos". — Viu os olhos de Casey se apertarem e ficou alerta. — É uma vaca velha, aquela mulher.
— Não é não, na verdade — retrucou. — É um pouco cáustica, e rude, mas, de um modo geral, não é má. É antiame-ricana, lamento dizer, paranóica, suponho. Sabe, é que o marido dela, Sir Richard, foi morto em Monte Cassino, na Itália, por bombas americanas. Os aviões pensaram que as tropas britânicas fossem nazistas.
— Ah — exclamou Casey. — Ah, entendo.