17h35m
Casey entrou nas filas congestionadas que passavam nas "borboletas" da Balsa Dourada. As pessoas se atropelavam, empurravam e apressavam pelo corredor para tomar a barca seguinte. Quando o sino de aviso soou, estridente, os que estavam na frente desataram a correr desesperadamente. Involuntariamente, os pés dela apertaram o passo. A massa de seres humanos espremidos e barulhentos levou-a até a barca. Conseguiu um lugar e ficou olhando melancólica para a baía, perguntando-se se obtivera êxito na sua parte da transação.
— Pombas, Casey — explodira Murtagh —, a matriz não vai topar isso nem em um milhão de anos!
— Se eles não toparem, estarão perdendo a maior oportunidade de suas vidas. E você também. Esta é a sua grande chance... agarre-a! Se você ajudar a Struan agora, pense em quanto prestígio todos vão ganhar. Quando Dunross for procurá-lo...
— Se vier!
— Irá. Farei com que vá procurá-lo! E quando o fizer, diga-lhe que é tudo idéia sua, não minha, e que você...
— Mas Casey, não acha...
— Não. Tem que ser idéia sua. Eu o apoiarei cem por cento junto à matriz em Nova York. E quando Dunross for procurá-lo, diga-lhe que também quer status de Velho Amigo.
— Pombas, Casey, já tenho problemas de sobra sem ter que explicar àqueles bestalhões nos Estados Unidos sobre Velho Amigo e "fachada"!
— Então não lhes explique essa parte. Se você conseguir concretizar essa jogada, será o banqueiro americano mais importante da Ásia.
"É", falou Casey com seus botões, doente de esperança, "e eu terei conseguido arrancar Linc da armadilha de Gornt. — Sei que tenho razão quanto ao Gornt. "
— Tem porra nenhuma, Casey! — exclamara Bartlett com raiva pela manhã, a primeira vez na sua vida juntos em que ele explodira com ela.
— É evidente, Linc — retrucara. — Não estou tentando interferir na...
— Não está uma ova!
— Foi você que trouxe Orlanda à baila, não eu! Está todo derretido porque... ela cozinha bem, dança bem, se veste bem e é uma excelente companhia! E só o que eu perguntei foi: "Divertiu-se?"
— Claro, mas falou de um jeito nojento, invejoso e ciumento, e eu sei que estava querendo dizer: "Tomara que tenha sido uma merda!"
"Linc estava com a razão", pensou Casey, infeliz. "Se ele quer passar a noite fora, é problema dele. Eu devia ter ficado de boca fechada, como das outras vezes, e não dar importância. Mas esta não é como das outras vezes. Ele está em perigo, e não quer enxergar!"
— Pela madrugada, Linc!, aquela mulher está à caça do seu dinheiro e do seu poder, e é só! Há quanto tempo a conhece? Uns dois dias. Onde a conheceu? Gornt! Ela tem que ser marionete do Gornt! Esse sujeito é vivo como ele só! Andei tomando umas informações, Linc, é ele que paga o apartamento dela, as suas contas. Ele...
— Ela me contou tudo isso, e contou sobre ele e ela, e isso faz parte do passado! Pode esquecer Orlanda! Entendeu? Pare de falar mal dela. Fui claro?
— Muita coisa está em jogo na escolha entre a Struan ou Gornt, e ambos usarão qualquer tática para minar você ou deixá-lo exposto a...
— Principalmente a tática da cama? Qual é, Casey!, pela madrugada! Você nunca foi ciumenta antes... admita que está uma arara. Ela é tudo o que um homem pode desejar, e você...
Ela se lembrou de como ele se detivera pouco antes de concluir. Ficou com os olhos cheios de lágrimas. "Ele tem razão, porra! Não sou. Sou uma merda de uma máquina comercial. Não sou feminina como ela, não sou uma trepada fácil e nem estou interessada em ser dona-de-casa, não agora, e jamais poderia fazer o que ela fez. Orlanda é suave, maleável, dourada, uma grande cozinheira, segundo ele, feminina, tem um lindo corpo, lindas pernas, muito bom gosto, e é um convite à cama. Pombas, e que convite! E sem outra idéia na cabeça salvo a de arranjar um marido rico. Aquela francesa tinha razão: Linc está pronto para cair como um patinho na armadilha de qualquer caçadora de ouro asiática ordinária e rapace, e a tal Orlanda é a nata das vigaristas de Hong Kong.
"Merda!
"Mas, não importa o que Linc diga, ainda tenho razão quanto a ela, e quanto ao Gornt.
"Tenho mesmo?
"Admitamos, só tenho por base alguns boatos e a minha intuição. Orlanda me deixou descontrolada, estou doente de medo. Cometi um erro danado soltando os cachorros em cima do Linc. Lembra o que ele disse antes de sair da suíte? 'De agora em diante, pare de se meter na minha vida particular, porra!'
"Ah, meu Deus!"
Um vento leve soprava enquanto a barca cruzava a baía, os motores roncando, as sampanas e os outros barcos saindo agilmente do caminho, o céu fechado, nublado. Indiferente a tudo, enxugou as lágrimas, pegou o espelhinho de mão e foi ver se o rímel não estava escorrendo. Um imenso cargueiro apitou, com as bandeiras tremulando, e passou majestosamente por eles, mas ela não o notou, nem notou a imensidão do porta-aviões nuclear atracado no cais do Almirantado, no lado de Hong Kong.
— Controle-se — resmungou, infeliz, para a sua imagem no espelho. — Porra, está com cara de quarenta anos!
Os bancos de madeira estreitos estavam lotados, e ela mudou de posição, desconfortavelmente espremida entre os outros passageiros, a maioria chineses, embora aqui e ali houvesse turistas carregados de câmaras e outros europeus. Não havia um centímetro de espaço livre, todas as passagens entupidas, os assentos entupidos, e já havia blocos de passageiros lotando a rampa de saída, nas duas cobertas. Os chineses ao seu lado liam desajeitadamente o jornal, como o fariam as pessoas em qualquer metrô, só que, de vez em quando, pigarreavam ruidosamente para limpar a garganta. Um deles cuspiu. No antepara bem à sua frente havia um grande cartaz em chinês e inglês:
É PROIBIDO CUSPIR — MULTA DE VINTE DÓLARES. Ele escarrou de novo e Casey teve vontade de tirar o jornal da mão dele e bater-lhe com ele. O comentário do tai-pan veio-lhe à lembrança:
— Há mais de cento e vinte anos que tentamos modificá-los, mas os chineses não se modificam facilmente.
"Não apenas eles", pensou, com dor de cabeça. "Tudo e todos nesse mundo dos homens. O tai-pan tem razão.
"Então, o que vou fazer? Quanto ao Linc? Mudo as regras ou não?
"Já mudei. Passei por cima dele com o plano de salvar o tai-pan. Foi a primeira vez. Vou ou não vou contar a ele?
Dunross não irá me dedurar, e Murtagh ficará com todo o crédito, terá que ficar, se o First Central topar. Terei que contar ao Linc, qualquer hora.
"Mas quer o plano de salvamento funcione, quer não, e quanto a mim e a Linc?"
Mantinha os olhos fixos à frente, sem ver, enquanto tentava decidir.
A barca estava se aproximando do ancoradouro do terminal de Kowloon. Duas outras barcas que se destinavam ao lado de Hong Kong saíram do caminho para a recém-chegada atracar. Todos se levantaram e começaram a se acotovelar na rampa de saída de bombordo. O navio adernou ligeiramente, desequilibrado. "Meu Deus!" pensou, inquieta, voltando à realidade, "deve haver umas quinhentas pessoas em cada coberta. " Então fez uma careta quando uma matrona chinesa impaciente passou por ela, espremendo-a, pisando no seu pé, e abriu caminho à força pela multidão até o começo da fila. Casey se levantou, o pé doendo, com vontade de dar uma guarda-chuvada na tal mulher.
— Eles são uma parada, não é? — comentou o americano alto atrás dela, com um bom humor sombrio.
— Como? Ah, sim... uma parada, alguns deles. — Gente cercando-a, empurrando-a, sufocando-a. Subitamente, sentiu-se sem ar e nauseada. O homem notou, e usou seu corpanzil para abrir à força um pouco de espaço. Os que foram empurrados se afastaram de má vontade. — Obrigada — disse, aliviada, já sem o enjôo. — É, obrigada.
— Sou Rosemont, Stanley Rosemont. Conhecemo-nos na casa do tai-pan.
Casey virou-se, sobressaltada.
— Puxa, desculpe, acho... acho que estava a um milhão de quilômetros de distância, não... desculpe. Como vão indo as coisas? — perguntou, sem se lembrar dele.