— Tudo na mesma, Casey. — Rosemont baixou os olhos para ela. — Você não está numa boa, hem? — perguntou, gentilmente.
— Ah, não, estou bem. Claro, tudo bem.
Afastou-se, sem graça porque ele percebera. Da popa à proa havia marinheiros, que jogaram as cordas, imediatamente apanhadas e amarradas aos pontaletes. As grossas cordas guincharam sob a tensão, trazendo-lhe os nervos à flor da pele. Enquanto a barca atracava com perfeição, a ponte levadiça começou a baixar, mas antes que tivesse baixado completamente, a multidão já saltava da barca, carregando Casey junto. Depois de alguns metros, a pressão diminuiu, e ela subiu a rampa no seu próprio ritmo, outros passageiros inundando a rampa oposta para embarcar para o lado de Hong Kong. Rosemont alcançou-a.
— Está no Vic?
— Estou. E você?
— Ah, não! Temos um apartamento, do lado de Hong Kong... de propriedade do consulado.
— Estão aqui há muito tempo?
— Dois anos. É interessante, Casey. Depois de mais ou menos um mês, você se sente trancafiado... nenhum lugar aonde ir, tanta gente, os mesmos amigos dia após dia. Mas logo fica ótimo. Logo você começa a sentir que está no centro dos acontecimentos, no centro da Ásia, onde hoje tudo está acontecendo. Claro, Hong Kong é o centro da Ásia... os jornais são bons, a comida é excelente, assim como o golfe, as corridas, os barcos, e é fácil ir a Taipé, Bangkok, ou a outro lugar qualquer. Hong Kong é legal... claro que não se compara ao Japão. O Japão é outra história. É como a terra de Oz.
— E isso é bom ou ruim?
— Fantástico... se você é homem. É dureza para as mulheres, dureza mesmo, e para as crianças. Sua impotência, sua "estrangeirice" é jogada na sua cara... você não consegue nem ler uma placa de rua. Passei dois anos Iá. Gostava um bocado. Athena, minha mulher, acabou odiando o Japão. — Rosemont riu. — Também odeia Hong Kong e quer voltar para a Indochina, para o Vietnam ou o Camboja. Ela foi enfermeira Iá, faz alguns anos, no exército francês.
Em meio à névoa dos próprios problemas, Casey notou uma nuance diferente, e começou a prestar atenção.
— Ela é francesa?
— Americana. O pai dela serviu como embaixador durante a guerra francesa.
— Têm filhos? — perguntou.
— Dois meninos. Athena foi casada anteriormente. Nova nuance.
— Seus filhos são do primeiro casamento dela?
— Um deles. Ela foi casada com um vietnamita. Foi morto pouco antes de Dien Bien Phu, quando os franceses dirigiam o país, ou estavam sendo expulsos. O pobre sujeito morreu antes de o pequeno Vien nascer. Ele é como se fosse meu filho. É, meus dois filhos são jóia. Vai se demorar muito por aqui?
— Depende do meu patrão e do nosso negócio. Acho que você sabe que estamos esperando nos unir à Struan.
— Não se fala noutra coisa na cidade... além do incêndio em Aberdeen, a inundação, os deslizamentos de lama, o temporal, a queda das ações da Struan, as corridas aos bancos e o mercado de capitais caindo aos pedaços... Hong Kong tem uma coisa: jamais é monótona. Acha que ele vai se safar?
— O tai-pan? Acabo de estar com ele. Espero que sim. Ele é confiante, muito confiante. Gosto dele.
— É. Gosto de Bartlett também. Está com ele há muito tempo?
— Quase sete anos.
Tinham saído do terminal e a rua estava igualmente cheia. À direita ficava o porto, e eles batiam papo, dirigindo-se para a passagem de pedestres que os levaria ao Vic. Rosemont indicou uma lojinha, a Rice Bowl¹.
¹ Literalmente, "Tigela de Arroz". (N. da T. )
— Athena trabalha ali de vez em quando. É um bazar de caridade, dirigido por americanos. Todo o lucro se destina aos refugiados. Muitas das mulheres trabalham ali um ou dois dias por semana, acho que isso as mantém ocupadas. Imagino que você esteja ocupada o tempo todo.
— Apenas sete dias por semana.
— Ouvi o Linc dizer que vocês iam passar o fim de semana em Taipé. Será a sua primeira visita?
— Sim... só que eu não vou, vão apenas o Linc e o tai-pan.
Casey tentou deter o pensamento imediato que veio à tona, mas não pôde: "Será que ele vai levar Orlanda? Ele tem razão, não é da minha conta. Mas a Par-Con é. E como Linc está completamente enredado pelo inimigo, quanto menos ele souber da trama do First Central, melhor".
Satisfeita por ter chegado a uma decisão desapaixonada-mente, continuou a conversar com Rosemont, respondendo às suas perguntas, sem se concentrar muito, satisfeita por conversar com uma pessoa amável, tão informativa quanto interessada.
— ... e Taipé é diferente, mais tranqüila, menos irrita-diça, mas uma cidade do futuro — dizia ele. — Somos populares em Formosa, para variar. Quer dizer que vão mesmo se expandir? Num negócio desse porte imagino que devem ter uma dúzia de executivos à disposição.
— Não. No momento só há nós dois e o Forrester, chefe da nossa divisão de espuma, e nosso advogado. — Ao mencioná-lo, Casey ficou com raiva. "Maldito seja por tentar nos bloquear. " — O Linc organizou a Par-Con muito bem. Eu cuido do dia-a-dia, e ele fixa a política da empresa.
— Vocês são uma empresa de capital aberto?
— Somos, mas numa boa, também. O Linc tem o controle, e nossos diretores e acionistas não atrapalham. Os dividendos estão aumentando, e se o negócio com a Struan se concretizar, subirão vertiginosamente.
— Bem que poderíamos ter mais firmas americanas na Ásia. O comércio foi o que fez o grande Império Britânico. Desejo-lhes boa sorte, Casey. Ei, isso me lembra uma coisa — acrescentou, descuidadamente. — Conhece o Ed, Ed Langan, meu amigo, que estava comigo na festa do tai-pan? Ele conhece um dos seus acionistas. Um sujeito chamado Bestacio, qualquer coisa assim.
Casey ficou espantada.
— Banastasio? Vincenzo Banastasio?
— É, acho que é — mentiu serenamente, observando-a, e, ante a expressão dela, acrescentou: — Falei alguma besteira?
— Não, é apenas uma coincidência. Banastasio chega amanhã. Amanhã de manhã.
— O quê?
Casey viu que ele a fitava, e deu uma risada.
— Pode dizer ao seu amigo que ele vai ficar no Hilton. A cabeça de Rosemont estava a mil por hora.
— Amanhã? Ora vejam só! Casey perguntou, cautelosamente:
— Ele é amigo íntimo de Langan?
— Não, mas ele o conhece. Diz que o Banastasio é um sujeito e tanto. Um jogador, não é?
— É.
— Não gosta dele?
— Só o vi umas duas vezes. Nas corridas. É um figurão em Del Mar. Não curto muito jogo ou jogadores.
Eles "costuravam" em meio à multidão. Gente os empurrava por trás, e hordas que vinham da direção oposta empurravam-nos pela frente. A passagem subterrânea fedia a mofo e catinga. Ela ficou muito satisfeita de voltar ao ar livre, louca por um banho, uma aspirina e um repouso até as oito horas. Para além dos prédios à frente ficava todo o porto oriental. Um jato que partia furou a cerração. Rosemont percebeu os altos mastros de carga do Soviétski Ivánov ancorado ao longe. Involuntariamente, deu uma olhada para o lado de Hong Kong e viu como seria fácil para binóculos de grande alcance examinarem o porta-aviões americano e quase contarem seus rebites.
— Faz a gente sentir orgulho de ser americano, não é? — disse Casey, alegremente, acompanhando o olhar dele. — Se você é do consulado, pode subir a bordo?
— Claro. Visita com guia!
— Que cara de sorte!
— Estive Iá ontem. O comandante deu uma festa para o pessoal local, e eu também fui.
Novamente, Rosemont mentiu com facilidade. Ele estivera a bordo na noite anterior, e também naquela manhã. Sua entrevista inicial com o almirante, comandante e chefe de segurança fora tempestuosa. Foi só quando apresentou fotocópias do manifesto de carga secreto dos armamentos do navio, e do manual de orientação dos sistemas, que eles realmente acreditaram que tinha havido um imenso vazamento de segurança. Agora, o traidor estava sob severa vigilância na cadeia do navio, vigiado pelo seu pessoal da CIA vinte e quatro horas por dia. Logo o homem cederia. "É, e depois disso", pensou Rosemont, "cadeia durante vinte anos. Por mim, eu largava o filho da mãe no meio da baía. Porra, não tenho nada contra os Metkins e o KGB. Os filhos da mãe estão apenas fazendo o seu trabalho, para o seu lado... não importa o quanto estejam errados. Mas e os nossos rapazes?"