— Muito bem, cara, foi apanhado! Primeiro, diga-nos por que o fez — perguntara-lhe.
— Dinheiro.
Puta que o pariu! O dossiê do marujo mostrava que viera de uma pequena cidade do centro-oeste. Seu trabalho era exemplar, sem nada no seu passado ou presente que sugerisse um risco de segurança em potencial. Era um homem calmo, bom no seu serviço de programação de computadores, apreciado pelos compatriotas, e os superiores confiavam nele. Nenhuma tendência esquerdista, nada de homossexualismo, nenhum problema de chantagem, nada.
— Então, por quê? — perguntara-lhe.
— Esse sujeito me abordou em San Diego e disse que queria saber tudo sobre o Corregidor, e que me pagaria.
— Mas você não sabe que isso é traição? Atraiçoar o seu país?
— Pombas, só o que ele queria eram alguns dados e números. E daí? Que diferença faz? Podemos mandar os malditos comunas pro inferno na hora em que nos der na telha. O Corregidor é o maior porta-aviões em funcionamento! Foi uma travessura, e eu queria ver se podia fazê-la, e eles pagavam pontualmente...
"Meu Deus!, como vamos manter a segurança quando existem caras como aquele, com o cérebro no rabo?", perguntou-se Rosemont, desanimado.
Caminhava ao lado de Casey, ouvindo-se bater papo com ela, sondando-a, imaginando que tipo de risco ela representava, e Bartlett, com sua ligação com o Banastasio. Logo se uniram às outras pessoas que subiam a larga escadaria que levava ao hotel. Um boy sorridente abriu as portas giratórias. O saguão fervilhava.
— Casey, ainda é cedo para o meu compromisso. Posso convidá-la para um drinque?
Casey hesitou, depois sorriu, simpatizando com ele, gostando do bate-papo.
— Claro, obrigada. Primeiro deixe-me ir buscar os meus recados, certo?
Ela foi até a recepção. Havia um maço de telex, e recados de Jannelli, Steigler e Forrester, pedindo que ela lhes telefonasse. E um bilhete escrito à mão, de Bartlett. O bilhete continha instruções de rotina sobre a Par-Con, com as quais ela concordava, e pedia-lhe que se certificasse de que o avião estaria pronto para decolar no domingo. O bilhete terminava assim: "Casey, vamos ficar com a Rothwell-Gornt. Vamos nos encontrar para tomar o café da manhã na suíte, às nove. Até Iá".
Ela voltou para junto de Rosemont.
— Podemos deixar para outro dia?
— Más notícias?
— Ah, não, só um bocado de coisas para acertar.
— Claro, mas quem sabe gostaria de jantar conosco na semana que vem, você e Linc? Queria que Athena os conhecesse. Ela lhe telefonará marcando o dia, está bem?
— Obrigada, gostaria muito.
Casey afastou-se, todo o seu ser mais do que nunca resolvido a seguir o rumo que escolhera.
Rosemont observou-a enquanto ela se afastava, depois pediu um Cutty Sark com soda, e começou a esperar, imerso em pensamentos. "Quanto será que o Banastasio tem investido na Par-Con, e o que recebe em troca? Puta que o pariu, a Par-Con está metida em assuntos de defesa, espaço e um bocado de bosta secreta. O que esse vagabundo vem fazer aqui? Graças a Deus eu mesmo cuidei de Casey hoje, e não a deixei nas mãos de um dos outros rapazes. Ele podia ter deixado escapar o Banastasio... "
Robert Armstrong chegou.
— Puxa, Robert, você está com uma cara terrível — disse o americano. — É melhor tirar umas férias ou uma boa noite de sono e deixar as mulheres de lado.
— Ora, vá tomar no... Está pronto? É melhor irmos.
— Você tem tempo para uma bebidinha rápida. O encontro no banco foi adiado para as sete. Temos tempo de sobra.
— É, mas não quero chegar atrasado, já que vamos nos encontrar com o governador no escritório dele.
— Está bem.
Obedientemente, Rosemont terminou a sua bebida, assinou a conta, e os dois foram andando para o terminal das barcas.
— Como vai a Dry Run? — perguntou Armstrong.
— Ainda estão por Iá, com as bandeiras tremulando. Parece que a revolta de Azerbaijão não deu em nada. — Rosemont percebeu o desânimo do inglês. — Qual é o grilo, Robert?
— Às vezes não gosto de ser policial, só isso — disse Armstrong, pegando um cigarro e acendendo-o.
— Pensei que tinha parado de fumar.
— Parei. Ouça, Stanley, amigão, deixe que lhe avise: você está no mato sem cachorro. Crosse está tão furioso que quase poderia ser internado.
— Isso Iá é novidade? Tem muita gente que acha o Crosse doido, mesmo. Pombas, foi o Ed Langan que avisou vocês das pastas do Alan, para começo de conversa! Puta que o pariu, somos aliados!
— É verdade — replicou Armstrong, com azedume —, mas isso não lhes dá licença de invadir, sem autorização alguma, um apartamento totalmente limpo, pertencente à companhia telefônica, que é totalmente limpa!
— Quem, eu? — Rosemont parecia magoado. — Que apartamento?
— Sinclair Towers, apartamento 32. Você e seus gorilas arrombaram a porta na calada da noite. Para quê? Pode me explicar?
— E como vou saber? — Rosemont sabia que tinha que se safar no blefe, mas ainda estava furioso, porque quem estava no apartamento conseguira escapar sem ser identificado. Sua raiva pelo vazamento do porta-aviões, por não poder interrogar o Metkin, por toda aquela nojeira da Sevrin e a perfídia do Crosse fizeram com que ordenasse a batida. Um dos seus informantes chineses captara um boato de que, embora o apartamento vivesse vazio a maior parte do tempo, às vezes era usado por agentes inimigos comunistas — de gênero desconhecido —, e que naquela noite haveria uma reunião. Connochie, um dos seus melhores agentes, dirigira a batida, e pensara ter visto de relance dois homens fugindo pelos fundos, mas não tinha certeza, e embora tivesse feito uma revista diligente, eles haviam sumido, e nada fora encontrado no apartamento para confirmar ou negar o boato, apenas dois copos pela metade. Os copos haviam sido levados e examinados para ver se havia impressões digitais. Um deles estava limpo, o outro, bem marcado. — Nunca estive no Sinclair Towers, puta merda!
— Pode ser, mas seus "policiais cômicos do cinema mudo" estiveram. Vários moradores reclamaram de quatro cau-casianos altos e robustos que subiram e desceram ruidosamente as escadas. — Armstrong acrescentou, com mais azedume ainda: — Todos de bunda grande e idéias curtas... só podem ser os seus.
— Meus, não, de jeito nenhum.
— Ah, eram, sim, e esse tiro vai lhe sair pela culatra. Crosse já mandou dois telegramas pesadíssimos para Londres. O pior é que vocês não pegaram nada, e nós levamos um esporro por causa das suas burradas contínuas!
Rosemont soltou um suspiro.
— Largue do meu pé. Tenho uma novidade para você. — Contou a Armstrong a conversa que tivera com Casey sobre Banastasio. — Claro que já sabíamos da ligação dele com a Par-Con, mas eu não sabia que chegava amanhã.
Armstrong tinha visto a data da chegada anotada na agenda de Ng Fotógrafo.
— Interessante — falou, reservadamente. — Contarei ao Velho. Mas é melhor você ter uma boa explicação para ele sobre o Sinclair Towers, e não diga que eu lhe contei.
Sua fadiga era quase incontrolável. Pela manhã, às seis e meia, começara o primeiro interrogatório real de Brian Kwok.
Fora um trabalho orquestrado: enquanto ainda sob o efeito das drogas, Brian Kwok fora tirado da sua cela limpa e branca e colocado, despido, num calabouço nojento, com paredes úmidas e um colchão fino e fétido sobre o chão mofado. Então, dez minutos depois que a injeção de acordar o trouxera a uma consciência dolorosa, a luz forte fora acesa, e Armstrong escancarara a porta e xingara o carcereiro do sei.