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— Puta que o pariu, o que está fazendo com o superintendente Kwok? Ficou maluco? Como ousa tratá-lo desse jeito?

— Ordens do superintendente Crosse, senhor. Este cliente...

— Deve haver um engano! Estou me lixando para o Crosse! — Jogara o sujeito porta afora e concentrara toda a sua atenção bondosa no amigo. — Tome, amigão, quer um cigarro?

— Ah, Deus! Obrigado... obrigado. — Os dedos de Brian Kwok tremeram quando ele segurou o cigarro e tragou profundamente. — Robert... que diabo está acontecendo?

— Não sei. Acabo de saber, e é por isso que estou aqui. Disseram-me que você estava de licença por uns dias. Crosse enlouqueceu. Alega que você é um espião comunista.

— Eu? Pelo amor de Deus... que dia é hoje?

— Dia 30, sexta-feira — respondeu prontamente, esperando a pergunta, acrescentando sete dias.

— Quem ganhou o quinto páreo?

— Butterscotch Lass — respondeu, pego de surpresa, es-pantadíssimo de que a mente de Brian ainda estivesse funcionando tão bem, e sem ter a mínima certeza de que sua ligeira hesitação não tivesse revelado que dissera uma mentira. — Por quê?

— Só queria saber... só... Escute, Robert, isso é um engano. Tem que me ajudar. Não fique aí...

Aproveitando a deixa, Roger Crosse entrou porta adentro como a ira de Deus.

— Escute, espião, quero os nomes e os endereços de todos os seus contatos, imediatamente. Quem é o seu controlador?

Debilmente, Brian Kwok se pôs de pé.

— Senhor, é tudo um engano. Não existe controlador, e não sou espião e...

Crosse subitamente enfiou na cara deles as ampliações das fotos.

— Então explique-me como foi fotografado em Ning-tok diante da farmácia de sua família, com sua mãe, Fang-ling Wu. Explique como seu verdadeiro nome é Chu-toy Wu, segundo filho desses pais, Ting-top Wu e Fang-ling Wu...

Ambos perceberam o choque instantâneo no rosto de Brian Kwok.

— Mentiras — resmungou —, mentiras, sou Brian Kar-shun Kwok, e sou...

— Você é um mentiroso! — berrou Crosse. — Temos testemunhas! Temos provas! Você foi identificado pela sua gan sun, Ah Tam!

Outra exclamação abafada, disfarçada quase com brilhantismo, depois...

— Não... não tenho nenhuma gan sun chamada Ah Tam. Tenho...

— Passará o resto da vida nesta cela, a não ser que nos conte tudo. Virei vê-lo dentro de uma semana. É melhor contar toda a verdade, caso contrário mandarei acorrentá-lo! Robert! — Crosse virou-se, furioso, para ele. — Está proibido de entrar aqui sem a minha permissão!

A seguir, saiu intempestivamente da cela.

Armstrong se recordava de como ficara nauseado ao ler a verdade escrita no rosto do amigo. Era um observador bem treinado demais para se enganar.

— Porra, Brian — disse, continuando o jogo, odiando, apesar disso, a sua hipocrisia. — O que deu em você para fazer isso?

— Fazer o quê? — retrucou Brian Kwok, desafiadoramente. — Não pode me tapear... nem me lograr, Robert... Não podem ser sete dias. Estou inocente.

— E as fotos?

— Forjadas... forjadas, obra do Crosse. — Brian Kwok se agarrou ao braço dele, uma luz desesperada no olhar, e sussurrou com voz rouca: — Eu lhe disse, o Crosse é o verdadeiro toupeira. É ele, Robert... é homossexual, está tentando me incriminar e...

Seguindo a deixa, o carcereiro do sei, compenetrado e seco, abriu bruscamente a porta da cela.

— Desculpe, senhor, mas precisa sair.

— Está bem, mas primeiro dê-lhe um pouco de água.

— Não é permitido dar-lhe água!

— Porra, vá buscar um pouco de água pra ele!

Relutante, o carcereiro obedeceu. Enquanto estavam momentaneamente sozinhos, Armstrong enfiou os cigarros sob o colchão.

— Brian, vou ver o que posso fazer...

O carcereiro voltou ao aposento com uma caneca amassada.

— Só pode tomar isso! — exclamou, com raiva. — E quero a caneca de volta!

Agradecido, Brian Kwok engoliu a água, e a droga com ela. Armstrong se retirou. A porta foi fechada, e as trancas, corridas. Abruptamente, as luzes se apagaram, deixando Brian Kwok no escuro. Dez minutos mais tarde, Armstrong voltou a entrar na cela, com o dr. Dorn. E Crosse. Brian Kwok estava inconsciente, profundamente drogado outra vez, e sonhando irrequieto.

— Robert, trabalhou muito bem — disse Crosse, suavemente. — Viu o choque do cliente?

— Sim, senhor.

— Ótimo. Eu também. Não há como se enganar com isso, ou com a culpa dele. Doutor, acelere o processo de dormir-acordar. De hora em hora, nas próximas vinte e quatro horas...

— Meu Deus! — exclamou Armstrong. — Não acha que...

— De hora em hora, doutor, desde que não haja problemas do ponto de vista médico. Não o quero machucado, apenas maleável nas próximas vinte e quatro horas. Robert, depois você o interrogará de novo. Se não der certo, nós o colocaremos no Quarto Vermelho.

O dr. Dorn se crispara, e Armstrong se recordava de que seu coração falhara uma batida.

— Não — disse.

— Puta que o pariu, o cliente é culpado, Robert — rosnou Crosse, não mais representando. — Culpado! O cliente dedurou Fong-fong e os nossos rapazes, e nos infligiu sabe Iá Deus quantos danos. Somos obrigados a isso. As ordens vieram de Londres! Lembra-se de Metkin, o grande peixe que pegamos, o comissário político do Ivánov? Acabo de saber que o avião-transporte da RAF desapareceu. Reabasteceu em Bombaim e depois desapareceu, sobrevoando o oceano Índico.

60

18h58m

O governador estava acometido de uma fúria olímpica. Saltou do carro e caminhou vigorosamente até a porta lateral do banco, onde Johnjohn esperava por ele.

— Já leu isto? — O governador agitava a edição noturna do Guardian ao ar da noite. A imensa manchete dizia: os deputados acusam A RPC. — Mas que malditos idiotas incompetentes, hem?

— É, sim, senhor. — Johnjohn estava igualmente colérico. Passou pelo porteiro fardado e entrou numa grande ante-sala. — Não dá para enforcar os dois?

Na entrevista coletiva que tinham dado à tarde, Grey e Broadhurst haviam proclamado publicamente tudo aquilo que ele, Johnjohn, Dunross e os outros tai-pans haviam longa e pacientemente condenado como totalmente contrário aos interesses da Grã-Bretanha, de Hong Kong e da China. Grey continuara discutindo longamente sua opinião pessoal de que a China Vermelha estava dedicada à conquista mundial e que devia ser tratada como a grande inimiga da paz mundial.

— Já recebi uma reclamação não-oficial oficial. Johnjohn se crispou.

— Oh, Deus, não do Tiptop?

— Claro que do Tiptop. Falou, naquela sua voz calma e sedosa: "Excelência, quando nossos pares em Pequim lerem como os membros importantes do seu grande Parlamento inglês encaram o Reino Médio, acho que vão ficar realmente muito zangados". Eu diria que nossas chances de obtermos o uso temporário do dinheiro deles, agora, são nulas.

Outra onda de raiva varreu Johnjohn.

— Aquele maldito insinuou que o ponto de vista dele é o mesmo da delegação, o que é completamente inverídico! É ridículo inflamar a China, sob qualquer circunstância. Sem a benevolência da China nossa posição aqui seria totalmente insustentável! Que idiota completo! E todos nós nos esforçamos ao máximo para explicar! — O governador tirou um lenço do bolso e assoou o nariz. — Onde estão os outros?

— O superintendente Crosse e o sr. Sinders estão usando o meu escritório por um momento. Ian já vem vindo. E quanto ao Grey e ao Ian, senhor? O que me diz do fato de Grey ser cunhado do Ian?

— Extraordinário. — Desde que Grey tocara no assunto, em resposta a uma pergunta, naquela tarde, ele recebera uma dúzia de telefonemas a respeito. — Espantoso que o Ian nunca o tenha mencionado.

— Ou Penelope. Muito estranho! Acha que... — Johnjohn ergueu os olhos e se interrompeu. Dunross vinha vindo na direção deles.