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— Boa noite, senhor.

— Alô, Ian. Marquei para as dezenove horas para ter uma chance de falar com Sinders e Stanley Rosemont. — O governador levantou o jornal. — Viu isto?

— Vi, senhor. Os jornais da noite chineses estão tão furiosos que me admira que todas as edições não estejam pegando fogo, e toda a Central junto com elas.

— Eu os levaria a julgamento por traição — disse Johnjohn, a fisionomia azeda. — Que diabo podemos fazer, Ian?

— Rezar! Já falei com o Guthrie, o deputado liberal, e alguns dos conservadores. Um dos principais repórteres do Guardian os está entrevistando agora, e suas opiniões, contrárias às de Grey e Broadhurst, serão as manchetes, refutando toda aquela baboseira. — Dunross enxugou as mãos. Podia sentir as costas igualmente suadas. A combinação de Grey, Tiptop, Jacques, Phillip Chen, a moeda e as pastas de Alan estava ata-cando-lhe os nervos. "Meu Deus", pensou, "o que virá agora?" Seu encontro com o Murtagh, do Royal Belgium, fora o que Casey previra: um tiro a esmo, bem dado. Ao sair da reunião, alguém lhes dera os jornais vespertinos, e a bomba que aqueles comentários irresponsáveis iam provocar quase o derrubara. — Teremos apenas que desmentir tudo publicamente, e particularmente trabalhar como uns doidos para ter certeza de que o projeto de Grey para baixar Hong Kong ao nível da Grã-Bretanha nunca seja votado, ou seja derrubado, e o Partido Trabalhista nunca seja eleito. — Sentiu a cólera aumentar. — Broadhurst agiu tão mal quanto ele, se não pior.

— Ian, já falou com o Tiptop?

— Não, Bruce. O telefone dele continua ocupado, mas já mandei um recado para ele. — Contou-lhes o que combinara com Phillip Chen. Então, o governador relatou a queixa de Tiptop. Dunross ficou perturbadíssimo. — Quando foi que ele ligou, senhor?

— Pouco antes das seis.

— Já teria recebido o recado, a essa altura. — Dunross sentiu o coração bater descompassadamente. — Depois dessa... débâcle, aposto que não há chance de obtermos o dinheiro chinês.

— Concordo.

Dunross estava vivamente cônscio de que não haviam tocado no assunto do seu parentesco com Grey.

— Robin Grey é um idiota — disse, achando melhor trazer tudo à luz. — Meu maldito cunhado não teria agido melhor em prol dos soviéticos se fosse membro do Politburo. Broadhurst também. Que estupidez!

Depois de uma pausa, o governador comentou:

— Como dizem os chineses: "O demônio lhe dá os parentes. Agradeça a todos os deuses por poder escolher os amigos".

— Tem toda a razão. Felizmente, a delegação deve partir no domingo. Com as corridas de amanhã e todos... os outros problemas, talvez isso acabe se diluindo. — Dunross enxugou a testa. — Está abafado aqui, não é?

O governador concordou, depois acrescentou, tensamente:

— Está tudo pronto, Johnjohn?

— Sim, senhor. A caixa-forte...

No corredor, a porta do elevador se abriu, e Roger Crosse e Edward Sinders, chefe da MI-6, apareceram.

— Ah, Sinders — falou o governador, quando os dois entraram na ante-sala —, quero apresentar-lhe o sr. Dunross.

— Prazer em conhecê-lo, senhor. — Dunross e Sinders apertaram-se as mãos. Era um homem de meia-idade, altura média, tipo comum, que não chamava a atenção, vestindo roupas amassadas. Seu rosto era magro e sem cor, a barba por fazer, grisalha. — Por favor, desculpe minhas roupas amassadas, senhor, mas ainda nem fui ao hotel.

— Lamento sabê-lo — replicou Dunross. — Isso bem que podia ter esperado até amanhã. Boa noite, Roger.

— Boa noite, senhor, boa noite, Ian — cumprimentou Crosse, vivamente. — Já que estamos todos aqui, talvez devamos prosseguir.

Obedientemente, Johnjohn saiu na frente, mas Dunross disse:

— Um momentinho. Desculpe, Bruce, mas pode dar-nos licença um instante?

— Ora, claro — retrucou Johnjohn, disfarçando a sua surpresa, perguntando-se o que se estava passando, e quem era o Sinders, mas sensato demais para perguntar. Sabia que contariam a ele, se quisessem que soubesse. A porta se fechou às suas costas.

Dunross lançou um olhar ao governador.

— O senhor atesta, formalmente, que este é Edward Sinders, chefe da MI-6?

— Sim. — O governador entregou-lhe um envelope. — Creio que o queria por escrito.

— Obrigado, senhor. — Para Sinders, Dunross disse: — Desculpe, mas há de entender a minha cautela.

— Naturalmente. Então está tudo acertado. Vamos, sr. Dunross?

— Quem é Mary McFee?

Sinders ficou chocado. Crosse e o governador olharam para ele, perplexos, depois para Dunross.

— Tem amigos em altas esferas, sr. Dunross. Posso perguntar-lhe quem lhe falou disso?

— Lamento. — Dunross não desviou os olhos dele. Alastair Struan obtivera a informação de um vip no Banco da Inglaterra, que procurara alguém do alto escalão governamental. — Só o que queremos é estar bem certos de que Sinders é quem alega ser.

— Mary McFee é uma amiga — disse Sinders, inquieto.

— Desculpe, mas isso não basta.

— Uma namorada.

— Desculpe, isso também não. Qual é o seu nome verdadeiro?

Sinders hesitou, o rosto branco como cal, depois pegou Dunross pelo braço e levou-o para a outra extremidade da sala. Falou bem junto do ouvido de Dunross.

— Anastásia Kekilova, primeira-secretária da embaixada da Tchecoslováquia em Londres — sussurrou, dando as costas para Crosse e o governador.

Dunross sacudiu a cabeça, satisfeito, mas Sinders agarrou-se ao braço dele com uma força surpreendente e sussurrou, ainda mais baixo:

— É melhor esquecer esse nome. Se o KGB sequer suspeitar que o conhece, arrancá-lo-ão do senhor. Aí, ela será uma mulher morta, eu serei um homem morto, e o senhor também.

Dunross balançou a cabeça.

— Tudo bem.

Sinders respirou fundo, depois virou-se e fez um sinal para Crosse.

— Bem, vamos acabar com isso, Roger. Excelência?

Tensamente, todos o seguiram. Johnjohn esperava junto ao elevador. As caixas-fortes ficavam três andares abaixo. Dois guardas à paisana esperavam no pequeno corredor em frente aos pesados portões de ferro, um deles do DIC, outro do sei. Ambos bateram continência. Johnjohn destrancou os portões e deixou todo mundo passar, exceto os guardas, depois voltou a trancá-los.

— Apenas um costume bancário.

— Já sofreram algum arrombamento? — perguntou Sinders.

— Não. Embora os japoneses tenham forçado os portões quando as chaves se... bem... perderam.

— O senhor estava aqui, na época?

— Não. Tive sorte. — Depois que Hong Kong capitulara, no Natal de 1941, os dois bancos britânicos, o Blacs e o Victoria, tinham se tornado alvos principais para os japoneses, e ordenou-se que fossem liquidados. Todos os executivos tinham sido separados, mantidos sob guarda e forçados a ajudar no processo. Ao longo dos meses e anos, tinham sido todos submetidos a pressões extremas. Até mesmo forçados a emitir ilegalmente papel-moeda. E então, a Kampeitai, a temida e odiada polícia secreta japonesa, se metera na história. — A Kampeitai executou vários dos nossos rapazes, e tornou a vida dos restantes infelicíssima — explicou Johnjohn. — O de sempre: nada de comida, espancamentos, privações, trancafiados em jaulas. Alguns morreram de desnutrição, "inanição" é a palavra correta, e tanto nós quanto o Blacs perdemos nossos principais executivos. — Johnjohn destrancou outra grade. Por trás dela viam-se filas e filas de cofres individuais, caixas de depósito bancário, em diversos porões de concreto interligados e reforçados. — Ian?

Dunross tirou do bolso a chave particular.

— É número 16. 85. 94.

Johnjohn foi na frente. Muito pouco à vontade, enfiou a chave do banco em uma das fechaduras. Dunross fez o mesmo com a sua chave. Giraram ambas. A fechadura se destrancou. Agora, todos os olhos fitavam o cofre. Johnjohn retirou a sua chave.