— Estarei... estarei esperando junto aos portões — falou, contente por ter terminado, e se retirou.
Dunross hesitou.
— Há outras coisas aí, documentos particulares. Dão licença?
Crosse não se mexeu.
— Lamento, mas ou o sr. Sinders ou eu mesmo devemos assegurar-nos de que estamos de posse de todas as pastas.
Dunross notou o suor nos dois homens. Suas próprias costas estavam molhadas.
— Excelência, quer fazer o favor de olhar?
— Pois não.
Com relutância, os dois outros homens se afastaram. Dunross esperou até eles estarem bem longe, depois abriu o cofre. Era grande. Os olhos de Sir Geoffrey se arregalaram. Não havia nada nele, salvo as pastas azuis. Sem comentário, ele as aceitou. Havia oito delas. Dunross bateu a porta da caixa de depósito, trancando-a novamente.
Crosse se adiantou, a mão estendida.
— Quer que eu as carregue, senhor?
— Não.
Crosse parou, espantado, e abafou um palavrão.
— Mas, Excelência...
— O ministro estabeleceu um modo de proceder, aprovado por nossos amigos americanos, com o qual eu concordei — disse Sir Geoffrey. — Voltaremos todos para o meu gabinete. Todos testemunharemos a feitura das fotocópias. Apenas duas. Uma para o sr. Sinders, outra para o sr. Rosemont. Ian, o ministro me deu ordens diretas para entregar uma cópia ao sr. Rosemont.
Dunross deu de ombros, torcendo desesperadamente para ainda aparentar despreocupação.
— Se é isso o que o ministro quer, para mim tudo bem. Depois que tiver tirado as fotocópias dos originais, senhor, por favor, queime-os. — Viu que olhavam para ele, mas estava observando Crosse, e pensou ter vislumbrado uma expressão de prazer. — Se as pastas são tão especiais, então é melhor que não existam... exceto nas mãos corretas, da MI-6 e da CIA. É evidente que não devo possuir uma cópia. Se não são especiais... então não tem importância. A maior parte dos fatos relatados por Alan são muito imaginosos, e agora que ele está morto, devo confessar que não considero as pastas especiais, contanto que permaneçam nas suas mãos. Por favor, queime-as ou retalhe-as, Excelência.
— Está bem. — O governador virou os olhos azul-claros para Roger Crosse. — Sim, Roger?
— Nada, senhor. Vamos indo? Dunross disse:
— Tenho que pegar alguns papéis da firma para examinar, já que estou aqui. Não precisam esperar por mim.
— Está bem. Obrigado, Ian — disse Sir Geoffrey, e foi embora com os outros dois homens.
Quando ficou completamente sozinho, Dunross dirigiu-se para outro grupo de cofres individuais, na caixa-forte adjacente. Pegou o chaveiro e escolheu duas chaves, bem ciente de que Johnjohn teria um ataque cardíaco se soubesse que ele tinha uma duplicata da chave-mestra. A fechadura destrancou-se silenciosamente. O cofre era um das dúzias que a Casa Nobre possuía, sob nomes diferentes. Dentro dele havia maços de notas de cem dólares americanos, títulos de propriedades antigos e documentos. Por cima, uma automática carregada. Como sempre, Dunross sentiu-se psicologicamente abalado, pois detestava armas, detestava a Bruxa Struan, ao mesmo tempo em que a admirava. Nas "Instruções aos tai-pans", escritas pouco antes da sua morte, em 1917, que faziam parte das suas últimas vontades e testamento, e que ficavam no cofre do tai-pan, ela fixara mais regras, e uma delas é que sempre deveria haver quantias substanciais secretas em dinheiro vivo para uso do tai-pan, à mão, e que deveria haver pelo menos quatro pistolas carregadas perpetuamente disponíveis em lugares secretos. Escrevera ela: "Abomino as armas, mas sei que são necessárias. Na véspera da Festa de São Miguel, em 1916, quando eu estava enferma e doente, meu neto Kelly O'Gorman, quarto tai-pan (apenas em nome), crendo que eu estava no meu leito de morte, forçou-me a sair da cama e ir até o cofre da Casa Grande, para apanhar o selo-carimbo da Casa Nobre e dar-lhe o poder absoluto como tai-pan. Ao invés disso, apanhei a arma que estava guardada secretamente no cofre e atirei nele. Ainda durou dois dias, depois morreu. Sou temente a Deus, e abomino as armas e certas mortes, mas Kelly tornara-se um cão danado, e é dever do tai-pan proteger a sucessão. Não lamento a morte dele nem um pouco. Quem estiver lendo isto, tenha cuidado: os parentes ambicionam o poder como os demais. Não tenha medo de empregar qualquer método para proteger o legado de Dirk Struan... "
Uma gota de suor escorreu-lhe pela face. Lembrou-se de que os pêlos de sua nuca tinham se arrepiado ao ler pela primeira vez as instruções dela, na noite em que assumira o posto de tai-pan. Sempre acreditara que o primo Kelly — filho mais velho de Rose, última filha da Bruxa — morrera de cólera numa das grandes epidemias que perpetuamente assolavam a Ásia.
Ela escrevera ainda outras monstruosidades:
"Em 1894, aquele ano terrível, trouxeram-me a segunda moeda de Jin-qua. Naquele ano a peste chegara a Hong Kong, a peste bubônica. Entre os nossos chineses pagãos, dezenas de milhares estavam morrendo. Nossa própria população estava sendo igualmente dizimada, e a peste atingia os grandes e os pequenos, a Prima Hannah e três filhos, dois filhos de Chen-chen, cinco netos. A lenda previa que a peste bubônica viria trazida pelo vento. Outros achavam que era uma maldição de Deus, ou uma doença como a malária, o 'ar ruim' mortífero do Happy Valley. E então, o milagre! Os médicos pesquisadores japoneses que trouxemos para Hong Kong, Vitasato e Aoyama isolaram o bacilo da doença e provaram que a peste era transmitida pelas pulgas e pelos ratos, e que medidas sanitárias corretas e a eliminação dos ratos acabariam para sempre com a maldição. A encosta infecta de Tai-ping Shan, de propriedade de Gordon — Gordon Chen, filho do meu amado tai-pan —, onde a maior parte dos nossos pagãos sempre viveu, era um antro fedorento, pustulento, superlotado, propício à proliferação de ratos e todas as pestilências, e por mais que as autoridades bajulassem, ordenassem ou insistissem, seus supersticiosos habitantes não acreditavam em nada, e nada faziam para melhorar sua sorte, embora as mortes continuassem e continuassem. Até mesmo o Gordon, agora um velho desdentado, nada podia fazer... arrancando os cabelos por causa dos aluguéis perdidos, poupando energia para as quatro mulheres jovens da sua casa.
"No fedor do final do verão, quando parecia que a colônia estava mais uma vez condenada, as mortes aumentando dia a dia, mandei incendiar Tai-ping Shan durante a noite, toda a encosta monstruosa e fétida. O fato de que alguns habitantes tenham sido consumidos pelo fogo pesa na minha consciência, mas sem aquele incêndio purificador a colônia estaria condenada, e mais centenas de milhares morreriam. Causei o incêndio que destruiu Tai-ping Shan, mas desse modo mantive-me fiel a Hong Kong, mantive-me fiel ao legado. E cumpri a palavra no tocante à segunda das meias moedas.
"No dia 20 de abril, um homem chamado Chiang Wu-tah apresentou a meia moeda ao meu querido e jovem primo, Dirk Dunross, o terceiro tai-pan, que a trouxe a mim, pois ignorava o segredo das moedas. Mandei chamar o tal Chiang, que falava inglês. O favor que me pedia era que a Casa Nobre concedesse santuário e auxílio imediatos a um jovem revolucionário chinês educado no Ocidente, de nome Sun Yat-sen; que devíamos ajudar esse Sun Yat-sen com dinheiro; e que devíamos ajudá-lo enquanto vivesse, nos limites das nossas forças, na sua luta para derrubar a dinastia manchu da China. Dar apoio a qualquer revolucionário contra a dinastia reinante da China, com a qual mantínhamos relações cordiais e da qual dependia grande parte do nosso comércio e receitas, era contra os meus princípios, e aparentemente contra os interesses da Casa. Disse que não, que não ajudaria a derrubar o imperador. Mas Chiang Wu-tah falou: 'Esse é o favor que queremos da Casa Nobre'.
"E assim foi feito.
"Correndo grande risco, forneci os fundos e a proteção. Meu querido Dirk Dunross conseguiu tirar o dr. Sun de Cantão para a colônia, e daí para os Estados Unidos. Eu queria que o dr. Sun acompanhasse o jovem Dirk à Inglaterra — ele ia partir com a maré, capitão do nosso vapor Sunset Cloud. Naquela semana eu quis entregar-lhe o poder de verdadeiro tai-pan, mas ele disse: 'Não, só quando eu voltar'. Porém, jamais voltou. Ele e todos os tripulantes pereceram no mar, nalgum lugar do oceano Indico. Ah, que terrível a minha perda, a nossa perda!