"Mas a morte faz parte da vida, e nós, os vivos, temos nosso dever a cumprir. Ainda não sei a quem passar o posto. Devia ter sido Dirk Dunross, que recebeu o nome do avô. Os filhos dele são moços demais, nenhum dos Coopers é adequado, ou os De Villes! Daglish é possível, nenhum dos MacStruans ainda está pronto. Talvez Alastair Struan, mas há nele uma fraqueza que vem desde Robb Struan.
"Não me incomodo de admitir-lhe, futuro tai-pan, que estou mortalmente cansada. Mas ainda não estou pronta para morrer. Tomara Deus eu ainda tenha forças por mais alguns anos. Não há ninguém na minha descendência, ou na do meu amado Dirk Struan, digno do seu manto. E agora ainda temos que enfrentar essa Grande Guerra, reconstruir a Casa, recompor a nossa frota mercante... até agora os submarinos alemães afundaram trinta dos nossos navios, praticamente a nossa frota inteira. É, e ainda há o favor da segunda meia moeda a ser cumprido. Esse dr. Sun Yat-sen deve ser apoiado, e o será, até morrer, para mantermos o nosso prestígio na Ásia... "
"E assim o fizemos", pensou Dunross. "A Casa Nobre apoiou-o em todas as suas dificuldades, mesmo quando tentou se unir à Rússia soviética, até que morreu, em 1925, e Chang Kai-chek, seu tenente treinado pelos soviéticos, assumiu seu manto e lançou a China para o futuro... até que seu velho aliado, mas antigo inimigo, Mao Tsé-tung, tirou dele o futuro para instalar o Trono do Dragão em Pequim, com mãos tintas de sangue, o primeiro de uma nova dinastia. "
Dunross pegou o lenço e enxugou a testa.
O ar na caixa-forte era poeirento e seco, e ele tossiu. Suas mãos também estavam suadas, e ainda podia sentir a friagem nas costas. Remexeu cuidadosamente no fundo da caixa de metal e achou o carimbo da firma de que precisaria durante o fim de semana, para o caso de se concretizar a transação Royal
Belgium-First Central. "Se fecharmos o negócio, sem dúvida ficarei devendo a Casey mais do que um simples favor", disse com seus botões.
Seu coração batia forte de novo, e não pôde resistir à tentação de se certificar. Com grande cuidado levantou uma fração o fundo falso secreto da caixa de metal. No espaço de cinco centímetros existente, estavam oito pastas azuis. Os verdadeiros relatórios de Alan M. Grant. Aqueles que momentos atrás entregara a Sinders estavam no envelope lacrado que Kirk e a mulher haviam trazido, na véspera... as oito pastas falsas e uma carta:
"Tai-pan: Estou tremendamente preocupado com que sejamos traídos e que as informações contidas nas pastas anteriores possam cair nas mãos erradas. As pastas substitutas anexas são seguras, e muito semelhantes. Omitem nomes e informações vitais. Pode entregá-las, se for forçado, mas só nessa eventualidade. Quanto aos originais, deve destruí-los depois de falar com Riko. Certas páginas têm anotações com tinta invisível. Riko lhe ensinará o segredo. Por favor, desculpe todas estas táticas di-versivas, mas a espionagem não é coisa de criança; lida com a morte, no presente e no futuro. Nossa bela Grã-Bretanha está infestada de traidores, e o mal caminha sobre a terra. Falando sem rodeios, a liberdade está sitiada, como nunca antes na história. Suplico-lhe que emule seu ilustre ancestral, que lutou pela liberdade de comerciar, viver e dar valor à dignidade. Desculpe, mas não creio que ele tenha morrido num temporal. Jamais saberemos a verdade, mas creio que foi assassinado, como eu serei. Não se preocupe, meu jovem amigo, trabalhei bem, na minha vida. Botei muitos pregos no caixão do inimigo, mais do que uma boa quantidade... peço que faça o mesmo".
A carta estava assinada "Com grande respeito".
"Pobre infeliz", pensou Dunross, tristemente.
Na véspera contrabandeara as pastas falsas para a caixa-forte, em substituição às originais, colocadas na outra caixa. Gostaria de ter podido destruir então as originais, mas não havia como fazê-lo em segurança, e de qualquer maneira ainda tinha que esperar pelo seu encontro com a japonesa. "É melhor e mais seguro deixá-las onde estão, por enquanto", pensou. "Tempo de so... "
Subitamente, sentiu que estava sendo observado. Estendeu a mão para a automática. Quando seus dedos já a agarravam, virou-se. Seu estômago pareceu dar voltas. Crosse o observava. E Johnjohn. Estavam na entrada da caixa-forte.
Depois de um momento, Crosse disse:
— Queria apenas agradecer-lhe pela sua cooperação, Ian. O sr. Sinders e eu lhe somos gratos.
Dunross sentiu-se inundar de alívio.
— Tudo bem, fico feliz em poder ajudar. — Tentando parecer natural, soltou a pistola e deixou que deslizasse para longe dele. O fundo falso se encaixou silenciosamente. Notou o escrutínio de Crosse, mas não ligou. De onde estava, não acreditava que fosse possível ao superintendente ter visto as pastas reais. Dunross abençoou sua boa sorte, que impediu que tirasse uma das pastas para folhear. Descuidadamente, fechou a porta do cofre e recomeçou a respirar. — Como é abafado aqui, hem?
— É. Obrigado mais uma vez, Ian — disse Crosse, retirando-se.
— Como abriu essa caixa? — perguntou Johnjohn, friamente.
— Com uma chave.
— Duas chaves, Ian. Isso é contra o regulamento. — Johnjohn estendeu a mão. — Por favor, o que nos pertence.
— Desculpe, meu chapa — falou Dunross calmamente —, isso não lhes pertence.
Johnjohn hesitou.
— Sempre suspeitamos de que você possuía uma duplicata da chave-mestra. Paul tem razão quanto a uma coisa: você tem poder demais, considera este banco seu, nossos fundos seus, e a colônia sua.
— Tivemos uma associação longa e feliz com ambos, e foi apenas nos últimos anos, quando Paul Havergill obteve algum poder, que comecei a ter dificuldades, eu pessoalmente, e a minha Casa, por sua vez. Mas, o que é pior, ele é antiquado, e foi apenas por esse motivo que votei pela exclusão dele. Você, não, é moderno. Será mais justo, enxergará mais longe, será menos emotivo e mais correto.
Johnjohn sacudiu a cabeça.
— Duvido. Se eu me tornar tai-pan do banco, tomarei medidas para que seja de propriedade integral dos seus acionistas, e controlado por diretores indicados por eles.
— Já é. Nós somos donos de apenas vinte e um por cento do banco.
— Eram donos de vinte e um por cento. Essas ações foram dadas como penhor contra o seu fundo, que você não pode e provavelmente nunca poderá reembolsar. Além disso, vinte e um por cento não significam controle, graças a Deus.
— Quase.
— É exatamente aonde estou querendo chegar. — A voz de Johnjohn era metálica. — Isso é perigoso para o meu banco, muito perigoso.
— Não acho.
— Eu acho. Quero onze por cento de volta.
— Não estão à venda, meu velho.
— Quando eu for tai-pan, meu velho, vou obtê-los de volta, por bem ou por mal.
— Veremos.
— Quando eu for tai-pan, vou fazer muitas modificações. Todas essas fechaduras, por exemplo. Não haverá chaves-mes-tras de propriedade particular de ninguém.
— Veremos — sorriu Dunross.
No lado de Kowloon, Bartlett saltou do cais para o barco que balançava, ajudando Orlanda a subir. Automaticamente, ela tirou os sapatos de salto alto, para proteger o belo convés de teca.
— Bem-vindo a bordo do Sea Witch, sr. Bartlett. Boa noite, Orlanda — disse Gornt, com um sorriso. Estava ao leme, e imediatamente fez sinal para o marinheiro de convés, que desatracou o barco do cais, que ficava perto do terminal das balsas de Kowloon. — Estou encantado que tenha aceito o meu convite para jantar, sr. Bartlett.
— Nem sabia que tinha um convite, até que a Orlanda me contou, há meia hora... ei, mas que barco espetacular!
Jovialmente, Gornt engrenou uma ré.