— Até uma hora atrás nem sabia que vocês dois iam jantar sozinhos. Imaginei que o senhor nunca devia ter visto o porto de Hong Kong à noite, por isso achei que devia ver, para variar. Há umas duas coisinhas que queria discutir em particular, então perguntei a Orlanda se ela se incomodaria se eu o convidasse para vir a bordo.
— Espero que não tenha sido incômodo vir para o lado de Kowloon.
— Incômodo algum, sr. Bartlett. É rotina apanhar os convidados aqui.
Gornt sorriu intimamente, lembrando-se de Orlanda e de todos os outros convidados que havia apanhado ali, no cais de Kowloon, ao longo dos anos. Habilmente, Gornt recuou o barco a motor para longe do desembarcadouro de Kowloon, junto do Terminal da Balsa Dourada, onde as ondas batiam perigosamente contra o molhe. Pôs as alavancas do motor a meio vapor, girou o leme para boreste e entrou mar adentro num curso para o oeste.
O barco tinha setenta pés, era esguio, elegante, reluzente, e se portava como uma lancha rápida. Eles estavam no convés da ponte, com um lado envidraçado, aberto ao vento, na popa, os toldos do teto esticados e farfalhando com a brisa, um rastro de espuma. Gornt usava roupas informais, um casaco curto e leve de marujo, um boné atrevido, com o emblema do Yacht Club. As roupas e sua barba preta aparada e pintalgada de fios grisalhos ficavam-lhe muito bem. Oscilava serenamente com o balanço do barco, muitíssimo à vontade.
Bartlett o observava, igualmente à vontade, de tênis e camiseta informal. Orlanda estava ao seu lado, e ele podia senti-la, embora não se estivessem tocando. Ela usava um terninho de noite escuro e um xale para protegê-la do frio do mar, e também oscilava tranqüilamente, o vento nos cabelos, pequenina, sem os sapatos.
Ele olhou para trás, para o outro lado do porto, para as balsas e barcas, juncos, navios e a imensidão cinzenta do porta-aviões nuclear, os tombadilhos iluminados, a bandeira tremulando bravamente. Um jato cortou o ar da noite, saindo de Kai Tak, enquanto os jatos que chegavam, aproximando-se de Kowloon, esperavam.
Daquele ângulo não enxergava o aeroporto ou seu próprio avião, mas sabia onde estava estacionado. Naquela tarde visitara-o, com permissão da polícia, para verificação e para apanhar alguns papéis e provisões.
Orlanda, ao seu lado, tocou-o com naturalidade, e ele olhou para ela. A moça deu-lhe um sorriso, e ele sentiu-se emocionado.
— Formidável, não é?
Feliz, ela fez que sim com a cabeça. Não havia necessidade de responder. Ambos sabiam.
— É, sim — disse Gornt, pensando que Bartlett estava falando com ele, e olhou ao seu redor. — É fantástico estar no mar à noite, dono da sua própria embarcação. Vamos para o oeste, depois quase para o sul, rodeando Hong Kong... uns três quartos de hora.
Fez sinal ao seu capitão, que estava próximo, um xangaiense calado e flexível que usava calças brancas de algodão grosso, limpas e engomadas.
— Shey-shey — agradeceu o homem, pegando o leme. Gornt indicou umas cadeiras na popa, em volta de uma mesa.
— Vamos? — Deu um olhar para Orlanda. — Está muito bonita, Orlanda.
— Obrigada.
— Não está sentindo frio?
— Ah, não, Quillan, obrigada.
Um taifeiro uniformizado veio Iá de baixo. Trazia uma bandeja com canapés quentes e frios. No balde de gelo ao lado da mesa havia uma garrafa aberta de vinho branco, quatro copos, duas latas de cerveja americana e alguns refrigerantes.
— O que lhe posso oferecer, sr. Bartlett? — perguntou Gornt. — O vinho é Frascati, mas ouvi dizer que o senhor prefere cerveja gelada, diretamente da lata.
— Esta noite, Frascati... cerveja mais tarde, se for possível.
— Orlanda?
— Vinho, por favor, Quillan — disse, calmamente, sabendo que ele sabia que ela preferia o Frascati a qualquer outro vinho. "Terei que ser muito sábia, hoje", pensou, "muito forte, muito sábia e muito esperta. " Concordara imediatamente com a sugestão de Gornt, pois também adorava o mar à noite, e o restaurante era um dos seus prediletos, embora tivesse preferido ficar a sós com Linc Bartlett. Mas fora obviamente uma... "Não", pensou, corrigindo-se, "não foi uma ordem, foi um pedido. Quillan está do meu lado. E nisso temos uma meta comum: Linc. Ah, como eu curto o Linc!"
Quando olhou para ele, viu que observava Gornt. Seu coração bateu rnais depressa. Como quando Gornt a levara à Espanha, e ela vira um mano a mano. "É, esta noite esses dois homens são como toureiros. Sei que Quillan ainda me deseja, diga o que disser. " Sorriu para ele, controlando sua excitação.
— Vinho para mim está ótimo.
Estava escuro no convés, a iluminação confortável e intimista. O taifeiro serviu o vinho, como sempre muito bom, delicado, seco e tentador. Bartlett abriu uma sacola de aviação que trouxera consigo.
— É um velho costume americano trazer um presente na primeira vez que se vai a uma casa... acho que aqui é uma casa.
Colocou a garrafa de vinho sobre a mesa.
— Ah, quanta gentile... — Gornt se interrompeu. Delicadamente, segurou a garrafa e fitou-a, depois levantou-se e foi examiná-la à luz da bitácula. Voltou a sentar-se. — Isso não é um presente, sr. Bartlett, é magia engarrafada. Pensei que meus olhos me enganavam. — Era um Château Margaux, um dos grandes claretes premier cru do Médoc, na província de
Bordeaux. — Nunca tomei o 49. Foi um ano mágico para os claretes. Obrigado. Muito obrigado.
— Orlanda disse que o senhor gostava mais de vinho tinto do que de branco, mas pensei que podíamos comer peixe.
Com naturalidade, colocou uma segunda garrafa ao lado da primeira.
Gornt olhou fixo para ela. Era um Château Haut-Brion. Nas boas safras, o Château Haut-Brion tinto comparava-se a todos os grandes médocs, mas o branco — seco, delicado e pouco conhecido, pois era muito escasso — era considerado um dos melhores de todos os grandes brancos bordeaux. O ano era 55.
— Se entende tanto de vinhos, sr. Bartlett, por que bebe cerveja? — perguntou Gornt, com um suspiro.
— Gosto de cerveja com massa, sr. Gornt... e cerveja antes do almoço. Mas vinho acompanhando a comida. — Bartlett abriu um sorriso. — Na terça-feira, vamos tomar cerveja com massa, depois Frascati, ou Verdicchio, ou o Casale da Ümbria com... com o quê?
— Piccata?
— Ótimo — retrucou Bartlett, sem querer outra piccata que não a feita por Orlanda. — É praticamente a minha favorita.
Fitava Gornt. Nem sequer lançou um olhar para Orlanda, mas sabia que ela sabia o que ele estava querendo dizer. "Ainda bem que a testei. "
— Como é, divertiu-se? — perguntara ela, quando viera buscá-lo de manhã, no pequeno hotel no Sunning Road. — Ah, espero que sim, Linc querido.
A outra moça era bonita, mas não houvera outra sensação que não a da luxúria, a simples satisfação do ato sexual. Dissera isso a ela.
— Ah, então a culpa foi minha. Escolhemos errado — dissera ela, com tristeza. — Hoje vamos jantar juntos e experimentar em algum outro lugar.
Involuntariamente, ele sorriu e olhou para ela. A brisa marinha deixava-a ainda mais bela. Então, percebeu que Gornt os observava.
— Vamos comer peixe hoje?
— Vamos, sim. Orlanda, contou ao sr. Bartlett sobre o Pok Liu Chau?
— Não, Quillan, só que tínhamos sido convidados para um passeio de barco.
— Ótimo. Não será um banquete, mas a comida do mar ali é excelente, sr. Bartlett. O senhor...
— Por que não me chama de Linc e deixa que eu o chame de Quillan? A "senhoria" me dá indigestão.
Todos acharam graça. Gornt continuou:
— Linc, com sua permissão, não abriremos o seu presente hoje. A comida chinesa não é para esses vinhos fabulosos, não se complementariam. Posso guardá-los para o nosso jantar na terça-feira?
— Mas claro.
Houve um pequeno silêncio, quebrado apenas pelo trovão abafado dos motores diesel Iá embaixo. Pressentindo imediatamente que Gornt desejava ficar a sós com Linc, Orlanda levantou-se com um sorriso.