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— Podem me dar licença um minuto? Vou empoar o nariz.

— Use as cabines da proa, o corredor da proa, Orlanda — disse Gornt, observando-a.

— Obrigada — replicou, e se afastou, de certo modo feliz, mas um tanto magoada. As cabines da proa eram para os convidados. Teria descido automaticamente o corredor até a cabine principal, ao banheiro que dava para a suíte de casal... a suíte que já pertencera a eles dois. "Não faz mal. O passado é o passado, e agora há o Linc", pensou, dirigindo-se para a proa.

Bartlett sorveu o seu vinho, perguntando-se por que Orlanda parecera hesitar. Concentrou-se em Gornt.

— Quantas pessoas este barco acomoda?

— Dez, confortavelmente. Tem uma tripulação regular de quatro pessoas: um capitão engenheiro de máquinas, um marinheiro de convés, um cozinheiro e um taifeiro. Eu lhe mostro o barco todo, daqui a pouco, se quiser. — Gornt acendeu um cigarro. — Não fuma?

— Não, não, obrigado.

— Podemos viajar uma semana sem reabastecer. Se necessário. Ainda concluímos a nossa transação na terça-feira?

— Ainda é o Dia D.

— Já mudou de idéia? Sobre a Struan?

— Na segunda-feira será decidida a batalha. Segunda, às quinze horas. Quando a Bolsa fechar, você terá o Ian nas mãos, ou não terá, e será novo empate.

— Dessa vez não haverá empate. Ele está arruinado.

— É o que está parecendo.

— Ainda vai para Taipé com ele?

— Ainda é o plano.

Gornt deu uma funda tragada no cigarro. Deu uma olhada na posição do barco. Estavam bem no meio do canal principal.

Gornt levantou-se e ficou por um momento ao lado do capitão, mas este também já tinha visto o pequeno junco às escuras à frente e desviou-se dele sem perigo.

— A todo o vapor à frente! — Gornt ordenou, e voltou. Tornou a encher os copos, escolheu um dos dim sum fritos e olhou para o americano. — Linc, posso ser muito franco?

— Claro.

— Orlanda.

Os olhos de Bartlett se estreitaram.

— O que é que tem?

— Como provavelmente já sabe, ela e eu fomos muito bons amigos, no passado. Muito bons amigos. Hong Kong é um lugar cheio de fofocas, e você vai ouvir todo tipo de boatos, mas ainda somos amigos, embora já há três anos não estejamos mais juntos. — Gornt olhava para ele por sob as espessas sobrancelhas negro-grisalhas. — Só quero dizer que não gostaria que ela fosse magoada. — Os dentes dele brilharam com o sorriso que deu, à luz da caixa da bússola. — E que é difícil encontrar uma pessoa e uma companheira excelente como ela.

— Concordo.

— Desculpe, não estou querendo repisar nada, só queria abordar três tópicos, de homem para homem. Esse foi o primeiro. O segundo é que ela é uma das mulheres mais discretas que já conheci. O terceiro é que ela não tem nada a ver com os nossos negócios... não a estou usando, ela não é um prêmio, ou uma isca, ou coisa parecida.

Bartlett deixou o silêncio pesar. Depois, sacudiu a cabeça.

— Claro.

— Não acredita em mim? Bartlett soltou uma risada gostosa.

— Que diabo, Quillan, estamos em Hong Kong, e aqui sou como um peixe fora d'água. Nem sei se Pok Liu Chau é o nome de um restaurante, uma parte de Hong Kong, ou se fica na China Vermelha. — Bebeu o vinho, apreciando-o. — Quanto à Orlanda, é fantástica, e não precisa se preocupar. Entendi o que quis dizer.

— Espero que não tenha se incomodado por eu ter tocado no assunto.

Bartlett sacudiu a cabeça.

— Fico contente por tê-lo feito. — Hesitou e, depois, porque o outro homem fora franco, resolveu falar francamente de tudo. — Ela me falou da criança.

— Ótimo.

— Por que a testa franzida?

— Só fiquei surpreso por ela tê-la mencionado agora. Orlanda deve gostar muito de você.

Bartlett sentiu a força dos olhos que o observavam, e tentou decifrar se havia inveja neles.

— Espero que sim. Ela contou que você tem sido ótimo para ela, desde que se separaram. E para a família dela, também.

— São boa gente. É uma dureza criar cinco filhos na Ásia, criá-los bem. Foi sempre política da nossa companhia ajudar as famílias, quando possível. — Gornt sorvia o seu vinho. — Vi Orlanda pela primeira vez quando ela estava com dez anos. Era um sábado, nas corridas, em Xangai. Naquela época, todo mundo vestia as melhores roupas e ficava passeando pelos paddocks. Era a sua primeira "saída" oficial. O pai dela era gerente da nossa divisão de expedição... um bom sujeito, Eduardo Ramos, terceira geração de Macau. A mulher é xangaiense pura. Mas Orlanda... — Gornt soltou um suspiro. — Orlanda era a garotinha mais bonita que eu já vira. Seu vestido era branco... Não me lembro de tê-la visto mais até que voltou do colégio. Estava com quase dezoito anos, e, bem, apaixonei-me loucamente por ela. — Gornt ergueu os olhos do copo. — Nem sei lhe contar como me sentia afortunado, nos anos que passei com ela. — O olhar dele ficou duro. — Ela contou como destruí o homem que a seduziu?

— Contou.

— Ótimo. Então, você está sabendo de tudo. — Gornt acrescentou, com grande dignidade: — Só queria mencionar os três tópicos.

Bartlett sentiu uma onda de afeição pelo outro homem.

— Compreendo-os. — Debruçou-se para a frente para aceitar mais vinho. — Por que não deixamos a coisa assim: na terça-feira, todas as dívidas e amizades são canceladas e começamos do nada. Todos nós.

— Nesse meio tempo, de que lado você está? — perguntou Gornt, todo o rosto um sorriso.

— Na incursão, cem por cento do seu lado! — respondeu Bartlett logo. — Para o estabelecimento da Par-Con na Ásia? Estou no meio. Espero pelo vencedor. Inclino-me por você, e espero que seja o vencedor, mas estou esperando.

— As duas coisas não são uma só?

— Não. Estabeleci as regras básicas da incursão há muito tempo. Disse que a incursão é uma operação única, ou vai ou racha. — Bartlett sorriu. — Claro, Quillan, estou com você cem por cento, na incursão... não lhe entreguei dois milhões sem carimbo ou documento, apenas com um aperto de mão?

Depois de uma pausa, Gornt falou:

— Em Hong Kong às vezes isso tem mais valor. Não tenho as cifras exatas, mas no papel estamos com vantagem de vinte e quatro a trinta milhões de HK.

Bartlett levantou a taça:

— Aleluia! Mas, enquanto isso, e a corrida aos bancos? Como irá nos afetar?

Gornt franziu o cenho.

— Não creio que vá. Nosso mercado é muito instável, mas o Blacs e o Vic são sólidos, não quebrarão, e o governo tem que apoiar os dois. Corre um boato de que o governador vai declarar a segunda-feira feriado bancário e fechar os bancos pelo tempo que for preciso... é só uma questão de tempo, até que haja dinheiro vivo disponível para deter a perda de confiança. Nesse meio tempo, muita coisa vai ser queimada, e muitos bancos se verão encostados à parede, mas isso não deverá afetar o nosso plano.

— Quando você vai recomprar?

— Depende de quando você vá abandonar a Struan.

— Que tal ao meio-dia da segunda? Isso dará tempo de sobra, antes que se encerre o pregão, para você e seus representantes secretos comprarem, depois que a notícia transpirar, e as ações baixarem ainda mais.

— Excelente. Os chineses funcionam à base de boatos, e muito, assim o mercado pode oscilar entre a alta repentina e a queda, ou vice-versa, com toda a facilidade. Meio-dia está ótimo. Vai livrar-se dele em Taipé?

— Vou.

— Vou precisar de uma confirmação por telex.

— Casey a dará.

— Ela está sabendo? Do plano?

— Sim, agora está. De quantas ações precisará para obter o controle acionário?

— Você devia ter essa informação.

— É o único item que me falta.

— Quando recomprarmos, teremos o bastante para nos dar pelo menos três lugares imediatos na diretoria, e será o fim do Ian. Logo que fizermos parte da diretoria, a Struan estará em nosso poder, e então, muito em breve, farei a fusão da Struan com a Rothwell-Gornt.