— E passará a ser o tai-pan da Casa Nobre.
— É. — Os olhos de Gornt reluziram. Tornou a encher as taças. — Saúde!
Beberam, satisfeitos com sua transação. Mas, bem no íntimo, nenhum deles confiava no outro, nem um pouquinho. Ambos estavam muito contentes por terem planos de emergência... para o caso de uma necessidade,
De cara fechada, os três saíram do Palácio do Governo e entraram no carro de Crosse. Ele foi dirigindo. Sinders sentava-se à frente, Rosemont no banco de trás, ambos agarrados com firmeza às cópias das pastas de Alan, que ainda não haviam lido. A noite estava escura, o céu nublado, o tráfego mais congestionado do que de costume.
Rosemont falou, do banco traseiro:
— Acha que o governador vai ler os originais antes de destruí-los?
— Eu leria — replicou Sinders, sem virar-se para olhar para ele.
— Sir Geoffrey é esperto demais para isso — disse Crosse. — Não destruirá os originais até que sua cópia esteja direitinho nas mãos do ministro, para o caso de você não chegar Iá. Mesmo assim, é astuto demais para ler algo que poderia ser constrangedor para o plenipotenciário de Sua Majestade, e portanto para o governo de Sua Majestade.
Novo silêncio.
Então, incapaz de se conter mais, Rosemont perguntou friamente:
— E quanto ao Metkin, hem? Onde foi o furo, Rog?
— Em Bombaim. O avião deve ter sido sabotado ali, se é que foi sabotagem.
— Puta que o pariu, Rog, tem que ser. Claro que alguém deu a dica. Onde foi o vazamento? O seu maldito toupeira de novo? — Esperou, mas não obteve resposta de nenhum dos dois. — E quanto ao Ivánov, Rog? Vai detê-lo e fazer uma revista surpresa?
— O governador consultou Londres, e eles acharam que não seria sensato criar um incidente.
— E esses cretinos Iá entendem de alguma coisa, pombas! — exclamou Rosemont, com raiva. — É um navio espia, pela madrugada! Aposto cinqüenta contra um alfinete de chapéu que obteríamos os livros de código atuais, daríamos uma olhada no melhor equipamento de vigilância da URSS, e em cinco ou seis peritos do KGB. Certo?
— Claro que tem razão, sr. Rosemont — disse Sinders, secamente. — Mas não podemos, não sem a aprovação necessária.
— Deixe que eu e meus rapazes...
— De maneira alguma!
Com irritação, Sinders pegou os seus cigarros. O maço estava vazio. Crosse ofereceu-lhe o seu.
— Quer dizer que vão deixar que nada lhes aconteça?
— Vou convidar o comandante Suslev ao QG amanhã, e pedir-lhe uma explicação — disse Sinders.
— Gostaria de estar presente.
— Pensarei no assunto.
— Receberá uma permissão oficial antes das nove horas. Sinders falou bruscamente:
— Lamento, sr. Rosemont, mas se eu quiser posso passar por cima de qualquer diretiva dos seus superiores, enquanto estiver aqui.
— Pela madrugada, somos aliados!
— Então, por que deu uma batida no Sinclair Towers, sem ser convidado? — indagou Crosse, vivamente.
Rosemont soltou um suspiro e contou-lhes. Pensativo, Sinders lançou um olhar para Crosse, depois para Rosemont novamente.
— Quem lhe contou que era um esconderijo inimigo, sr. Rosemont?
— Temos uma grande rede de informantes, aqui. Foi parte de um interrogatório. Não posso contar-lhes quem, mas dar-lhes-ei cópias das impressões digitais que tiramos do copo, se as quiserem.
Sinders disse:
— Seriam muito úteis. Obrigado.
— Isso não o absolve de uma batida insensata e não autorizada — disse Crosse, friamente.
— Já pedi desculpas, tá legal? — explodiu Rosemont, empinando o queixo. — Todos cometemos erros. Como Philby, Burgess e Maclean! Londres é danada de esperta, não é? Temos uma dica quente de que ainda há um quarto sujeito... mais alto ainda, igualmente bem colocado e rindo de vocês.
Crosse e Sinders ficaram sobressaltados. Entreolharam-se. A seguir, Sinders virou a cabeça para trás.
— Quem?
— Se eu soubesse, nós o pegaríamos. Philby escapou com tantas coisas nossas que nos custou milhões reagrupá-las e recodificá-las.
Sinders disse:
— Lamento quanto ao Philby. É, todos nos sentimos péssimos em relação a ele.
— Todos cometemos erros, e o único pecado é o fracasso, certo? Se eu tivesse agarrado um par de agentes inimigos ontem à noite, vocês estariam dando vivas. Mas fracassei. Pedi desculpas, tá legal? Vou pedir licença na próxima vez, tá legal?
— Não vai — disse Crosse —, mas nos pouparia a todos muitos aborrecimentos se o fizesse.
— O que foi que ouviu dizer sobre um quarto homem? — perguntou Sinders, o rosto pálido, a barba por fazer deixando-o parecer ainda mais desmazelado.
— No mês passado estouramos outro aparelho comunista, nos Estados Unidos. Porra, são como baratas. Esse aparelho tinha quatro pessoas, duas em Nova York, duas em Washington. O cara de Nova York era Ivan Egorov, outro oficial do secretariado da onu. — Rosemont acrescentou amargamente: — Meu Deus, por que o nosso lado não acorda e enxerga que a maldita onu está infiltrada de agentes, a melhor arma soviética desde que roubaram a porra da nossa bomba! Pegamos Ivan Egorov e a mulher, Alessandra, passando segredos de espionagem industrial, de computadores. Os dois de Washington haviam assumido nomes americanos de pessoas que haviam morrido: um padre católico e uma mulher de Connecticut. Os quatro filhos da mãe estavam ligados a um palhaço da embaixada soviética, um adido que era o seu controlador. Nós o pegamos com a mão na massa, tentando recrutar um dos nossos homens da CIA para espionar para eles. Claro. Mas antes de o mandarmos para fora dos Estados Unidos, demos-lhe um susto tão grande que entregou os outros quatro. Um deles nos deu a dica de que o Philby não era o chefão, de que havia um quarto homem.
Sinders tossiu e acendeu outro cigarro na guimba do que estava fumando.
— O que foi que ele disse? Exatamente.
— Só que a célula de Philby constava de quatro. O quarto é o sujeito que recrutou os outros, o controlador da célula e o principal elo de ligação com os soviéticos. O boato é que ele está Iá em cima. "Super-VIP. "
— De que tipo? Político? Ministério do Exterior? Nobreza?
Rosemont deu de ombros.
— Apenas que é "Super-VIP".
Sinders fitou-o, depois não fez mais perguntas. Crosse dobrou na Sinclair Road, parou no seu próprio apartamento para deixar Sinders saltar, depois dirigiu até o consulado, que ficava perto do Palácio do Governo. Rosemont apanhou uma cópia das impressões digitais, depois levou Crosse à sua sala, que era ampla e bem provida de bebidas alcoólicas.
— Uísque?
— Vodca com uma pitada de suco de lima — pediu Crosse, de olho nas pastas de Alan, que Rosemont largara descuidadamente sobre a escrivaninha.
— Saúde.
Encostaram os copos. Rosemont tomou um grande gole do seu uísque.
— No que está pensando, Rog? Passou o dia todo como um gato em telhado de zinco quente.
Crosse fez um gesto de cabeça na direção das pastas.
— São elas. Quero aquele toupeira. Quero que a Sevrin seja destruída.
Rosemont franziu a testa.
— Muito bem — falou, após uma pausa. — Vamos ver o que temos aqui.
Pegou a primeira pasta, pôs os pés em cima da mesa e começou a ler. Não levou nem dois minutos para terminar, a seguir passou-a a Crosse, que lia com rapidez igual. Celeremente leram as pastas, uma por uma. Crosse fechou a última página da última delas e devolveu-a. Acendeu um cigarro.
— Coisa demais para ser comentada agora — murmurou Rosemont, distraidamente.
Crosse percebeu uma estranha nuance na voz do americano, e perguntou-se se estaria sendo testado.
— Uma coisa salta aos olhos — disse, observando Rosemont. — Não se comparam em qualidade àquela outra, a que interceptamos.
Rosemont concordou.