— Também saquei isso, Rog. Como o explica?
— Parecem chochas. Um bocado de perguntas sem resposta. Não se toca na Sevrin, nem no toupeira. — Crosse ficou brincando com o copo de vodca, depois terminou de beber. — Estou desapontado.
Rosemont rompeu o silêncio.
— Então, ou a que pegamos era única e diferente, escrita de modo diferente, ou estas são falsas, ou falsificadas?
— É.
Rosemont soltou a respiração.
— O que nos leva de volta a Ian Dunross. Se estas são falsas, ele ainda está de posse das verdadeiras.
— Ou de fato, ou na cabeça.
— O que quer dizer?
— Dizem que ele tem uma memória fotográfica. Podia ter destruído as verdadeiras e preparado estas, mas ainda se lembrar das outras.
— Ah, então ele pode ser interrogado, se... se nos tiver tapeado.
Crosse acendeu outro cigarro.
— É. Se os altos poderes decidirem que é necessário. — Ergueu os olhos para Rosemont. — Claro que um interrogatório desses seria altamente perigoso, e teria que ser ordenado exclusivamente de acordo com a Lei dos Segredos Oficiais.
O rosto de Rosemont ficou ainda mais sombrio.
— Devo pegar a bola e correr?
— Não. Primeiro temos que ter certeza, o que deve ser relativamente fácil. — Crosse lançou um olhar para o barzinho.
— Posso?
— Claro. Vou tomar outra dose de uísque. Crosse estendeu-lhe o copo cheio.
— Vou fazer um trato com você: você coopera de verdade, completamente, não faz nada sem me avisar com antecedência, nada de segredos, nada de pôr o carro adiante dos bois...
— Em troca do quê?
Crosse deu o seu sorrisinho seco e apanhou algumas fotocópias.
— Será que lhe agradaria influenciar, quem sabe até controlar, certos candidatos presidenciais... quem sabe até mesmo uma eleição?
— Não estou entendendo.
Crosse entregou-lhe as cartas de Thomas K. K. Lim que Armstrong e sua equipe haviam apanhado na batida feita ao Lo Dentuço, dois dias antes.
— Parece que certas famílias americanas muito ricas e bem-relacionadas estão de combinação com certos generais americanos para construir diversos campos de pouso grandes, mas desnecessários, no Vietnam, para obter lucro pessoal. Isso aqui documenta como, quando e quem. — Crosse contou-lhe onde e como os documentos haviam sido encontrados, e acrescentou:
— O senador Wilf Tillman, o tal que está aqui agora, não tem pretensões a ser candidato presidencial? Imagino que faria de você chefe da CIA, em troca dessas prendas,.. se você quisesse dá-las a ele. Estas duas ainda são mais suculentas. — Crosse colocou-as sobre a mesa. — Documentam como certos políticos bem-relacionados e as mesmas bem-relacionadas famílias obtiveram aprovação do Congresso para canalizar milhões para um programa de ajuda totalmente fraudulento no Vietnam. Oito milhões já foram entregues.
Rosemont leu as cartas. Seu rosto ficou branco como cal, Pegou o telefone.
— Quero falar com Ed Langan. — Esperou um momento, depois seu rosto ficou repentinamente roxo. — Estou me lixando! — berrou. — Tire a bunda da cadeira e mande o Ed vir para cá imediatamente. — Bateu o telefone com força, dizendo os maiores palavrões, abriu a escrivaninha, achou um vidrinho de pílulas antiácidas e tomou três delas. — Desse jeito nunca vou chegar aos cinqüenta anos — resmungou. — Rog, esse palhaço, esse tal de Thomas K. K. Lim, podemos pôr as mãos nele?
— À vontade, se puderem encontrá-lo. Está em algum lugar da América do Sul. — Crosse largou na mesa outro papel.
— Este é um relatório confidencial da Anticorrupção. Não deve ter nenhuma dificuldade em descobri-lo.
Rosemont leu o papel.
— Meu Deus! — Depois de uma pausa, disse: — Isso pode ficar entre nós? Vai quebrar o telhado de vidro de alguns dos nossos monumentos nacionais.
— Naturalmente. Vamos fazer um acordo? Nada escondido, de ambos os lados?
— Tá legal. — Rosemont foi até o cofre e destrancou-o.
— Uma mão lava a outra. — Achou a pasta que estava procurando, tirou alguns documentos, devolveu a pasta ao lugar e trancou de novo o cofre. — Tome, são fotocópias. Pode ficar com elas.
O cabeçalho das fotocópias dizia "Lutador pela Liberdade". Estavam datadas daquele mês e do mês passado. Crosse percorreu-as rapidamente, soltando um assobio de vez em quando. Eram todos relatórios de espionagem, de qualidade excelente. Todos os itens tratavam de Cantão, de coisas acontecidas dentro e ao redor da capital vital da província de Kwantung: movimentos de tropas, promoções, indicações para a junta governamental local e para o Partido Comunista, inundações, escassez de víveres, os militares, quantidade e tipo de mercadorias da Alemanha Oriental e da Tchecoslováquia encontradas nas lojas.
— Onde arranjou isto? — perguntou.
— Temos um aparelho operando em Cantão. Esse é um dos relatórios deles, que recebemos mensalmente. Quer uma cópia?
— Quero, sim, obrigado. Vou verificar a exatidão delas através das nossas fontes.
— São exatas, Rog. Claro que são altamente sigilosas, certo? Não quero os meus rapazes descobertos como o Fong-fong. Isso fica entre mim e você, está bem?
— Está bem.
O americano se levantou e estendeu a mão.
— E, Rog, desculpe a batida.
— Sei.
— Ótimo. Quanto a esse palhaço, Lim, vamos achá-lo. — Rosemont espreguiçou-se, cansado, depois foi servir-se de mais um drinque. — Rog?
— Não, obrigado, já vou andando — disse Crosse. Rosemont cutucou as cartas com medo.
— Quanto a elas, obrigado. É, obrigado, mas... — Parou por um momento, à beira de lágrimas de raiva. — Às vezes me dá tanta náusea ver o que a nossa gente faz por uma pilha de grana, mesmo que a porra da pilha seja de ouro puro, que me dá vontade de morrer. Sabe o que estou querendo dizer?
— Claro que sim! — disse Crosse, a voz bondosa e gentil, mas pensando intimamente: "Como você é ingênuo, Stanley!"
A seguir foi embora, dirigiu-se ao QG da polícia, e verificou as impressões digitais no seu arquivo particular. Depois voltou a entrar no seu carro, guiando a esmo na direção de West Point. Quando teve certeza de não estar sendo seguido, parou na primeira cabine telefônica e discou. Dali a um momento, atenderam, do outro lado. Nenhuma resposta, apenas o respirar. Prontamente, Crosse tossiu a tosse seca e áspera de Arthur e falou, numa perfeita imitação da voz de Arthur:
— O sr. Lop-sing, por favor.
— Aqui não há nenhum sr. Lop-ting. Lamento, é engano. Satisfeito, Crosse reconheceu a voz de Suslev.
— Quero deixar um recado — disse, continuando o código na mesma voz que tanto ele quanto Jason Plumm usavam ao telefone, ambos achando de grande utilidade fingir ser o Arthur, quando necessário, protegendo ainda mais a si mesmos e a suas identidades verdadeiras.
Quando o código foi completado, Suslev disse:
— E?
Crosse deu um débil sorriso, feliz por poder tapear Suslev.
— Li o material. O Nosso Amigo também.
"Nosso Amigo" era o codinome de Arthur para ele próprio, Roger Crosse.
— Ah! E?
— E ambos concordamos que é excelente. "Excelente" era uma palavra-código que significava informação falsa ou falsificada.
Uma longa pausa.
— E daí?
— O Nosso Amigo pode entrar em contato com você,
no sábado, às quatro? (Roger Crosse pode entrar em contato com você logo mais, às dez horas, num telefone seguro?)
— Pode. Obrigado por telefonar. (Pode. Mensagem compreendida. )
Crosse desligou o aparelho.
Pegou outra moeda e discou de novo.
— Alô?
— Alô, Jason, aqui fala Roger Crosse — disse amavelmente.
— Ora, alô, superintendente, que surpresa agradável — replicou Plumm. — O nosso jogo de bridge de amanhã ainda está de pé? (Interceptou as pastas de Alan M. Grant?)
— Está — disse Crosse, acrescentando com naturalidade: — Mas, ao invés de seis, que tal marcarmos para as oito? (Sim, mas estamos a salvo, não foram mencionados nomes. )