— Puta que o pariu, nunca vai aprender a usar a porra dos seus olhos? Devia estar claro como cristal, quando cheguei, que eu estava me sentindo um lixo, que tive um dia pesadíssimo! Que merda, por que não me deu logo uma bebida, não me fez um carinho imediatamente? E por que não calou essa maldita boca por dez minutos enquanto eu me recuperava? Bastava ser meiga e compreensiva por dez malditos minutos, e eu logo estaria bem!
— Mas, Quillan — choramingara ela, em meio às lágrimas, assustada pela fúria dele —, você entrou tão zangado que fiquei nervo...
— Já lhe disse umas cinqüenta vezes para não ficar nervosa só porque eu estou nervoso, porra! Seu papel é aliviar a minha tensão! Use os seus malditos olhos, ouvidos e sexto sentido! Só preciso de dez minutos, depois fico dócil e manso de novo. Puta que o pariu, não cuido de você o tempo todo? Não uso os meus malditos olhos e tento tranqüilizá-la? Todo mês, na mesma época, você fica irritadiça, não é? Não me esforço para ser o mais calmo possível e acalmar você? Hem?
— É, mas...
— Para o diabo com o mas! Por Deus, agora estou mais puto da vida do que quando cheguei! É culpa sua, porque é burra, não é feminina, e justamente você não podia ser assim!
Orlanda lembrava-se de como ele saíra do apartamento, batendo a porta, e ela desatara a chorar, o jantar de aniversário que preparara arruinado e a noite estragada. Mais tarde, ele voltara, dessa vez calmo, tomara-a nos braços e segurara-a com carinho, enquanto ela chorava, desculpando-se pela briga que reconhecia ter sido desnecessária e por culpa dela.
— Ouça, Orlanda — dissera, com muita meiguice —, não sou o único homem que você terá que controlar nesta vida, nem o único de quem dependerá... é um fato reconhecido que as mulheres dependem de algum homem, não importa o quanto ele seja terrível, mau e difícil... É tão fácil para uma mulher manter o controle! Ah, tão fácil, se usar os olhos, entender que os homens são crianças, e que, de vez em quando (a maior parte do tempo), são estúpidos, petulantes e terríveis. Mas eles fornecem o dinheiro, e é duro fazer isso, muito duro. É muito duro continuar fornecendo o dinheiro, dia após dia, seja você quem for. Moh ching moh meng... sem dinheiro, sem vida. Em troca, a mulher tem que fornecer a harmonia; o homem não pode, não o tempo todo. Mas a mulher sempre pode animar o seu homem, se quiser, sempre pode tirar-lhe o veneno. Sempre. Basta ser calma, amorosa, terna e compreensiva por algum tempo. Vou lhe ensinar o jogo da vida. Vai ter o seu doutorado em sobrevivência, como mulher, mas tem que trabalhar...
"Ah, e como trabalhei", pensou Orlanda, sombriamente, recordando todas as suas lágrimas. "Mas agora eu sei. Agora posso fazer instintivamente o que me forcei a aprender. "
— Venha, vou lhe mostrar a parte da frente do navio. Levantou-se, cônscia dos olhares do capitão, e foi na frente, confiante.
Enquanto andavam, tomou momentaneamente o braço de Linc, depois segurou o corrimão do corredor e desceu. O salão era grande, com espreguiçadeiras, sofás e poltronas presos ao chão. O barzinho era bem sortido.
— A cozinha fica no castelo da proa, junto com os alojamentos da tripulação — disse ela. — São acanhados, mas bons para Hong Kong. — Um pequeno corredor conduzia à proa. Quatro cabines, duas com cama de casal, duas com beliches. Jeitosas, impecáveis, convidativas. — O salão principal e a suíte principal de Quillan ficam na popa. São luxuosíssimos. — Deu um sorriso pensativo. — Ele curte o melhor.
— É — falou Bartlett. Beijou-a, e ela correspondeu integralmente. O desejo dele deixou-a mole e fraca, e ela abandonou-se, igualando a sua paixão, certa de que ele pararia, e de que ela não teria que detê-lo.
O jogo fora planejado assim.
Sentiu a força dele. Prontamente apertou-se contra ele, movendo-se ligeiramente. As mãos dele percorreram seu corpo, as dela corresponderam. Era glorioso estar nos braços dele, melhor do que jamais fora com Quillan, que fora sempre o professor, sempre no controle, sempre não-partilhável. Já estavam deitados quando Bartlett se afastou. O corpo dela clamava pelo dele, mas assim mesmo ela exultou.
— Vamos voltar para o convés — ouviu-o dizer, a voz rouca.
Gornt atravessou o belo salão, entrou na suíte principal e trancou a porta atrás de si. A garota dormia suavemente na imensa cama, sob a coberta leve. Ficou parado ao pé da cama, curtindo a visão, antes de tocá-la. Ela acordou devagarinho.
— Ayeeyah, como dormi bem, Honrado Senhor. Sua cama é tão convidativa! — falou em xangaiense, com um sorriso e um bocejo, e espreguiçou-se gloriosamente, como o faria uma gatinha. — Comeu bem?
— Excelentemente — replicou, no mesmo idioma. — Sua comida também estava boa?
— Ah, sim, deliciosa! — disse, cortesmente. — O Taifei-ro Cho me trouxe os mesmos pratos que vocês comeram. Gostei mais do polvo com feijão-preto e molho de alho. — Sentou-se na cama e recostou-se contra os travesseiros de seda, completamente nua. — Quer que me vista e suba ao convés, agora?
— Não, gatinha, ainda não.
Gornt sentou-se na cama, estendeu a mão e tocou-lhe os seios. Ela sentiu um ligeiro arrepio percorrê-la. Seu nome de guerra chinês era Beldade da Neve, e ele a contratara por uma noite no Cabaré Happy Hostess. Pensara primeiro em trazer Mona Leung, sua namorada, mas ela era independente demais para ficar Iá embaixo, quieta, e só subir quando ele mandasse.
Escolhera Beldade da Neve com muito cuidado. Sua beleza era extraordinária, de rosto, de corpo e de textura da pele.
Tinha dezoito anos, e fazia pouco mais de um mês que estava em Hong Kong. Um amigo de Formosa falara da raridade dela, e que estava prestes a ingressar no Cabaré Happy Hostess, vindo do clube irmão em Formosa. Duas semanas antes, ele estivera Iá e fizera um acordo lucrativo para ambos. Hoje, quando Orlanda lhe contara que ia jantar com Bartlett e ele os convidara para virem a bordo, prontamente ligara para o Happy Hostess, comprara a noite de Beldade da Neve no clube e a trouxera para bordo.
— Vou fazer uma brincadeira com um amigo, hoje — dissera à moça. — Quero que fique aqui nesta cabine, neste lugar, até que eu a leve ao convés. Pode demorar uma ou duas horas, mas você tem que ficar aqui, sem fazer nenhum barulho, até que eu venha buscá-la.
— Ayeeyah, neste palácio flutuante estou disposta a ficar uma semana, sem cobrar nada. Só a comida e o champanha... embora dormir junto fosse cobrado por fora. Posso dormir na cama, se quiser?
— Pois não, mas por favor tome primeiro uma chuveirada.
— Uma chuveirada? Os deuses sejam louvados! Água quente e fria? Será o paraíso... essa falta d'água não é nada higiênica.
Gornt a trouxera naquela noite para atormentar Orlanda, se decidisse atormentá-la. Beldade da Neve era muito mais moça, mais bonita, e ele sabia que, ao vê-la num dos robes elegantes que ela própria já usara, Orlanda ia ter um ataque. Durante todo o jantar, rira consigo mesmo, imaginando quando deveria apresentá-la para obter o máximo efeito: para excitar Bartlett e para lembrar a Orlanda que já era velha, pelos padrões de Hong Kong, e que sem a ajuda dele jamais conseguiria Bartlett, não do jeito que queria.
"Será que quero que ela se case com Bartlett?", perguntou a si mesmo, confuso.
"Não. E no entanto, se Orlanda fosse mulher de Bartlett, ele estaria sempre em meu poder, porque ela está e sempre estará. Ela ainda não se esqueceu disso. Tem sido obediente e filial. E assustada. "
Ele riu. "Ah, a vingança será doce quando eu descer o pau em você, minha cara. O que farei, algum dia. É, minha cara, não esqueci os risinhos de deboche de todos aqueles filhos da mãe de uma figa — Pug, Plumm, Havergill e o maldito Ian Dunross — quando souberam que você mal pôde esperar para se meter na cama com um garanhão com a metade da minha idade.
"Devo dizer-lhe agora que você é minha mui jai?"
Quando Orlanda estava com treze anos, a sua mãe xangaiense viera vê-lo.