O imediato chegou. Vassíli Boradinov era um sujeito bonitão e vigoroso, na casa dos trinta anos, capitão, membro do KGB, formado pelo departamento de espionagem da Universidade de Vladivostok, com patente de capitão de navio mercante.
— Sim, camarada comandante?
Suslev entregou-lhe um cabograma decifrado tirado da pilha que havia na sua mesa. Dizia:
"O imediato Vassíli Boradinov tomará o lugar de Dmítri Metkin como comissário do Ivánov, mas o comandante Suslev estará no comando em todos os níveis, até que sejam tomadas providências alternativas".
— Parabéns — disse.
Boradinov sorriu de orelha a orelha.
— Sim, senhor. Obrigado. O que quer que eu faça? Suslev ergueu a chave do cofre.
— Se eu não entrar em contato com você, nem voltar até a meia-noite de amanhã, abra o cofre. As instruções estão num pacote marcado "Emergência Um". Elas lhe dirão como proceder. A seguir... — Entregou-lhe um envelope lacrado. —
Aqui há dois números de telefone onde posso ser encontrado. Abra-o apenas numa emergência.
— Sim, senhor — disse o homem mais moço, o rosto orvalhado de suor.
— Não precisa se preocupar. Será perfeitamente capaz de assumir o comando.
— Espero que isso não seja necessário.
— Eu também, meu jovem amigo — riu Grigóri Suslev. — Por favor, sente-se. — Serviu duas vodcas. — Você merece a promoção.
— Obrigado. — Boradinov hesitou. — O que houve com Metkin?
— Primeiro, cometeu um erro estúpido e desnecessário. Depois, foi traído. Ou traiu-se. Ou o amaldiçoado sei o seguiu e o apanhou. Ou foi a CIA. Seja Iá o que tenha acontecido, o pobre idiota nunca podia ter abusado da sua autoridade e se metido em tal perigo. Foi uma burrice se arriscar, sem falar em toda a nossa segurança. Uma burrice!
O imediato se mexeu, inquieto, na cadeira.
— Qual é o nosso plano?
— Negar tudo. E não fazer nada, por enquanto. Nossa partida está prevista para a meia-noite de terça-feira; vamos nos ater ao plano.
Boradinov olhou pela vigia para o porta-aviões, o rosto tenso.
— Uma pena. Aquele material podia ter nos ajudado um bocado.
— Que material? — perguntou Suslev, estreitando os olhos.
— Não sabia, senhor? Antes de Dmítri sair, o coitado murmurou que achava que dessa vez íamos obter umas informações incríveis — uma cópia do sistema de orientação e uma cópia do manifesto de carga de armamentos deles, incluindo as armas atômicas. Era por esse motivo que estava indo pessoalmente. Era importante demais para enviar um mensageiro comum. Devo dizer-lhe que me ofereci para ir no seu lugar.
Suslev disfarçou o choque ao saber que Metkin fizera confidencias.
— Onde foi que ele ouviu isso? O outro deu de ombros.
— Não disse. Imagino que o marinheiro americano tenha lhe contado quando Dmítri falou com ele no telefone público para combinar a entrega. — Enxugou uma gota de suor. — Eles vão dobrá-lo, não é?
— Ah, vão — disse Suslev secamente, querendo instruir adequadamente o seu subordinado. — Podem dobrar qualquer um. É por isso que temos que estar preparados. — Tateou a leve saliência da cápsula de veneno na ponta da lapela, e Boradinov estremeceu. — É melhor tomá-lo depressa.
— Filhos da mãe! Alguém deve tê-los avisado de que deviam capturá-lo antes que o tomasse. Terrível. São todos uns animais.
— O... o Dmítri disse mais alguma coisa? Antes de partir?
— Não, só que esperava que tivéssemos todos umas semanas de licença... queria visitar a família na sua amada Criméia.
Satisfeito por não ter sido descoberto, Suslev deu de ombros.
— Uma grande pena. Eu gostava muito dele.
— É. É mesmo uma pena, quando se sabia que estava prestes a se reformar. Era um bom homem, embora tenha cometido um erro desses. O que farão com ele?
Suslev pensou se devia mostrar a Boradinov um dos cabo-gramas decifrado na sua mesa, que dizia:
"... Avise ao Arthur que, atendendo ao seu pedido de uma Prioridade Um para o traidor Metkin, ordenou-se uma intercepção imediata em Bombaim".
"Não há necessidade de dar essa informação de graça", pensou. "Quanto menos Boradinov souber, melhor. "
— Ele simplesmente desaparecerá... até pegarmos um peixe grande do inimigo para trocar por ele. O KGB cuida do seu pessoal — acrescentou, piedosamente, sem acreditar, sabendo que o homem mais moço também não acreditava, mas era obrigatório e fazia parte da política oficial dizê-lo.
"Eles teriam que me trocar", pensou, muito satisfeito. "É, e bem depressa. Conheço segredos demais. São a minha única proteção. Se não fosse pelo que sei, ordenariam uma Prioridade Um para mim com a mesma rapidez que ordenaram para o Metkin. Eu teria feito a mesma coisa, se fosse eles. Será que eu teria mordido a lapela, como aquele cretino devia ter feito?"
Um arrepio o percorreu, "Não sei. "
Sorveu sua vodca. Sabia-lhe muito bem. "Não quero morrer. Essa vida é muito boa.”
— Vai voltar para terra de novo, camarada comandante?
— Vou. — Suslev concentrou-se. Entregou ao homem mais moço um bilhete que datilografara e assinara. — Você agora está no comando. Eis aqui sua autorização... coloque-a na ponte.
— Obrigado. Amanhã... — Boradinov interrompeu-se quando o intercomunicador do navio foi ligado e uma voz urgente disse rapidamente:
— Aqui fala a ponte! Há dois carros de polícia convergindo para a escada do costado principal. Estão cheios de policiais... — tanto Suslev quanto Boradinov perderam a cor — cerca de uma dúzia. O que devemos fazer? Detê-los, repeli-los, o quê?
Suslev apertou o botão do transmissor.
— Não façam nada! — Hesitou, depois ligou o botão que transmitia para todo o navio. — Atenção, todos os tripulantes: Emergência Vermelho Um... — A ordem significava: "Visitantes hostis subindo a bordo. Salas de rádio e radar: armem os destruidores em todos os equipamentos secretos". Desligou o transmissor e sibilou para Boradinov: — Vá para o convés, desça as escadas, cumprimente-os, encha lingüiça por uns cinco minutos, depois convide os líderes para subirem, somente eles, se puder. Vá!
— Mas sem dúvida não ousarão vir a bordo para revistar...
— Intercepte-os... agora!
Boradinov saiu às pressas. Quando ficou sozinho, Suslev armou o destruidor secreto no seu cofre. Se qualquer pessoa, que não ele, tentasse abri-lo, o napalm incendiário destruiria tudo.
Tentou tranqüilizar a cabeça em pânico. "Pense! Está tudo coberto contra uma revista repentina? Sim. Sim, fizemos o ensaio de Vermelho Um uma dúzia de vezes. Mas Deus maldiga Roger Crosse e Arthur! Que diabo, por que não recebi um aviso? Será que Arthur foi apanhado? Ou o Roger? Khristos, que não tenha sido o Roger! E quanto... "
Seus olhos pousaram na pilha de cabogramas em código e já decifrados. Desesperadamente, jogou-os num cinzeiro, xingando-se por não tê-lo feito antes, sem saber se agora haveria tempo suficiente. Achou o isqueiro. Seus dedos tremiam. O isqueiro acendeu, e o intercomunicador entrou em funcionamento:
— Dois homens estão vindo para bordo com Boradinov, dois homens, o resto ficou Iá embaixo.
— Está certo, mas tentem retardá-los. Estou indo para o convés. — Suslev apagou a chama, com um palavrão, e enfiou os cabogramas no bolso. Agarrou uma garrafa meio vazia de vodca, inspirou fundo, abriu um amplo sorriso e foi para o convés. — Ah, bem-vindos a bordo! Qual é o problema? — disse, com a voz ligeiramente pastosa, mantendo a sua cobertura já conhecida. — Um dos nossos marujos se meteu em encrencas, superintendente Armstrong?
— Este é o sr. Sun. Podemos dar-lhe uma palavrinha? — falou Armstrong.
— Claro, claro! — disse Suslev, com uma jovialidade forçada que estava longe de sentir. Nunca tinha visto o chinês antes. Examinou o rosto amarelo, de olhos frios, cheio de ódio.
— Sigam-me, por favor. — Depois acrescentou em russo para Boradinov, que falava um inglês perfeito: — Você, também.