— Vamos explodir vocês da face da terra! — berrou Suslev. — Vamos atomizar toda a China. Vamos...
Interrompeu-se. Malcolm Sun ria dele.
— Os peitos da sua mãe estão nas suas armas atômicas!
Nós agora temos as nossas! Vocês começam, nós acabamos. Armas atômicas, punhos, relhas de arado! — Malcolm Sun baixou a voz. — Saiam da China enquanto ainda têm chance. Viemos do Oriente como Gêngis Khan, todos nós, Mao Tsé-tung, Chang Kai-chek, eu, meus netos, os netos deles, estamos vindo e vamos dizimar vocês da face da terra, e retomar as nossas terras, todas elas!
— Dê o fora do meu navio! — Suslev sentia o peito doer. Quase cego de raiva, preparou-se para saltar sobre o seu ator-mentador, assim como Boradinov.
Sem medo, Malcolm Sun adiantou-se um passo.
— Yeb tvoyu mat, cabeça de bosta! — A seguir, em inglês: — Batam em mim, e os prenderei por agressão e manterei seu navio sob custódia!
Com grande esforço, os dois homens se detiveram. Sufocado de ódio, Suslev enfiou as mãos nos bolsos.
— Por favor, retire-se. Por favor.
— Dew neh loh moh para você, sua mãe, seu pai, e o resto de vocês, soviéticos hegemonistas comedores de bosta!
— Retire-se... agora.
Igualmente furioso, Sun xingou-os em russo, e berrou:
— Viemos do Oriente como gafanhotos...
Então, ouviu-se uma súbita altercação ruidosa do lado de fora, no convés, e um estouro abafado. Imediatamente, Sun virou-se e dirigiu-se para a porta, os outros dois atrás.
Horrorizado, Suslev agora via que Armstrong estava parado junto à porta da sala de rádio, que ficava ao lado do seu camarote. A porta estava escancarada, os dois operadores assustados fitando o inglês, marinheiros do convés estupefatos e paralisados nas proximidades. Um início de fumaça já subia das entranhas do equipamento de rádio. O Vermelho Um ordenara ao operador de rádio mais antigo que acionasse o mecanismo destruidor do dispositivo de interferência secreto no instante em que um inimigo abrisse a porta ou tentasse forçar a fechadura.
Armstrong virou-se e olhou para Suslev.
— Ah, comandante, desculpe, tropecei. Mil desculpas — disse, com ar inocente —, pensei que aqui era a "casinha".
— Como?
— O banheiro. Tropecei e a porta se escancarou. Desculpe. — O policial lançou um olhar para a sala de rádio. — Santo Deus! Parece que há um incêndio. Vou chamar os bombeiros imediatamente. Malcolm, chame...
— Não... não! — disse Suslev, depois rosnou em russo para Boradinov e o pessoal de convés: — Apaguem o fogo!
Arrancou o punho cerrado do bolso e empurrou Boradinov, para que se mexesse. Sem que tivesse notado, o punho de sua camisa ficou preso num dos cabogramas decifrados, que caiu ao chão. A fumaça jorrava de trás de um dos complexos painéis de rádio. Um dos marinheiros de convés já tinha nas mãos um extintor de incêndio.
— Ora, ora! Mas, o que podia ter acontecido! Tem certeza de que não quer ajuda? — perguntou Armstrong.
— Não, não, obrigado — disse Suslev, o rosto vermelho, de tanta raiva. — Obrigado, superintendente. Até... domingo.
— Boa noite, senhor. Vamos indo, Malcolm.
Na confusão crescente, Armstrong dirigiu-se para a escada de saída, mas se abaixou e, antes que Suslev se desse conta do que estava acontecendo, apanhou o pedaço de papel e já ia na metade da escada, Malcolm Sun atrás.
Horrorizado, Suslev levou a mão ao bolso. Esquecendo o fogo, correu para o seu camarote para verificar qual o cabogra-ma que estava faltando,
Lá embaixo, no cais, policiais de uniforme já se haviam disposto em leque havia muito tempo, cobrindo as duas escadas. Armstrong estava entrando na parte de trás do carro, ao lado de Sinders. Os olhos do chefe da MI-6 estavam rodeados por círculos escuros, seu terno estava meio amassado, mas ele se mantinha gelidamente alerta.
— Bom trabalho, vocês dois! É, imagino que isso interromperá as comunicações deles por um ou dois dias.
— Sim, senhor.
Armstrong começou a remexer nos bolsos à procura do isqueiro, o coração disparado. Sinders observou Malcolm Sun sentar-se no lugar do motorista.
— O que foi? — perguntou, pensativo, vendo a cara do outro.
— Nada, nada mesmo, senhor. — Malcolm Sun virou a cabeça para trás, o suor ainda nas costas, a cabeça doendo, e o gosto adocicado e enjoativo de excitação, raiva e medo ainda na boca. — Quando... quando estava pondo em prática as táticas de retardamento para o superintendente, eu... bem, aqueles dois filhos da mãe me tiraram do sério.
— É? Como?
— Só que... eles começaram a me xingar, e eu também os xinguei. — Sun virou-se para a frente, ajeitou-se, não querendo os olhos penetrantes de Sinders fitos nos seus. — Só xingamentos — acrescentou, tentando parecer despreocupado.
— Pena que um deles não tenha batido em você.
— É, é, eu esperava por isso.
Sinders lançou um breve olhar para Armstrong, enquanto o grandalhão acionava o isqueiro, acendia um cigarro e, à luz da chama, tentava ler o papel. Sinders olhou para o navio Iá em cima. Mais uma vez Suslev estava parado no começo da escada, olhando fixo para eles.
— Ele parece estar realmente com muita raiva. Bom. — Deu uma sombra de sorriso. — Muito bom.
Com a aprovação de Sir Geoffrey, ordenara a súbita ida e a tentativa de interromper as comunicações do Ivánov — e a sua complacência —, visando a pressionar Arthur e os toupeiras da Sevrin, na esperança de tirá-los da toca.
— E o nosso toupeira da polícia? — acrescentou Sir Geoffrey, sombriamente. — É impossível que Brian Kwok seja o espião mencionado nos documentos de Alan, não é?
— Concordo — dissera.
Armstrong apagou o isqueiro. Na penumbra do carro, hesitou.
— É melhor ir organizar o destacamento, Malcolm. Não há necessidade de perdermos mais tempo aqui. Certo, sr. Sinders?
— Sim, podemos ir agora.
Obedientemente, Malcolm Sun se retirou. Armstrong observava Suslev no convés.
— O senhor... sabe ler russo, não é?
— Sei, sim. Por quê?
Cuidadosamente, Armstrong passou-lhe o papel, seguran-do-o pelas pontas.
— Isso aqui caiu do bolso de Suslev.
Com igual cuidado, Sinders apanhou o papel, sem tirar os olhos dos de Armstrong.
— Não confia no agente Sun? — indagou, suavemente.
— Ah, confio, sim. Mas os chineses são chineses, e está em russo. Não sei ler russo.
Sinders franziu o cenho. Depois de um momento, balançou a cabeça. Armstrong acendeu a chama para ele. O homem mais velho correu os olhos pelo papel duas vezes e soltou um suspiro.
— É um boletim meteorológico, Robert. Lamento. A não ser que esteja em código, não passa de um boletim meteorológico. — Dobrou cuidadosamente o papel, mantendo os vincos originais. — As impressões digitais podem ser valiosas. Talvez esteja em código. Por medida de segurança, vou passar para os nossos decifradores.
Sinders acomodou-se mais confortavelmente no carro. O papel dizia:
"Avise a Arthur que, atendendo ao seu pedido para uma Prioridade Um para o traidor Metkin, ordenou-se uma inter-ceptação imediata em Bombaim. Segundo, o encontro com o americano foi antecipado para o domingo. Terceiro e último, as pastas de Alan M. Grant continuam a ser Prioridade Um. O máximo esforço deve ser feito pela Sevrin para obter êxito. Centro".
"Que americano é esse? O encontro será com Arthur ou com quem? O comandante Suslev? Será tão inocente quanto parece? Que americano? Bartlett, Tcholok, Banastasio, ou quem? Peter Marlowe... escritor-sabe-tudo-anglo-americano, com suas teorias curiosas?" Sinders se fazia todas essas perguntas, pacientemente.
"Será que Bartlett ou Tcholok fizeram contato com o Centro em junho, em Moscou, quando estiveram Iá, com ou sem Peter Marlowe, que por acaso também estava Iá quando da realização de uma reunião de agentes estrangeiros altamente secreta?