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Gornt levantou-se debilmente. O carro ainda estava semi-aprumado. O suor escorria do seu corpo e o coração lhe batia descompassadamente. Mal conseguia respirar ou pensar. O tráfego nas duas faixas estava parado, congestionado. Ouviu buzinas tocando impacientemente, acima e abaixo, depois passos apressados.

— Está bem, meu velho? — perguntou o estranho.

— É, acho que estou. Fiquei, fiquei sem freios. — Gornt enxugou o suor da testa, tentando fazer o cérebro funcionar. Tateou o peito, depois mexeu os pés, e não sentiu dor. — Eu... fiquei sem freios... ia fazer uma curva... e depois tudo...

— Freios, hem? Isso não é coisa de Rolls. Pensei que você estava fingindo ser o Stirling Moss. Teve muita sorte.

Pensei umas vinte vezes que tinha chegado o seu fim. Se fosse você, desligaria o motor.

— Hem?

Foi então que Gomt percebeu que o motor ainda funcionava suavemente, e o rádio ainda tocava. Desligou a ignição e, depois de um momento, retirou as chaves.

— Belo carro — falou o estranho —, mas está num estado lamentável, agora. Sempre gostei deste modelo, 62, não é?

— É, é sim.

— Quer que eu chame a polícia?

Gornt fez um grande esforço e pensou por um momento, as têmporas ainda latejando. Debilmente, soltou o cinto de segurança.

— Não. Há uma delegacia logo ali atrás. Poderia me dar uma carona até lá?

— Com prazer, meu velho. — O estranho era baixo e rotundo. Olhou à sua volta para os outros carros e táxis e caminhões que estavam parados em ambas as direções, os motoristas e passageiros chineses fitando-os, aparvalhados, das janelas. — Gente danada — resmungou, com azedume. — A gente podia estar morrendo no meio da rua, e ainda teria sorte se eles não pisassem na gente.

Abriu a porta e ajudou Gornt a sair.

— Obrigado.

Gornt sentiu os joelhos trêmulos. Por um momento, não pôde dominar o tremor e apoiou-se no carro.

— Está certo de estar se sentindo bem?

— Estou, sim. É só que... isso me matou de medo! — Examinou os danos, o nariz do carro enfiado na vegetação e na terra, um enorme arranhão do lado direito, o carro batera com força na curva interna. — Que estrago!

— É, mas não teve um final trágico! Teve uma sorte dos diabos de estar num bom carro, meu velho. — O estranho deixou a porta se abrir inteiramente, depois fechou-a com um clique abafado. — Execução de mestre. Bem, pode deixá-lo aqui. Não creio que ninguém vá roubá-lo. — O estranho riu, e foi mostrando o caminho até seu próprio carro, estacionado, com o pisca-pisca ligado, logo atrás. — Pode entrar, logo estará lá.

Foi então que Gornt se lembrou do meio sorriso zombeteiro no rosto de Dunross, que ele tomara por bravata, ao se retirar. Sua mente se desanuviou. Teria havido tempo para Dunross mexer... com seu conhecimento de motores... mas teria coragem... ?

— Filho da puta — resmungou, estupefato.

— Não se preocupe, meu velho — disse o estranho, ultrapassando o local do desastre, fazendo a volta. — A polícia cuidará de tudo para você.

O rosto de Gornt ficou sombrio.

— É, cuidará, sim.

13

22h25m

— Excelente jantar, Ian, melhor do, que o do ano passado — comentou expansivamente Sir Dunstan Barre, do lado oposto da mesa.

— Obrigado.

Dunross ergueu seu copo polidamente, depois tomou um gole do conhaque de primeira.

Barre engoliu de uma vez o vinho do Porto, depois encheu de novo o cálice, o rosto mais rosado do que de costume.

— Comi demais, como sempre, por Deus! Hem, Phillip? Phillip!

— Ah... é sim... muito melhor — murmurou Phillip Chen.

— Está bem, meu velho?

— Estou... é só que... ah, estou.

Dunross franziu a testa, depois correu os olhos pelas outras mesas, mal escutando o que eles diziam.

Estavam só eles três agora, sentados à mesa redonda que acomodara doze pessoas confortavelmente. Às outras mesas, espalhadas pelos terraços e gramados, os homens se demoravam tomando conhaque, vinho do Porto, fumando charutos, ou formavam grupinhos, em pé, já que todas as senhoras haviam entrado na casa. Viu Bartlett de pé junto às mesas do bufê, que uma hora antes gemiam ao peso de pernis de carneiro assado, saladas, rosbifes malpassados, imensos empadões de carne e rins, batatas assadas e legumes de vários tipos, doces, bolos e esculturas de sorvete. Um pequeno exército de criados estava retirando as sobras, esvaziando as mesas. Bartlett estava muito entretido conversando com o superintendente-chefe Roger Crosse e o americano, Ed Langan. "Daqui a pouco vou tratar dele", pensou, sombriamente... "mas primeiro vem Brian Kwok." Olhou ao seu redor. Brian Kwok não estava à sua mesa, aquela em que Adryon fora a anfitriã, nem sentado a outra mesa qualquer, portanto ele se recostou pacientemente, bebericou o seu conhaque e deixou o pensamento vagar.

Arquivos secretos, MI-6, Serviço Especial de Informações, Bartlett, Casey, Gornt, nada de Tsu-yan, e agora Alan Medford Grant mortinho da Silva. Seu telefonema de antes do jantar para Kiernan, o assistente de Alan Medford Grant em Londres, fora chocante.

— Foi hoje de manhã, Sr. Dunross — dissera Kiernan. — Chovia, estava muito escorregadio, e ele era um motoqueiro entusiástico, como o senhor sabe. Vinha para a cidade, como de costume. Ao que nos consta, não houve testemunhas. O sujeito que o encontrou, na estrada rural perto de Esher e da Auto-Estrada A3, disse que vinha guiando em meio à chuva quando, de repente, deparou com a moto virada de lado e um homem caído na beira da estrada. Disse que, ao que lhe parecera, Alan já estava morto quando chegou junto dele. Chamou a polícia, e ela começou as investigações, mas... bem, que posso dizer? É uma grande perda para todos nós.

— É. Ele deixou família?

— Não que eu saiba, senhor. Naturalmente, informei a MI-6 imediatamente.

— É?

— É, sim, senhor.

— Por quê?

Houve forte estática na linha.

— Ele deixara instruções comigo, senhor. Se alguma coisa lhe acontecesse, eu devia ligar para dois números imediatamente, e passar-lhe um telegrama, o que fiz. Nenhum dos números me dizia nada. O primeiro deles acabou sendo o número particular de um alto funcionário da MI-6... chegou aqui em meia hora, com alguns auxiliares, e eles revistaram a escrivaninha e os documentos pessoais de Alan. Levaram a maioria, quando se foram. Quando ele viu a cópia do último relatório, daquele que acabáramos de lhe mandar, ficou uma fera, e quando pediu cópias de todos os outros, e eu lhe disse, seguindo as instruções de Alan, que eu sempre destruía a cópia do escritório logo que tínhamos notícia de que o senhor recebera a sua, ele quase teve um derrame. Parece que Alan não tinha, realmente, permissão do governo de Sua Majestade para trabalhar para o senhor.

— Mas eu tenho, por escrito, a garantia de Grant de que obtivera autorização, prévia do governo.

— Sei, senhor. O senhor não fez nada de ilegal, mas o tal sujeito da MI-6 quase ficou maluco.

— Quem era ele? Como se chamava?

— Disseram-me, senhor, disseram-me, que não devia mencionar nome algum. Ele era muito pomposo, e resmungou algo sobre a Lei dos Segredos Oficiais.

— Você falou em dois números de telefone?

— Sim, senhor. O outro ficava na Suíça. Uma mulher atendeu, e quando lhe contei, ela disse: "Ah, que pena", e desligou. Era estrangeira, senhor. Uma coisa interessante, nas instruções finais de Alan, ele mandara que eu não mencionasse nenhum dos números um para o outro, mas, como o cavalheiro da MI-6 estava, digamos assim, nervoso, eu lhe contei. Ligou prontamente, mas a linha estava ocupada, e ficou ocupada muito tempo, e então a telefonista avisou que o número fora temporariamente desligado. Ele ficou um bocado furioso, senhor.