— Pode continuar com os relatórios de Alan?
— Não, senhor. Eu era apenas um auxiliar... punha em ordem as informações que ele arranjava. Apenas escrevia os relatórios para ele, atendia ao telefone quando ele não estava, pagava as contas do escritório. Ele passava uma boa parte do tempo no continente, mas nunca dizia onde tinha estado, nem me confidenciava nada. Ele era... bem, jogava com as cartas bem grudadas ao nariz. Não sei quem lhe dava coisa alguma... nem conheço o número do seu telefone em Whitehall. Como disse, ele era muito reservado...
Dunross suspirou e tomou o seu conhaque. "Uma pena", pensou. "Foi mesmo um acidente... ou ele foi assassinado? E quando a MI-6 vai pular no meu pescoço? A conta numerada na Suíça? Isso também não é ilegal, e não é da conta de ninguém, salvo minha e dele.
"O que fazer? Tem que haver um substituto, em algum lugar.
"Foi um acidente? Ou ele foi morto?"
— Como disse? — falou, sem ter percebido o que Barre dissera.
— Eu estava dizendo que foi gozado à beca quando Casey não quis ir e você a mandou embora. — O grandalhão riu. — Você tem peito, meu velho.
No final do jantar, pouco antes da chegada do porto, do conhaque e dos charutos, Penelope se levantara da mesa, onde Linc Bartlett estava entretidíssimo conversando com Havergill, e as senhoras a acompanharam, e depois Adryon, à sua mesa, e então, vindas de todos os lados, as senhoras se levantaram e a seguiram. Lady Joanna, sentada à direita de Dunross, dissera:
— Vamos, garotas, hora de empoar o nariz. Obedientemente, as outras mulheres se levantaram com ela, e os homens, educadamente, fingiram não estar aliviados com o êxodo delas.
— Vamos indo, querida — disse Joanna a Casey, que permanecera sentada.
— Não, obrigada, estou bem.
— Sei que está, mas... venha, mesmo assim. Então, Casey notou que todos a fitavam.
— O que é que há?
— Nada, querida — disse Lady Joanna. — É costume as senhoras deixarem os homens sozinhos por algum tempo, com o vinho do Porto e os charutos. Portanto, venha comigo.
Casey a fitou, surpresa.
— Quer dizer que somos mandadas embora enquanto os homens discutem negócios de Estado e o preço do chá na China?
— É questão de bons modos, querida. Em Roma, faça como os romanos...
Lady Joanna a observava, com um leve sorriso desdenhoso nos lábios, curtindo o silêncio embaraçado e o ar chocado da maioria dos homens. Todos os olhares se voltaram para a moça americana.
— Não pode estar falando a sério. Esse costume acabou antes da Guerra Civil — falou Casey.
— Estou certa que sim, nos Estados Unidos. — Joanna deu o seu sorriso retorcido. — Aqui é diferente, faz parte da Inglaterra. É uma questão de bons modos. Vamos, minha cara.
— Já vou... minha cara — retrucou Casey, com igual doçura. — Daqui a pouco.
Joanna soltou um suspiro, deu de ombros, olhou para Dunross com a sobrancelha levantada, deu o seu sorriso torto e se retirou com as outras senhoras. Fez-se um silêncio atônito à mesa.
— Tai-pan, não se incomoda que eu fique, não é? — perguntou Casey, rindo.
— Infelizmente, incomodo-me — disse ele, gentilmente. — É só um costume, nada importante. É apenas para que as senhoras possam se utilizar primeiro do banheiro e dos baldes de água.
O sorriso dela se desvaneceu, e começou a empinar o queixo.
— E se eu preferir não ir?
— É só um costume nosso, Ciranoush. Na América é costume chamar pelo primeiro nome uma pessoa a quem se acaba de conhecer, aqui não é. Mesmo assim... — Dunross devolvia o olhar calma, mas inflexivelmente. — Não é nenhum desprestígio.
— Acho que é.
— Lamento... mas lhe asseguro que não é.
Os outros esperavam, observando-o e observando-a, curtindo o confronto, mas ao mesmo tempo estupefatos com ela. Exceto Ed Langan, que estava constrangidíssimo por causa dela.
— Qual é, Casey — falou, tentando levar a coisa na brincadeira —, não se pode lutar contra a prefeitura.
— É o que venho tentando fazer a vida inteira — disse ela, vivamente... claro que furiosa. Depois, abruptamente, deu um sorriso glorioso. Tamborilou com os dedos momentaneamente na toalha da mesa, e se levantou. — Se os cavalheiros me dão licença... — disse, meigamente, e se foi, com um silêncio atônito seguindo seus passos.
— Não é que eu a tenha mandado embora — disse Dunross.
— Mas foi gozado à beca, mesmo assim — disse Barre. — O que a fez mudar de idéia? Hem, Phillip?
— O quê? — indagou Phillip Chen, distraído.
— Houve um momento em que pensei que ela ia dar um soco no pobre do Ian, você não pensou? Mas ela pensou em alguma coisa que a fez mudar de idéia. O quê?
Dunross sorriu.
— Aposto que não foi boa coisa. Aquela fulana é perigosa como um punhado de escorpiões.
— Mas tem uma bela peitaria — comentou Barre.
Eles riram. Phillip Chen não riu. A preocupação de Dunross com ele aumentou. Tentara animá-lo a noite toda, mas nada afastara aquele véu. Durante todo o jantar Phillip estivera apagado, monossilábico. Barre levantou-se, soltando um arroto.
— Acho que vou dar uma mijada enquanto ainda há espaço.
Saiu aos tropeções para o jardim.
— Não mije em cima das camélias — disse Ian, distraidamente, depois forçou-se a se concentrar. — Phillip, não fique preocupado — falou, agora que estavam sozinhos. — Logo vão encontrar John.
— É, estou certo que sim — disse Phillip Chen, desanimado, a mente não propriamente embotada pelo seqüestro, mas aparvalhada com o que descobrira na caixa de depósito bancário do filho, naquela tarde. Ele a abrira com a chave que tirara da caixa de sapatos.
— Ande, Phillip, pegue-a, não seja bobo — sibilara-lhe a mulher, Dianne. — Pegue-a... se não a pegarmos, o tai-pan a pegará!
— É, é, eu sei.
"Graças a todos os deuses que a peguei", pensou, ainda em choque, lembrando-se do que encontrara ao examinar o conteúdo da caixa. Envelopes de papel pardo de diversos tamanhos, a maior parte especificando os itens, um diário e um caderno de telefones. No envelope marcado "dívidas", papéis de apostas no valor de noventa e oito mil HK de dívidas com jogadores ilegais e clandestinos de Hong Kong. Uma promissória em favor de Avarento Sing, um agiota notório, no valor de trinta mil HK, com juros de três por cento ao mês. Uma promissória há muito vencida no Ho-Pak Bank, no valor de vinte mil dólares americanos, e uma carta de Richard Kwang, datada da semana anterior, dizendo que, a não ser que John Chen tomasse logo providências, seria forçado a conversar com o pai dele. Depois havia cartas que documentavam uma amizade crescente entre o filho e um jogador americano, Vincenzo Banastasio, que assegurava a John Chen que não havia pressa no pagamento das suas dívidas para com ele: "...não se apresse, John, seu crédito é o melhor; em qualquer época, este ano, estará ótimo..." Anexo às cartas, a fotocópia de uma nota promissória autenticada, perfeitamente legal, pela qual o filho, seus herdeiros ou procuradores, obrigavam-se a pagar a Banastasio, mediante requisição, quatrocentos e oitenta e cinco mil dólares americanos, mais juros.
"Burro, burro", vociferara intimamente, sabendo que o filho não tinha mais do que um quinto daquele valor, e que portanto ele próprio acabaria tendo que pagar a dívida.
Fora então que um envelope grosso em que estava escrito "Par-Con" chamara sua atenção.
Nele havia um contrato de emprego com a Par-Con assinado por K. C. Tcholok, há três meses, contratando os serviços de John Chen como consultor particular da Par-Con por "... cem mil de entrada (dos quais cinqüenta mil são por este considerados como já tendo sido pagos) e, tão logo um negócio satisfatório seja fechado e assinado entre a Par-Con e a Struan, a Rothwell-Gornt ou qualquer outra companhia escolhida pela Par-Con, mais um milhão de dólares pagos ao longo de um período de cinco anos, em prestações iguais; e dentro de trinta dias, a partir da assinatura do contrato acima mencionado, uma dívida contraída com o Sr. Vincenzo Banastasio, de Orchard Road, 85, Las Vegas, Nevada, de quatrocentos e oitenta e cinco mil dólares, será paga, mais a prestação de duzentos mil referente ao primeiro ano, juntamente com o saldo de cinqüenta mil..."