— Em troca do quê? — murmurara Phillip Chen, ofegante e impotente, dentro do cofre-forte do banco.
Mas o longo contrato nada mais indicava além de que John Chen seria um "consultor particular na Ásia". Não havia notas ou papéis anexos ao contrato.
Apressadamente, verificara de novo o envelope, para ver se deixara escapar algo, mas ele estava vazio. Uma verificação rápida dos outros envelopes dera em nada. Fora então que notara um fino envelope aéreo meio grudado a outro. Nele estava escrito "Par-Con II". Continha fotocópias de bilhetes escritos à mão pelo filho para Linc Bartlett.
O primeiro era datado de seis meses atrás, e confirmava que ele, John Chen, forneceria à Par-Con as informações mais confidenciais sobre o funcionamento secreto de todo o complexo Struan. "...naturalmente, isto tem que ser mantido em completo sigilo, mas, por exemplo, Sr. Bartlett, o senhor pode ver pelas folhas de balanço geral da Struan, anexas, desde 1954 até 1961 (quando ela se tornou empresa de capital aberto), que o que aconselho é perfeitamente exeqüível. Se examinar o mapa da estrutura corporativa da Struan, e a lista de alguns dos mais importantes acionistas da Struan, e seus bens secretos, inclusive os do meu pai, não terá problemas com nenhuma proposta de compra de controle que a Par-Con queira compor. Acrescente a essas fotocópias a outra coisa que lhe contei (juro por Deus que pode crer em mim) e garanto o seu êxito. Estou pondo minha vida em risco. Isso deve ser garantia suficiente, mas se me adiantar agora cinqüenta dos cem primeiros, deixarei que tome posse, tão logo chegue — comprometendo-se o senhor a devolvê-la logo que o seu negócio seja fechado — ou para ser usada contra a Struan. Garanto usá-la contra a Struan. No final das contas, Dunross terá que fazer qualquer coisa que o senhor queira. Por favor, responda para a caixa postal de costume, e destrua este, conforme combinamos."
— Posse do quê? — Phillip Chen murmurara, desesperado de ansiedade. Suas mãos tremiam enquanto lia a segunda carta, datada de três semanas atrás. "Caro Sr. Bartlett. Esta confirmará a sua data de chegada. Tudo está preparado. Espero com prazer poder revê-lo e conhecer o Sr. K. C. Tcholok. Obrigado pelos cinqüenta mil, que chegaram em segurança... todas as quantias futuras deverão ir para uma conta numerada em Zurique. Dar-lhe-ei os detalhes bancários quando chegar. Obrigado também por ter concordado com o nosso trato não escrito de que, se eu puder ajudá-lo da maneira que aleguei, receberei três por cento do movimento da nova Companhia Mercantil Par-Con (Ásia).
"Anexo mais algumas coisas de interesse: repare nas datas de vencimento das promissórias da Struan (rubricadas por meu pai) a favor das Indústrias de Navegação Toda pelos seus novos supercargueiros: dias 1.°, 11 e 15 de setembro. A Struan não tem dinheiro bastante para quitá-las.
"A seguir: em resposta à pergunta do Sr. Tcholok sobre a posição do meu pai em qualquer briga de compra de controle ou procurações. Ele pode ser neutralizado. As fotocópias anexas são uma amostra de muitas que possuo. Mostram um relacionamento muito chegado com Lee Pó Branco e seu primo, Wu Sang Fang, também conhecido como Wu Quatro Dedos, desde o começo da década de 50, e posse secreta junto com eles (até mesmo hoje) de uma companhia imobiliária, duas companhias de navegação e interesses comerciais em Bangkok. Embora na aparência, atualmente, ambos se façam passar por comerciantes respeitáveis, donos de empreendimentos imobiliários e armadores milionários, é do conhecimento geral que há anos são piratas e contrabandistas bem-sucedidos... e corre um forte boato nos círculos chineses de que são eles os Grandes Dragões do comércio de ópio. Se a ligação de meu pai com eles fosse tornada pública, ele perderia seu prestígio para sempre, os elos íntimos que tem com a Struan, e com todas as outras hongs que existem hoje, seriam desfeitos e, o que é mais importante, sua chance de tornar-se cavaleiro (a coisa que mais deseja no mundo) seria destruída para sempre. A simples ameaça de fazer isso seria o suficiente para neutralizá-lo... até mesmo torná-lo um aliado. Claro que me dou conta de que esses papéis e outros que possuo necessitam de maior documentação para valerem num tribunal, mas já a tenho em abundância, num local seguro..."
Phillip Chen se lembrava de como, tomado de pânico, procurara desesperadamente a tal documentação mencionada, sua mente berrando que era impossível o filho dispor de tantas informações secretas, impossível ele ter os balanços gerais da Struan antes de ela se ter tornado empresa de capital aberto, impossível saber sobre Wu Quatro Dedos e todas aquelas coisas secretas.
"Oh, deuses, isto é quase tudo o que eu sei... nem mesmo Dianne sabe da metade! O que mais John sabe... o que mais contou ao americano?"
Alucinado de ansiedade, revistara cada envelope, mas nada mais havia.
— Ele deve ter outra caixa em algum lugar... ou um cofre — resmungara em voz alta, mal conseguindo pensar.
Furioso, enfiara tudo aquilo em sua pasta, esperando que um exame mais minucioso respondesse às suas perguntas... depois fechara com força a caixa e a trancara. Num repente, reabrira-a. Tirara a bandeja fina de dentro do cofre individual e virara-a ao contrário. Presas com fita adesiva, na parte externa, havia duas chaves. Uma delas era a chave de uma caixa de depósito bancário com o número cuidadosamente obliterado. A outra o deixara paralisado. Reconhecera-a, imediatamente. Era a chave do seu próprio cofre, da casa no morro. Teria apostado a vida em que a única chave existente era a que usava sempre à volta do pescoço, que nunca saíra de junto dele... desde que seu pai lha dera, no leito de morte, há dezesseis anos.
— Oh ko — dissera em voz alta, mais uma vez consumido de fúria.
Dunross perguntou:
— Está bem? Quer tomar um conhaque?
— Não, não, obrigado — respondeu Phillip Chen, com voz trêmula, de volta ao presente. Com esforço, controlou-se e fitou o tai-pan, sabendo que lhe devia contar tudo, mas sem ter coragem. Pelo menos até saber a extensão dos segredos roubados. Mesmo então, não teria coragem. Além das muitas transações que as autoridades poderiam facilmente interpretar mal, e outras que poderiam ser altamente embaraçosas e dar início a todo tipo de ações civis, se não criminais... "Maldita lei inglesa!", pensou furioso. Era uma cretinice haver uma só lei para todos, cretinice não haver uma lei para os ricos e outra para os pobres. Por que então trabalhar, sacrificar-se, arriscar e tramar para ser rico... além disso tudo, ainda teria que admitir para Dunross que vinha documentando os segredos da Struan há anos, que seu pai já agira assim antes dele... folhas de balanço, investimento em ações, e outras coisas secretas e muito, muito particulares, pessoais e familiares, contrabandos e subornos... e sabia que de nada adiantaria dizer que agira assim para proteger a Casa, porque o tai-pan diria, e corretamente, que agira para proteger a Casa de Chen, e não a Casa Nobre, e o atacaria justificadamente, e voltaria toda a sua ira contra ele e sua família, e no holocausto de uma luta contra a Struan ele perderia na certa (o testamento de Dirk Struan se encarregara disso), e tudo o que levara quase um século e meio para ser construído desapareceria.
Graças a todos os deuses não estava tudo no cofre, pensou, fervorosamente. Graças a todos os deuses as outras coisas estavam bem enterradas.