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Então, subitamente, algumas palavras da primeira carta do filho atingiram brutalmente sua consciência: "...Acrescente a estas fotocópias as outras coisas de que lhe falei..."

Ele empalideceu e pôs-se de pé, com esforço. — Se me dá licença, tai-pan... eu... vou me despedindo. Vou buscar Dianne e... eu... obrigado, boa noite. Saiu apressado em direção à casa. Dunross ficou olhando enquanto ele se afastava, chocado.

— Oh, Casey — dizia Penelope —, deixe-me apresentar-lhe Kathren Gavallan. Kathren é irmã de Ian.

— Oi! — cumprimentou Casey, sorrindo, simpatizando com ela à primeira vista. Estavam numa das antecâmaras do andar térreo, entre outras mulheres que conversavam, retocavam a maquilagem, ou faziam fila, esperando a vez para visitar o banheiro anexo. A sala era ampla, confortável e espelhada.

— Ambos têm os mesmos olhos... reconheceria a semelhança em qualquer parte — disse. — Ele é um homem e tanto, não é?

— Nós achamos que sim — replicou Kathren, com um sorriso vivo. Tinha trinta e oito anos, era atraente, possuía um sotaque escocês agradável, e o vestido de seda estampado que usava era longo e fresco. — Essa falta d'água é um abacaxi, não é?

— É. Deve ser muito difícil, tendo crianças.

— Não, chêrie, as crianças a adoram — manifestou-se Susanne de Ville. Estava com quarenta e tantos anos, era chique, com ligeiro sotaque francês. — Como se pode insistir em que tomem banho todas as noites?

— Os meus dois são iguaizinhos — sorriu Kathren. — Isso incomoda a nós, pais, mas não a eles. Mas é um abacaxi tentar fazer uma casa correr nos eixos.

Penelope disse:

— Deus, como detesto isso! Este verão foi um horror. Você está com sorte hoje, geralmente já estaríamos pingando!

— Retocava a maquilagem no espelho. — Mal posso esperar até o mês que vem. Kathren, já lhe contei que vamos para casa por duas semanas? Pelo menos, eu vou. Ian prometeu ir também, mas com ele nunca se pode ter certeza.

— Ele precisa de umas férias — disse Kathren, e Casey percebeu sombras nos seus olhos, e olheiras sob a maquilagem.

— Vão para Ayr?

— Vamos, e para Londres, por uma semana.

— Que sortuda! Quanto tempo vai ficar em Hong Kong, Casey?

— Não sei. Tudo depende da Par-Con.

— Sei. Andrew me contou que você teve uma reunião de dia inteiro, com eles.

— Não creio que lhes tenha agradado muito falar de negócios com uma mulher.

— Como você está sendo delicada — riu-se Susanne de Ville, levantando a saia para puxar a blusa para baixo. — Claro que meu Jacques é meio francês, portanto entende que as mulheres estejam no mundo dos negócios. Mas os ingleses...

Ergueu bem alto as sobrancelhas.

— O tai-pan não pareceu se importar — falou Casey —, mas, na verdade, ainda não discuti direito negócios com ele.

— Mas discutiu com Quillan Gornt — disse Kathren, e Casey, muito em guarda, mesmo na privacidade do banheiro das senhoras, percebeu a tensão latente na sua voz.

— Não — replicou —, não discuti... só o conheci hoje à noite... mas meu patrão, sim.

Pouco antes do jantar, encontrara um tempinho para contar a Bartlett a história do pai de Gornt e de Colin Dunross.

— Puxa vida! Não admira que Adryon tenha ficado tonta! — dissera Bartlett. — E logo no salão de bilhar! — Pensara por um momento, depois dera de ombros. — Mas só o que isso significa é mais pressão sobre Dunross.

— Pode ser. Mas a inimizade deles é a mais profunda que já vi, Linc. O tiro nos pode sair pela culatra.

— Não sei como... ainda. Gornt estava apenas abrindo um flanco, como compete a um bom general. Se não tivéssemos tido as informações antecipadas de John Chen, o que Gornt disse poderia ter sido vital para nós. Gornt não tem meios de saber que estamos à sua frente. Portanto, está acelerando o ritmo. Ainda nem puxamos as nossas grandes armas, e os dois já estão nos cortejando.

— Já decidiu com qual vai ficar?

— Não. Qual é o seu palpite?

— Não tenho nenhum. Ainda. Os dois são impressionantes. Linc, acha que John Chen foi seqüestrado porque vinha nos dando informações?

— Não sei. Por quê?

— Antes da chegada de Gornt, fui interceptada pelo superintendente Armstrong. Interrogou-me sobre o que John Chen disse ontem à noite, o que conversamos, o que foi dito, exatamente. Contei-lhe tudo de que me lembrava... exceto que nunca mencionei que deveria receber "aquilo". Já que ainda não sei o que "aquilo" é.

— Não é nada ilegal, Casey.

— Não gosto de ficar no escuro. Não agora. Está ficando... forte demais para mim, as armas, o seqüestro brutal e a polícia tão insistente,

— Não é nada ilegal. Deixemos a coisa nesse pé. Armstrong disse que havia uma ligação?

— Não mencionou nada. É um policial inglês, cavalheiro, forte e silencioso, e tão inteligente e bem-treinado quanto os que já vi no cinema. Estou certa de que ele sabia que eu estava ocultando alguma coisa. — Hesitara. — Linc, o que John Chen tem que é tão importante para nós?

Lembrou-se de como ele a fitara, os olhos profundos e azuis, zombeteiros e risonhos.

— Uma moeda — dissera, calmamente.

— O quê? — perguntara ela, atônita.

— É. Na verdade, meia moeda.

— Mas, Linc, o que uma moe...

— É só o que vou lhe contar por ora, Casey, mas, diga-me, será que Armstrong acha que há alguma ligação entre o seqüestro de Chen e as armas?

— Não sei. — Dera de ombros. — Acho que não, Linc. Nem posso arriscar um palpite. Aquele cara é vivo demais. — Nova hesitação por parte dela. — Linc, fechou negócio, qualquer negócio, com Gornt?

— Não. Nada definitivo. Gornt só quer destruir a Struan, e quer se unir a nós para fazer o serviço. Disse que discutiríamos o assunto na terça-feira. Durante o jantar.

— O que vai dizer ao tai-pan, depois do jantar?

— Depende das perguntas dele. Ele sabe que é boa estratégia sondar as defesas do inimigo.

Casey começava a se perguntar quem era o inimigo, sentindo-se estranha demais, mesmo ali, entre todas as outras mulheres. Sentira apenas hostilidade, exceto da parte dessas duas, Penelope e Kathren Gavallan... e de uma mulher que encontrara antes, na fila do banheiro.

— Alô — dissera a mulher, suavemente. — Ouvi dizer que você também é uma estranha, aqui.

— É, sou, sim — replicou Casey, assombrada com a beleza da outra.

— Sou Fleur Marlowe. Meu marido é Peter Marlowe. É escritor. Acho que você está lindérrima!

— Obrigada. Você também. Acabaram de chegar a Hong Kong?

— Não. Estamos aqui há três meses e dois dias, mas esta é a primeira festa realmente inglesa a que comparecemos — disse Fleur, seu sotaque britânico não tão carregado quanto o dos outros. — Passamos a maior parte do tempo com os chineses, ou sozinhos. Temos um apartamento no anexo do Victoria. Meu Deus — acrescentou, olhando para a porta do reservado, logo à frente —, gostaria que ela andasse depressa. Estou apertadíssima.

— Também estamos hospedados no Victoria.

— É, eu sei. Vocês dois são famosos. — E Fleur Marlowe riu.

— Mal-afamados! Não sabia que o hotel tinha apartamentos.

— Não são bem apartamentos. Só dois quartinhos de dormir e uma saleta. A cozinha parece um armário. Mas é o nosso lar. Temos um banheiro, água corrente, e as privadas dão descarga.

Fleur Marlowe tinha grandes olhos cinzentos que se inclinavam de modo agradável, e longos cabelos louros, e Casey julgou que teria mais ou menos a sua idade.

— Seu marido é jornalista?

— Escritor. De um único livro. O que faz mesmo é escrever e dirigir filmes em Hollywood. É isso o que paga o aluguel.

— Por que estão com os chineses?

— É que Peter está interessado neles. — Fleur Marlowe sorriu e deu um sussurro de conspiradora, olhando para o resto das mulheres à sua volta. — Elas são bastante assustadoras, não?... mais inglesas do que os ingleses. Cheias de tradição e coisa e tal.