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Casey franziu o cenho.

— Mas você também é inglesa.

— Sim e não. Sou inglesa, mas de Vancouver, no Canadá. Moramos nos Estados Unidos, Peter, eu e as crianças, na velha Hollywood, Califórnia. Não sei direito o que sou, metade uma coisa, metade outra.

— Nós também moramos em Los Angeles, Linc e eu.

— Acho que ele é um pão. Você tem sorte.

— Que idade têm seus filhos?

— Quatro e oito anos... graças a Deus ainda não racionaram a nossa água.

— Que tal está achando Hong Kong?

— É fascinante, Casey. Peter está aqui fazendo pesquisas para um livro, portanto é maravilhoso para ele. Meu Deus, se a metade das lendas for verdade... os Struans, os Dunrosses e todos os outros, e o seu Quillan Gornt.

— Não é meu. Conheci-o esta noite.

— Criou um pequeno terremoto ao atravessar a sala ao lado dele. — Fleur riu. — Se vai ficar por aqui, fale com Peter. Ele lhe contará os mais diversos tipos de escândalos. — Fez um sinal de cabeça na direção de Dianne Chen, que empoava o nariz diante de um dos espelhos. — Aquela é a madrasta de John Chen, a mulher de Phillip Chen. É a segunda mulher... a primeira morreu. Ela é eurasiana, e quase todos a odeiam, mas é uma das pessoas mais bondosas que já conheci.

— Por que a odeiam?

— A maioria tem inveja. Afinal de contas, é a mulher do representante nativo da Casa Nobre; conhecemo-nos faz algum tempo, e ela foi formidável para mim. É... é difícil para uma mulher viver em Hong Kong, especialmente uma mulher de fora. Não sei bem por quê, mas ela me tratou como pessoa da família. Tem sido formidável.

— Ela é eurasiana? Parece chinesa.

— Às vezes, é difícil dizer-se. O nome de solteira dela é TChung, segundo Peter, e da família da mãe é Sung. Os T'Chungs descendem de uma das amantes de Dirk Struan, e a linhagem dos Sungs é igualmente ilegítima, do famoso pintor Aristotle Quance. Já ouviu falar nele?

— Ah, já.

— Muitas das... melhores famílias de Hong Kong são... bem, o velho Aristotle gerou quatro ramos... — Neste exato momento a porta do reservado se abriu, dando passagem a uma mulher, e Fleur exclamou: — Graças a Deus!

Enquanto esperava a sua vez, Casey prestava alguma atenção à conversa das outras. O papo era sempre o mesmo: roupas, o calor, a falta d'água, queixas sobre amahs e outros criados, como tudo estava caro, ou as crianças e as escolas. Aí, chegou a vez dela e, quando saiu, Fleur Marlowe desaparecera, e Penelope se acercou dela.

— Oh, acabo de saber que você não queria se retirar. Não ligue para Joanna — disse Penelope, serenamente. — É uma chata, e sempre foi.

— Foi minha culpa... ainda não me habituei aos seus costumes.

— É tudo uma bobagem, mas, no final das contas, é muito mais fácil fazer a vontade dos homens. Eu, pessoalmente, fico muito satisfeita em me retirar. Acho a maioria das conversas deles uma amolação.

— É, às vezes é. Mas é o princípio da coisa. Devíamos ser tratadas como iguais.

— Jamais seremos iguais, querida. Não aqui. Esta é a colônia da coroa de Hong Kong.

— É o que todos me dizem. Quanto tempo devemos ficar afastadas?

— Ah, cerca de meia hora. Não há um período exato. Há muito tempo que conhece Quillan Gornt?

— Hoje foi a primeira vez que o vi — disse Casey.

— Ele... não é bem-vindo nesta casa — falou Penelope.

— É, eu sei. Contaram-me sobre a festa de Natal.

— O que lhe contaram?

Ela relatou o que sabia.

Fez-se um silêncio cortante. Depois, Penelope falou:

— Não é bom para os estranhos se envolverem em brigas de família, é?

— Não — respondeu Casey. — Mas todas as famílias têm as suas briguinhas. Estamos aqui, Linc e eu, para começar um negócio... esperamos começar o negócio com uma das suas grandes companhias. Somos estranhos aqui, sabemos disso... mas é por este motivo que estamos procurando um sócio.

— Bem, minha querida, estou certa de que se decidirão. Sejam pacientes e cautelosos. Não concorda, Kathren? — perguntou à cunhada.

— Sim, Penelope, concordo. — Kathren fitou Casey com o mesmo olhar franco de Dunross. — Espero que façam a escolha correta, Casey. O pessoal aqui é muito vingativo.

— Por quê?

— Um dos motivos é que somos uma sociedade muito fechada, muito interligada, e todos se conhecem uns aos outros... e quase todos os seus segredos. O outro é porque os ódios por aqui florescem há gerações, e vêm sendo alimentados há gerações. Quando se odeia, odeia-se de todo o coração. Outro ainda é que esta é uma sociedade à moda dos piratas, corn pouquíssimos freios, portanto a gente pode se safar com todos os tipos de vingança. Ah, sim. Mais um: aqui os prêmios são altos... se você ganhar um monte de ouro, pode ficar com ele, legalmente, mesmo se o tiver conseguido ilegalmente. Hong Kong é um lugar de trânsito... ninguém vem para cá para ficar, nem mesmo os chineses, só para ganhar dinheiro, e ir embora. É o local mais extraordinário do mundo.

— Mas os Struans, os Dunrosses e os Gornts estão aqui há gerações — disse Casey.

— É, mas individualmente vieram para cá por um único motivo: dinheiro. Aqui, nosso deus é o dinheiro. E logo que se põe a mão nele, some, quer seja europeu, americano... e especialmente chinês.

— Está exagerando, Kathy querida — falou Penelope.

— É. Mas é a verdade. Outro motivo é que vivemos o tempo todo à beira da catástrofe: fogo, inundação, peste, avalanche, levantes. Metade da nossa população é comunista, metade nacionalista, e se odeiam de uma maneira que nenhum europeu jamais poderá compreender. E a China... a China pode nos engolir a qualquer momento. Portanto, a gente vive o dia de hoje, e para o diabo com tudo, agarre o que puder, porque amanhã, quem sabe? Não se interponha no caminho! As pessoas são mais brutais aqui porque tudo realmente é precário, e nada dura em Hong Kong.

— Exceto o Pico — disse Penelope. — E os chineses.

— Até mesmo os chineses querem enriquecer depressa para ir embora depressa... eles, mais do que a maioria. Espere só, Casey, e verá. Hong Kong a afetará com a sua magia... ou a sua maldade, dependendo do ponto de vista. Para os negócios, é o lugar mais excitante do mundo, e logo você sentirá que está no centro do mundo. É selvagem e excitante para os homens, meu Deus, é maravilhoso para um homem, mas para nós é horrível, e toda mulher, toda esposa, odeia Hong Kong apaixonadamente, embora finja o contrário.

— Kathren — começou Penelope —, está exagerando de novo.

— Não. Não estou. Estamos todas ameaçadas aqui, Penny, você sabe! Nós, mulheres, estamos numa batalha perdida...

— Kathren se deteve e forçou um sorriso cansado. — Desculpe, entusiasmei-me demais. Penn, acho que vou procurar Andrew, e se ele quiser ficar, eu vou indo, se você não se importa.

— Está se sentindo bem, Kathy?

— Estou, sim, só cansada. O meu caçula é uma parada, mas no ano que vem irá para o colégio interno.

— Que tal foi o seu checkup?

— Bom. — Kathy deu um sorriso cansado para Casey. — Quando estiver disposta, ligue para mim. O número está no catálogo. Não escolham Gornt. Seria fatal. Adeus, querida — acrescentou para Penelope, e se retirou.

— Ela é um amor — disse Penelope. — Mas fica baratinada à toa.

— Você se sente ameaçada?

— Estou muito satisfeita com as minhas filhas e meu marido.

— Ela perguntou se você se sentia ameaçada, Penelope.

— Susanne de Ville empoou habilmente o nariz e examinou o seu reflexo. — Sente-se?

— Não. Às vezes sinto-me oprimida. Mas... mas não estou mais ameaçada do que você.

— Ah, chérie, mas eu sou panúenne. Como posso estar ameaçada? já esteve em Paris, mademoiselle?