— Já — disse Casey. — É linda.
— É o mundo — declarou Susanne, com modéstia gaulesa. — Puxa, mas estou com cara de pelo menos trinta e seis anos.
— Bobagem, Susanne. — Penelope olhou para o relógio de pulso. — Acho que já podemos voltar. Com licença um minutinho...
Susanne fitou-a enquanto ela se afastava, depois voltou a se concentrar em Casey.
— Jacques e eu viemos para Hong Kong em 1946.
— Também fazem parte da família?
— O pai de Jacques casou-se com uma Dunross na Primeira Grande Guerra... uma tia do tai-pan. — Inclinou-se para junto do espelho e tirou um tiquinho do excesso de pó. — Na Struan é importante ser da família.
Casey notou os astutos olhos gauleses observando-a pelo espelho.
— Claro, concordo com você que é uma bobagem as mulheres se retirarem depois do jantar, pois, obviamente, quando vamos embora, o calor também vai, não?
Casey sorriu.
— Acho que sim. Por que Kathren falou "ameaçada"? Ameaçada pelo quê?
— Pela juventude, claro que pela juventude! Aqui existem dezenas de milhares de lindas jovens chinoises, chiques, sensatas, de cabelos negros e longos, derrières bonitos e atrevidos e pele dourada, que realmente entendem os homens e encaram o sexo pelo que representa: comida e, com freqüência, permuta. Foi o inglês puritano e gaúche que torceu a mente das suas damas, pobrezinhas! Graças a Deus nasci francesa! Pobre Kathy!
— Oh — disse Casey, compreendendo imediatamente. — Descobriu que Andrew tem um caso?
Susanne sorriu e não respondeu, apenas fitou o seu reflexo. Depois, disse:
— O meu Jacques... claro que tem casos, claro que todos os homens têm casos, e nós também, se somos sensatas. Mas nós, franceses, compreendemos que essas transgressões não devem interferir num bom casamento. Damos a elas a dose exata de importância, non? — Seus olhos castanho-escuros se alteraram um pouco. — Oui!
— Isso é duro, não é? Duro para uma mulher ter que conviver com isso.
— Tudo é duro para a mulher, chérie, porque os homens são uns crétins. — Susanne de Ville alisou uma prega, depois pôs um pouco de perfume atrás das orelhas e no meio dos seios. — Você falhará aqui, se tentar jogar usando regras masculinas, e não regras femininas. Tem uma chance rara aqui, mademoiselle, se é mulher o bastante. E se se lembrar de que os Gornts são todos venenosos. E cuidado com o seu Linc Bartlett, Ciranoush, já há mulheres aqui querendo possuí-lo, e humilhá-la.
14
22h42m
Lá em cima, no segundo andar, o homem saiu cautelosamente das sombras do balcão comprido e entrou pelas portas envidraçadas abertas na escuridão mais profunda do escritório de Dunross. Hesitou, ouvidos atentos, suas roupas negras tornando-o quase invisível. Os sons distantes da festa entravam pelo aposento adentro, tornando o silêncio e a espera mais pesados. Acendeu uma pequena lanterna elétrica.
O círculo de luz caiu sobre o quadro que encimava a lareira. Ele se acercou ainda mais. Dirk Struan parecia observá-lo, o leve sorriso debochado. Agora a luz se moveu para as beiradas da moldura. A mão dele se estendeu delicadamente e experimentou-a, primeiro para um lado, depois para o outro. Silenciosamente, o quadro se afastou da parede.
O homem soltou um suspiro.
Espiou de perto a fechadura, depois apanhou um pequeno molho de chaves-mestras. Escolheu uma, experimentou-a, mas ela não girou. Mais outra. Novo fracasso. Outra, e mais outra, depois um leve estalido, e a chave quase girou, quase, mas ficou no quase. As demais chaves também falharam.
Irritado, tentou de novo a chave do quase, mas ela não abriu a fechadura.
Com perícia, seus dedos correram pelas beiradas do cofre, mas não conseguiu achar nenhum interruptor ou fecho secreto. Tentou de novo a chave do quase, para cá e para lá, suave ou firmemente, mas ela não girou.
Hesitou de novo. Depois de um momento, recolocou com cuidado o quadro no lugar, os olhos agora zombando dele, e foi até a escrivaninha. Havia dois telefones sobre a mesa. Pegou o aparelho, que sabia não possuir outras extensões na casa, e discou.
O telefone soou monotonamente, depois parou. — Sim? — atendeu uma voz masculina, em inglês.
— O Sr. Lop-sing, por favor — disse ele, suavemente, começando o código.
— Aqui não há nenhum Lop-sing. Lamento, é engano. Essa era a resposta em código que queria ouvir. Continuou:
— Queria deixar um recado.
— Lamento, discou o número errado. Olhe no catálogo. Novamente a resposta correta, a derradeira.
— Aqui é Lim — sussurrou, usando o seu codinome. — Arthur, por favor. Urgente.
— Um momentinho.
Ouviu o telefone sendo passado a outra pessoa, e a tosse seca que reconheceu imediatamente.
— Sim, Lim? Encontrou o cofre?
— Encontrei. Fica atrás do quadro acima da lareira, mas nenhuma das chaves serviu. Vou precisar de equipamento espe...
Interrompeu-se, subitamente. Vozes se aproximavam. Desligou, suavemente. Uma verificação rápida e nervosa de que tudo estava no lugar, e ele desligou a lanterna elétrica correndo para o balcão que acompanhava toda a extensão da face norte. O luar iluminou-o por um instante. Era Feng Garçom de Vinhos. Depois ele desapareceu, suas roupas negras de garçom misturando-se perfeitamente com a escuridão.
A porta se abriu. Dunross entrou, seguido por Brian Kwok. Acendeu as luzes. Imediatamente, a sala ficou cálida e cordial.
— Não seremos perturbados aqui — falou. — Fique à vontade.
— Obrigado.
Era a primeira vez que Brian Kwok era convidado a subir ao andar superior da casa.
Os dois homens carregavam copos de conhaque e foram para junto do frescor das janelas, a brisa leve movendo as cortinas finas, e sentaram-se nas poltronas de espaldar alto, um de frente para o outro. Brian Kwok fitava o quadro, com a sua luz própria perfeitamente colocada.
— Que beleza de quadro.
— É, sim.
Dunross olhou para o quadro, e ficou gelado. A tela estava imperceptivelmente fora do lugar. Mais ninguém o teria notado.
— Algum problema, Ian?
— Não. Nada — disse Dunross, recobrando os sentidos que instintivamente haviam entrado em alerta, sondando o aposento atrás de uma presença estranha. Agora, voltou sua atenção integral para o superintendente chinês, mas se preocupava profundamente com quem havia mexido na tela, e por quê.
— O que queria falar comigo?
— Duas coisas. Primeiro, o seu cargueiro, Eastern Cloud. Dunross ficou espantado.
— Sim?
Aquele era um dos muitos cargueiros costeiros sem rota regular da Struan, que servia aos portos comerciais da Ásia. O Eastern Cloud era um navio de dez toneladas na rota altamente lucrativa de Hong Kong, Bangkok, Cingapura, Calcutá, Madrasta e Bombaim, com uma parada ocasional em Rangum, na Birmânia, transportando todo tipo de mercadoria fabricada em Hong Kong e enviada para o exterior, e todo tipo de matéria-prima, sedas, pedras preciosas, juta, teca, alimentos da índia, Malásia, Tailândia e Birmânia vindos para Hong Kong. Seis meses antes, fora apreendido pelas autoridades indianas em Calcutá, depois de uma revista surpresa da alfândega ter revelado trinta e seis mil taéis de ouro contrabandeados num dos seus depósitos de carvão. Um pouco mais de uma tonelada.
— O ouro é uma coisa, Excelência, e nada tem a ver conosco — dissera Dunross ao cônsul-geral da índia em Hong Kong —, mas apreender o nosso navio já é outra história!
— Ah, sinto muito, Sr. Dunross. Lei é lei, e contrabandear ouro para a índia é coisa muito séria, sah, e a lei diz que qualquer navio com mercadoria contrabandeada a bordo pode ser confiscado e vendido.
— É, pode ser. Quem sabe, Excelência, nesse caso o senhor poderia interceder junto às autoridades...
Mas todos os pedidos tinham sido postos de lado, e tentativas de intercessão a alto nível ao longo dos meses, ali, na índia, até mesmo em Londres, não haviam dado em nada. As investigações policiais na índia e em Hong Kong não haviam apresentado nenhuma prova contra membro algum da sua tripulação, mas mesmo assim o Eastern Cloud ainda estava preso no porto de Calcutá.