Brian Kwok soltou um suspiro e continuou a apresentar as informações que Roger Crosse lhe dera:
— Nelson Trading.
Com grande esforço, Dunross manteve o rosto impassível.
— Nelson Trading?
— É. Nelson Trading Company Limited of London. Como sabe, a Nelson Trading tem a licença exclusiva do governo de Hong Kong para a compra de ouro em barra no mercado internacional para os joalheiros de Hong Kong e, o que é muitíssimo mais importante, o monopólio igualmente exclusivo para o transbordo das barras de ouro sob retenção alfandegária através de Hong Kong para Macau... juntamente com uma segunda companhia menor, a Companhia de Metais Preciosos Saul Feinheimer, também de Londres. A Nelson Trading e a Feinheimer têm diversas coisas em comum. Diversos diretores, por exemplo, os mesmos advogados, por exemplo.
— É?
— É. Creio que você também faz parte das juntas diretoras.
— Faço parte das juntas de quase setenta companhias — disse Dunross.
— É verdade, e nem todas são total ou parcialmente de propriedade da Struan. É claro que algumas delas podem ser de propriedade total da Struan, secretamente, através de representantes, não é?
— É, claro.
— É uma sorte que em Hong Kong não tenhamos que enumerar os diretores... ou os bens, não é?
— Aonde está querendo chegar, Brian?
— Outra coincidência: os escritórios da Nelson Trading na cidade de Londres ficam no mesmo prédio de sua subsidiária britânica, a Struan London Limited.
— É um prédio grande, Brian, num dos melhores pontos da cidade. Lá deve haver umas cem companhias.
— Muitos milhares, se incluirmos todas as companhias registradas com advogados, ali, todas as companhias holding que incluem outras companhias, com diretores representantes, que escondem todo tipo de esqueletos no armário.
— E daí?
Dunross agora pensava com toda a clareza, imaginando aonde Brian conseguira todas aquelas informações, perguntando-se também que diabo significava aquela conversa. A Nelson Trading fora uma subsidiária secreta, de propriedade integral da Struan, através de representantes, desde que fora formada em 1953, especificamente para o comércio de ouro em Macau — já que Macau era o único lugar da Ásia onde a importação de ouro era legal.
— A propósito, Ian, já conheceu aquele gênio português de Macau, Sr. Lando Mata?
— Já. Já, sim. Homem encantador.
— É mesmo... e muito bem relacionado. É voz corrente que há uns quinze anos ele persuadiu as autoridades de Macau a criarem um monopólio para a importação de ouro, depois a venderem o monopólio para ele, e mais dois amigos, por uma modesta taxa anuaclass="underline" cerca de um dólar americano a onça. É o mesmo sujeito, Ian, que conseguiu que as autoridades de Macau legalizassem o jogo... e, curiosamente, que lhe concedessem, e a mais dois amigos, o mesmo monopólio. Tudo muito cômodo, não é?
Dunross não respondeu, apenas ficou fitando o sorriso e os olhos que não sorriam.
— Assim, tudo correu mansamente por alguns anos — continuou Brian. — Depois, em 1954, alguns entusiastas do ouro de Hong Kong o procuraram (a nossa lei do ouro foi mudada em 1954) e lhe ofereceram um aperfeiçoamento, agora legal, do seu plano: a companhia deles compra o ouro em barra legalmente nos mercados mundiais para esse sindicato de Macau ao preço legal de trinta e cinco dólares a onça, e o traz para Hong Kong abertamente, de avião ou navio. Ao chegar, o pessoal alfandegário de Hong Kong vigia e supervisiona, legalmente, o transbordo de Kai Tak, ou do cais, para as barcas de Macau ou o hidroavião Catalina. Quando a barca ou o hidroavião chega a Macau, é recebido pelos guardas alfandegários portugueses, e o ouro, todo em barras regulamentares de quatrocentas onças, é levado sob guarda até os carros, na verdade, táxis, que o conduzem ao banco. Fica num prediozinho feio e escondido, não faz transações bancárias normais, não tem clientes, ao que se saiba... exceto o sindicato... nunca abre as portas... exceto para o ouro... e não gosta nem um pouco de visitantes. Adivinhe quem é o dono dele? O Sr. Mata... e o seu sindicato. Uma vez dentro do banco, o ouro some! — Brian Kwok abriu um sorriso como um mágico fazendo o seu melhor truque. — Até agora, neste ano, cinqüenta e três toneladas; quarenta e oito toneladas no ano passado! A mesma coisa no ano anterior, e no ano anterior a ele, e assim por diante.
— É um bocado de ouro — disse Dunross, prestativo.
— É, sim. O que é muito estranho é que nem as autoridades de Macau nem as de Hong Kong parecem se importar com o fato de que o que entra parece nunca sair. Está me acompanhando ?
— Estou.
— Claro que o que acontece é que, uma vez dentro do banco, o ouro é derretido das barras regulamentares de quatrocentas onças para pequenos pedaços, barras de dois taéis, ou, com mais freqüência, de cinco taéis, que são carregadas e contrabandeadas mais facilmente. Agora, chegamos à única parte ilegal de toda a maravilhosa cadeia: retirar o ouro de Macau e contrabandeá-lo para Hong Kong. Claro que não é ilegal retirá-lo de Macau, somente contrabandeá-lo para Hong Kong. Mas você e eu sabemos que é relativamente fácil contrabandear qualquer coisa para Hong Kong. E a beleza incrível da coisa é que, uma vez dentro de Hong Kong, não importa como o ouro chegou aqui, é perfeitamente legal para qualquer pessoa possuí-lo, e não se fazem perguntas. Ao contrário de, digamos, nos Estados Unidos ou na Grã-Bretanha, onde nenhum cidadão tem o direito de possuir, particularmente, ouro em barra. Uma vez que se tem posse legal dele, pode-se exportá-lo legalmente.
— Qual é o propósito de toda essa conversa, Brian? — perguntou Dunross, tomando o seu conhaque.
Brian Kwok girou a bebida envelhecida e perfumada no copo imenso e deixou o silêncio pesar. Finalmente, falou:
— Nós queremos ajuda.
— Nós? Está se referindo ao Serviço Especial de Informações?
Dunross estava espantado.
— Quem no SEI? Você?
Brian Kwok hesitou.
— O Sr. Crosse em pessoa.
— Que ajuda?
— Ele gostaria de ler todos os seus relatórios de Alan Medford Grant.
— Como disse? — falou Dunross, dando-se um tempo para pensar, pois jamais esperara aquilo.
Brian Kwok apanhou uma fotocópia da primeira e última páginas do relatório interceptado, e estendeu-a.
— Uma cópia disto acaba de chegar às nossas mãos. — Dunross lançou um olhar às páginas. Era evidente que eram genuínas. — Gostaríamos de dar uma olhada rápida nos outros.
— Não estou entendendo.
— Não trouxe todo o relatório, só por conveniência, mas, se quiser, posso trazê-lo amanhã — falou Brian, e seu olhar se manteve firme. — Gostaríamos muito... o Sr. Crosse disse que apreciaria a ajuda.
A enormidade das implicações do pedido deixou Dunross paralisado por um momento.
— Este relatório (e os outros, se ainda existirem) são particulares — ouviu sua voz dizer, cautelosamente. — Pelo menos todas as informações nele contidas são particulares para mim, pessoalmente, e para o governo. Certamente vocês poderão conseguir tudo o que desejam através dos seus próprios canais de informações.
— É. Nesse meio tempo, Ian, o superintendente Crosse realmente apreciaria se você nos deixasse dar uma espiada ligeira.
Dunross tomou um gole de conhaque, a mente em estado de choque. Sabia que poderia facilmente negar que os outros existiam e queimá-los, ocultá-los ou simplesmente deixá-los onde estavam, mas não queria deixar de ajudar o Serviço Especial de Informações. Era seu dever ajudá-los. O sei era uma parte vital da Seção Especial, e da segurança da colônia, e ele estava convencido de que, sem eles, a colônia e toda a posição deles na Ásia seriam insustentáveis. E sem um maravilhoso serviço de contra-informações, se um vigésimo dos relatórios de Alan Medford Grant fosse verdade, seus dias estariam contados.
"Santo Deus, nas mãos erradas..."
Sentiu uma opressão no peito enquanto tentava resolver o seu dilema. Parte daquele último relatório lhe viera à cabeça: sobre o traidor na polícia. Depois, lembrou-se de que Kiernan lhe contara que suas cópias atrasadas eram as únicas que existiam. Quanta coisa era só do seu conhecimento, quanta era do conhecimento do Serviço de Informações britânico? Por que o sigilo? Por que Grant não recebera permissão? "Deus, digamos que eu esteja errado afirmando serem algumas coisas excesso de imaginação! Nas mãos erradas, nas mãos inimigas, muito daquela informação será letal."