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Com esforço, acalmou-se e concentrou-se.

— Pensarei no que disse e falarei com você amanhã. Bem cedinho.

— Desculpe, Ian. Mandaram que eu insis... que eu lhe fizesse ver a urgência da situação.

— Você ia dizer insistisse?

— Ia. Lamento. Queremos pedir a sua ajuda. Este é um pedido formal de cooperação.

— E o Eastern Cloud e a Nelson Trading são o outro lado da permuta?

— O Eastern Cloud é um presente. A informação também foi um presente. A Nelson Trading não nos diz respeito, exceto por um interesse passageiro. Tudo o que foi dito é confidencial. Ao que eu saiba, não temos registros.

Dunross examinou o amigo, as maçãs do rosto altas, os olhos largos, de pálpebras pesadas, francos e firmes, o rosto atraente e bem-proporcionado, com sobrancelhas negras e grossas.

— Leu o relatório, Brian?

— Li.

— Então entende o meu dilema — falou, testando-o.

— Ah, está se referindo ao tal traidor da polícia?

— O que disse?

— Está certo ao ser cauteloso. Certíssimo. Está se .referindo à parte que cita um ser hostil possivelmente ao nível de superintendente?

— Estou. Sabem quem ele é?

— Não. Ainda não.

— Suspeitam de alguém?

— Suspeitamos. Está sendo vigiado, agora. Não precisa se preocupar com isso, Ian, as cópias atrasadas serão vistas apenas por mim e pelo Sr. Crosse. Nada transpirará, não se preocupe.

— Um momentinho, Brian... eu não disse que elas existiam — falou Dunross, fingindo irritação, e imediatamente notou um lampejo nos olhos do outro, que tanto poderia ser de raiva como de desapontamento. O rosto continuara impassível. — Ponha-se na minha posição, um leigo — falou, os sentidos aguçadíssimos, continuando na mesma linha. — Seria um imbecil chapado de manter informações como essas soltas por aí, não acha? Muito mais inteligente seria destruí-las... uma vez que tivesse tomado providências quanto às partes pertinentes. Não acha?

— É.

— Deixemos a coisa nesse pé, por hoje. Até cerca de dez horas da manhã.

Brian Kwok hesitou. Depois, sua fisionomia endureceu.

— Isso não é um jogo de salão, Ian. Não vale algumas toneladas de ouro, ou algumas transações na Bolsa, ou alguns negócios imobiliários escusos, não importa quantos milhões estejam envolvidos. Este jogo é mortal, e os milhões envolvidos são gente, gerações por nascer e a praga comunista. A Sevrin é um perigo. O KGB também... até os nossos amigos da CIA e do KMT podem ser igualmente perversos, se preciso for. É melhor postar uma forte guarda nos seus arquivos aqui, hoje à noite.

Dunross fitou o amigo, impassível.

— Então, sua posição oficial é de que esse relatório é exato?

— Crosse acha que pode ser. Talvez fosse de bom alvitre termos um homem aqui, por via das dúvidas, não acha?

— Faça o que achar melhor, Brian.

— Devemos botar um homem em Shek-O?

— Faça o que achar melhor, Brian.

— Não está cooperando muito, não é?

— Está errado, amigão. Estou levando o que você disse muito a sério — disse Dunross, vivamente. — Quando arranjou a cópia, e como?

Brian Kwok hesitou.

— Não sei, e se soubesse, não sei se deveria lhe dizer. Dunross se pôs de pé.

— Bem, então vamos procurar Crosse.

— Mas por que os Gornts e os Rothwells odeiam tanto os Struans e os Dunrosses, Peter? — perguntava Casey. Ela e Bartlett estavam passeando pelos lindos jardins na noite fresca, ao lado de Peter Marlowe e da mulher, Fleur.

— Ainda não conheço todos os motivos — respondeu o inglês. Era um homem alto de trinta e nove anos, cabelos claros, sotaque distinto e uma estranha intensidade por trás dos olhos azul-acinzentados. — Dizem os boatos que a inimizade remonta aos Brocks... que há um tipo de ligação, uma ligação de família entre os Gornts e os Brocks. Talvez remonte ao velho Tyler Brock em pessoa. Ouviu falar nele?

— Claro — respondeu Bartlett. — Como começou a rixa?

— Quando Dirk Struan era garoto, foi aprendiz de marinheiro num dos navios mercantes armados de Tyler Brock. A vida no mar era muito brutal, na época, a vida em qualquer parte, na verdade, mas então no mar... nem se fala! Bem, de qualquer modo, Tyler Brock açoitou impiedosamente o jovem Struan por uma falta imaginária, depois deixou-o como morto em algum local da costa da China. Dirk Struan tinha catorze anos, na época, e jurou por Deus e pelo Diabo que quando fosse homem arrasaria a Casa de Brock e Filhos e iria atrás de Tyler com um chicote de múltiplas pontas. Ao que me conste, nunca o fez, embora contem que espancou até a morte o filho mais velho de Tyler, com um ferro de combate chinês.

— O que é isso? — quis saber Casey, inquieta.

— É como uma clava, Casey, três ou quatro pequenos elos de ferro com uma bola de pregos numa das extremidades e um cabo na outra.

— Ele o matou para vingar-se do pai dele? — perguntou ela, chocada.

— Esse detalhe ainda não sei, mas aposto que tinha seus motivos. — Peter Marlowe deu um sorriso estranho. — Dirk Struan, o velho Tyler e todos os outros homens que fizeram o Império Britânico, conquistaram a índia, abriram a China, meu Deus, eram gigantes! Será que já lhes contei que Tyler tinha um olho só? Um dos seus olhos foi arrancado por uma adriça açoitada por um temporal na década de 1830, quando corria com seu veleiro de três mastros, o White Witch, atrás de Struan, com um grande carregamento de ópio a bordo, Struan ia um dia à frente dele no seu veleiro, o China Cloud, na corrida dos campos de ópio britânico da índia para os mercados da China. Dizem que Tyler apenas derramou conhaque no buraco do olho arrancado e xingou seus marinheiros para que soltassem mais as velas. — Peter Marlowe hesitou, depois continuou: — Dirk foi morto por um tufão que atingiu Happy Valley em 1841, e Tyler morreu sem um tostão, falido, em 1863.

— Por que sem um tostão, Peter? — perguntou Casey.

— Conta a lenda que Tess, sua filha mais velha, a futura Bruxa Struan, vinha tramando a derrocada do pai há anos... sabiam que ela se casou com Culum, o único filho de Dirk? Bem, a Bruxa Struan tramou secretamente com o Victoria Bank, que Tyler fundara na década de 1840, e com a Cooper-Tillman, os sócios de Tyler nos Estados Unidos. Eles o atraiçoaram e derrubaram a grande Casa de Brock e Filhos num só golpe gigantesco. Ele perdeu tudo... os navios, as cargas de ópio, propriedades, armazéns, ações, tudo. Foi destroçado.

— O que lhe aconteceu?

— Não sei, ninguém sabe ao certo. Mas contam que naquela mesma noite, 31 de outubro de 1863, o velho Tyler foi para Aberdeen (um porto que fica do outro lado de Hong Kong) com o neto, Tom, que tinha então vinte e cinco anos, e seis marujos, tomaram à força uma lorcha marítima (a lorcha é um navio com casco chinês mas equipamento europeu) e se puseram ao mar. Dizem que ele estava louco de raiva, e hasteou a flâmula dos Brocks no mastro; tinha pistolas na cinta e uma espada de abordagem sangrenta na mão... eles haviam matado quatro homens para tomar o navio. Na garganta do porto, um cúter veio atrás dele, e ele o fez em pedaços... naquele tempo quase todos os barcos eram armados com canhões por causa dos piratas... estes mares têm sempre sido infestados de piratas, desde tempos imemoriais. E assim, o velho Tyler pôs-se ao mar, um bom vento soprando do leste, e uma tempestade chegando. Na desembocadura de Aberdeen, ele começou a soltar pragas. Amaldiçoou a Bruxa Struan e amaldiçoou a ilha, amaldiçoou o Victoria Bank, que o traíra, e os Coopers da Cooper-Tillman. Porém, mais do que todos, amaldiçoou o tai-pan que estava morto há mais de vinte anos. E o velho Tyler Brock jurou vingança. Dizem que berrou que ia para o norte fazer pilhagens e que ia começar de novo. Ia construir de novo a sua Casa, e então: "...então, eu volto, por Deus... eu volto e me vingo, e vou ser a Casa Nobre, por Deus... eu volto..."