Bartlett e Casey sentiram um frio na espinha quando Peter Marlowe engrossou a voz. Depois, ele continuou:
— Tyler foi para o norte, e nunca mais se soube notícias dele, nenhum vestígio dele, da lorcha ou da tripulação, nunca mais. Mesmo assim, a presença dele ainda está aqui... como a de Dirk Struan. É melhor que não esqueçam que, ao lidarem com a Casa Nobre, também estarão lidando com esses dois, os seus fantasmas. Na noite em que Ian Dunross assumiu o posto de tai-pan, a Struan perdeu o seu principal cargueiro, o Lasting Cloud, num tufão. Foi um desastre financeiro gigantesco. Ele soçobrou perto de Formosa, e perdeu-se com todos os seus marinheiros, exceto um moço de convés inglês. O jovem estivera na ponte e jurou que havia sido atraído para cima das rochas por luzes falsas, e que ouvira um maníaco rindo enquanto iam a pique.
Casey estremeceu involuntariamente.
Bartlett notou, e deu-lhe o braço, com naturalidade, e ela sorriu para ele. Linc disse:
— Peter, as pessoas aqui falam sobre gente que já morreu há cem anos como se estivessem na sala ao lado.
— É um antigo hábito chinês — replicou Peter Marlowe, prontamente. — Os chineses acreditam que o passado controla o futuro e explica o presente. Claro que Hong Kong tem apenas cento e vinte anos de existência, portanto, um homem de oitenta anos hoje... Veja por exemplo Phillip Chen, o atual representante nativo da Struan. Está com sessenta e cinco anos... o seu avô foi o famoso Sir Gordon Chen, filho ilegítimo de Dirk Struan, que morreu em 1907, com oitenta e seis anos. Phillip Chen estaria então com nove anos. Um garoto vivo de nove anos se lembraria de todas as histórias que seu adorado avô lhe teria contado sobre o seu pai, o tai-pan, e May-may, sua famosa amante. Dizem que o velho Sir Gordon Chen era uma figura e tanto, um verdadeiro ancestral. Teve duas mulheres oficiais, oito concubinas de idades variadas, e deixou a imensa família Chen rica, poderosa, e metida em tudo o que era possível. Peça a Dunross para lhe mostrar os seus retratos... vi apenas cópias das telas, mas, puxa vida, que homem bonito era! Há dúzias de pessoas vivas aqui, hoje em dia, que o conheceram... um dos grandes fundadores originais. E, meu Deus, a Bruxa Struan morreu faz apenas quarenta e seis anos. Olhe ali... — Fez sinal para um homenzinho murcho, magro como bambu, e igualmente resistente, conversando animadamente com uma jovem. — Aquele é Vincent McGore, tai-pan da quinta grande hong, a International Asian Trading. Trabalhou durante anos para Sir Gordon, e depois para a Casa Nobre. — Abriu um sorriso de repente. — Conta a lenda que ele foi amante da Bruxa Struan quando tinha dezoito anos e acabara de saltar de um cargueiro de gado vindo de algum porto do Oriente Médio... ele de escocês não tem nada.
— Pare com isso, Peter — exclamou Fleur. — Você acaba de inventar esta história!
— Como ousa? — disse ele, sem deixar de sorrir. — Ela só tinha setenta e cinco anos, na época.
Todos riram.
— Qual é a verdade? — perguntou Casey.
— Quem sabe o que é verdade e o que é ficção, Casey? Foi o que me contaram.
— Eu não acredito — disse Fleur, Confiantemente. — Peter inventa histórias.
— Onde descobriu tudo isso, Peter? — perguntou Bartlett.
— Uma parte eu li. Na biblioteca do Tribunal de Justiça há exemplares de jornais que datam de 1870. Há também a História dos Tribunais de Justiça de Hong Kong. É um livro que mostra o lado pior de Hong Kong, se você estiver interessado. Pombas, as coisas que aprontavam, os pseudojuízes e secretários coloniais, governadores e policiais, os tai-pans, os bem-nascidos e os malnascidos. Roubalheira, assassinato, corrupção, adultério, pirataria, suborno... está tudo lá!
"Além disso, fiz perguntas. Há dúzias de velhos moradores da China que adoram relembrar os velhos tempos, e que sabem um bocado de coisas sobre a Ásia e Xangai. Além disso, há gente que odeia, ou tem inveja, e mal pode esperar para derramar um pouco de veneno numa boa reputação, ou numa que seja má. Naturalmente, a gente peneira, tenta peneirar a verdade da mentira, e isso é muito difícil, se não impossível."
Por um momento, Casey ficou imersa em seus pensamentos. Depois, indagou:
— Peter, como era Changi? De verdade?
O rosto dele não se alterou, mas os olhos, sim.
— Changi foi a gênese, o lugar de recomeçar. — O tom de voz dele deixou-os a todos gelados, e ela viu Fleur dar a mão ao marido, e num momento ele voltou ao presente. — Estou bem, querida — falou. Em silêncio, um tanto encabulados, eles saíram do caminho e passaram para o terraço inferior. Casey soube que tinha se metido onde não devia. — Que tal tomarmos uma bebida, hem, Casey? — falou Peter Marlowe, bondosamente, consertando a situação.
— Sim. Obrigada, Peter.
— Linc — falou Peter Marlowe —, existe uma incrível inclinação para a violência que passa de geração a geração nesses bucaneiros... porque é o que são. Este é um lugar muito especial... gera gente muito especial. — Depois de uma pausa, acrescentou, pensativo: — Ouvi dizer que está pensando em fazer negócios por aqui. Se eu fosse você, seria muito, muito cuidadoso.
15
23h05m
Dunross, seguido por Brian Kwok, dirigia-se para Roger Crosse, chefe do Serviço Especial de Informações, que estava no terraço, batendo papo amavelmente com Armstrong e os três americanos, Ed Langan, comandante John Mishauer, o oficial de marinha fardado, e Stanley Rosemont, um homem alto, na casa dos cinqüenta. Dunross não sabia que Langan era do FBI, nem que Mishauer pertencia ao Serviço de Informações da Marinha americana, apenas que serviam no consulado. Mas sabia que Rosemont era da CIA, embora desconhecesse o seu posto. As senhoras ainda estavam voltando devagar para as suas mesas, ou tagarelando nos terraços e no jardim. Os homens saboreavam seus drinques, e a festa seguia gostosa e suave como a noite. Alguns casais dançavam no salão, ao som de música lenta e doce. Adryon estava entre essas pessoas, e ele viu Penelope aturando estoicamente Havergill. Notou Casey e Bartlett conversando animadamente com Peter e Fleur Marlowe, e teria adorado poder escutar o que diziam. Aquele tal de Marlowe podia facilmente tornar-se uma pedrinha no sapato, pensou, de passagem. "Já está sabendo segredos demais, e se lesse o nosso livro... De maneira alguma!", pensou. "Absolutamente. Esse é um livro que jamais lerá. Como Alastair pôde ser tão estúpido?"
Alguns anos atrás, Alastair Struan contratara um famoso escritor para escrever a história da Struan, para comemorar os seus cento e vinte e cinco anos de comércio, e entregara a ele velhos livros razão e malas cheias de velhos documentos, sem tê-los lido ou selecionado. Dentro de um ano, o escritor produzira um trabalho inflamado que documentava muitos acontecimentos e transações que se pensava enterrados para sempre. Em choque, agradeceram ao escritor, pagaram o seu serviço, acrescentando uma gratificação generosa, e o livro (dois únicos exemplares) fora colocado no cofre do tai-pan.
Dunross chegara a pensar em destruir os exemplares. Mas depois pensou: "A vida é a vida, a sorte é a sorte, e desde que apenas nós leiamos o livro, não há perigo".
— Alô, Roger — disse, sombriamente divertido. — Podemos lhes fazer companhia?
— Claro, tai-pan. — Crosse cumprimentou-o calorosamente, e os outros também. — Está em casa!
Os americanos sorriram educadamente da piada. Bateram papo por um momento sobre coisas inconseqüentes e as corridas de sábado, depois Langan, Rosemont e o comandante Mishauer, pressentindo que os outros queriam conversar em particular, pediram licença e saíram. Quando estavam sozinhos, Brian Kwok resumiu exatamente o que Dunross lhe dissera.