— Nós certamente apreciaremos a sua ajuda, Ian — disse Crosse, os olhos claros e penetrantes. — Brian tem razão sobre os prováveis riscos envolvidos... se, é claro, existirem outros relatórios de Alan Medford Grant. Mesmo que não existam, alguns homens maus podem querer investigar.
— Exatamente como e quando arranjou uma cópia do meu último relatório?
— Por quê?
— Vocês mesmos a conseguiram... ou foi por intermédio de uma terceira pessoa?
— Por quê?
A voz de Dunross endureceu.
— Porque é importante.
— Por quê?
O tai-pan o fitou, e os três homens sentiram a força da sua personalidade. Mas Crosse era igualmente voluntarioso.
— Posso responder parcialmente à sua pergunta, Ian — disse, serenamente. — Se o fizer, responderá à minha?
— Responderei.
— Conseguimos uma cópia do seu relatório hoje de manhã. Um agente de informações (imagino que na Inglaterra) deu a dica a um amigo aqui de Hong Kong que um mensageiro estava lhe trazendo algo que nos interessaria. Esse contato de Hong Kong nos perguntou se estaríamos interessados em dar uma espiada na coisa... por um preço, é claro.
— Crosse era tão convincente que os dois outros policiais que conheciam a história real ficaram duplamente impressionados.
— Hoje de manhã, a fotocópia foi entregue na minha casa por um chinês que eu nunca tinha visto antes. Ele foi pago... naturalmente, você há de compreender que nessas coisas não se perguntam nomes. Agora, por quê?
— A que horas, hoje de manhã?
— Às seis horas e quatro minutos, se quer a hora exata. Mas por que isso é tão importante para você?
— Porque Alan Medford Grant...
— Ah, papai, desculpe interrompê-lo — falou Adryon, aparecendo sem fôlego, trazendo consigo um rapaz alto e bonitão, o dinner jacket largo e amassado, a gravata torta e os sapatos gastos e mal engraxados destoando de toda aquela elegância. — Desculpe interromper, mas posso mexer na música?
Dunross fitava o rapaz. Conhecia Martin Haply e a sua reputação. O jornalista canadense treinado na Inglaterra tinha vinte e cinco anos, e estava há dois na colônia, e agora era o flagelo da comunidade empresarial. Seu sarcasmo cortante e devassas penetrantes na vida de personalidades e em práticas comerciais que eram legais em Hong Kong, mas em nenhuma outra parte do mundo ocidental, eram uma irritação constante.
— A música, papai — repetiu Adryon, continuando —, é pavorosa. Mamãe disse que tinha que pedir licença a você. Posso pedir-lhe que toquem algo diferente, por favor?
— Tudo bem, mas não vá transformar minha festa num happening.
Ela riu, e ele voltou sua atenção para Martin Haply.
— Boa noite.
— Boa noite, tai-pan — disse o rapaz com um sorriso confiante e desafiador. — Adryon me convidou. Espero não incomodar por ter vindo depois do jantar.
— Claro que não. Divirta-se — disse Dunross, depois acrescentou, secamente: — Há muitos amigos seus, aqui.
Haply riu.
— Perdi o jantar porque estava seguindo a pista de uma fofoca e tanto.
— É?
— É. Parece que certos interesses, em conjunção com um certo grande banco, têm espalhado boatos maldosos sobre a solvência de um certo banco chinês.
— Está se referindo ao Ho-Pak?
— Mas é tudo besteira. Os boatos. Só mais tapeações hong-konguianas.
— É? — O dia todo Dunross ouvira boatos sobre a situação periclítante do Ho-Pak Bank de Richard Kwang. — Tem certeza?
— Vou escrever um artigo a respeito no Guardian de amanhã. Mas, por falar no Ho-Pak... — Martin Haply acrescentou, despreocupadamente: — souberam que mais de cem pessoas tiraram todo o seu dinheiro da agência de Aberdeen, hoje à tarde? Pode ser o começo de uma corrida e...
— Desculpe, papai... vamos indo. Martin, não está vendo que papai está ocupado?
Ela se esticou e deu um leve beijo em Dunross, e a mão dele automaticamente enlaçou-a e apertou-a.
— Divirta-se, querida.
Ele ficou olhando enquanto ela se afastava rapidamente, com Haply logo atrás. "Filho da puta atrevido", pensou Dunross distraidamente, ansioso agora pelo artigo do dia seguinte, sabendo que Haply era meticuloso, insubornável, e muito bom na sua profissão. Será que Richard tinha mesmo ultrapassado os seus limites?
— O que dizia, Ian? Sobre Alan Medford Grant? — falou uma voz, interrompendo-lhe os pensamentos.
— Ah, sim, desculpe. — Dunross voltou a sentar-se à mesa, pondo em compartimentos mentais os outros problemas. — Alan está morto — falou, suavemente.
Os três policiais fitaram-no, boquiabertos.
— O quê?
— Recebi um telegrama a um minuto para as oito desta noite, e falei com o assistente dele em Londres às nove horas e onze minutos. — Dunross observava-os. — Queria saber o seu "quando", porque é óbvio que daria tempo de sobra para o seu espião do KGB (se existir) ligar para Londres e mandar assassinar o pobre Alan. Não daria?
— Daria. — A fisionomia de Crosse estava séria. — A que horas ele morreu?
Dunross contou-lhe toda a conversa que tivera com Kiernan, exceto o detalhe do telefonema para a Suíça. Uma intuição advertiu-o para ficar calado.
— Agora, a pergunta é: foi acidente, coincidência ou assassinato?
— Não sei — disse Crosse. — Mas não creio em coincidências.
— Nem eu.
— Santo Deus — falou Armstrong, entre dentes —, se Alan não tinha autorização... só Deus sabe o que há naqueles relatórios, Deus e você, Ian. Se você possui as únicas cópias existentes, isso as torna potencialmente mais explosivas do que nunca.
— Se é que existem — disse Dunross.
— E existem?
— Eu lhes direi amanhã. Às dez horas. — Dunross se levantou. — Querem me dar licença, por favor — disse cortesmente, com o seu charme tranqüilo. — Preciso ir atender agora aos meus outros convidados. Ah, só mais uma coisa. E quanto ao Eastern Cloud? Roger Crosse respondeu:
— Será liberado amanhã.
— Haja o que houver? Crosse pareceu ficar chocado.
— Santo Deus, tai-pan, não estávamos negociando! Brian, você não disse que estávamos apenas tentando ajudar?
— Disse, sim, senhor.
— Os amigos devem sempre se ajudar entre si, não é, tai-pan?
— É. Sem dúvida. Obrigado.
Ficaram vendo-o afastar-se até sumir de vista.
— Sim ou não? — murmurou Brian Kwok.
— Se existem? Eu diria que sim — falou Armstrong.
— Claro que existem — disse Crosse, cheio de irritação. — Mas onde? — Pensou por um momento, depois acrescentou, com mais irritação ainda, e o coração dos dois homens bateu fora do compasso: — Brian, enquanto você estava com o Ian, Feng Garçom de Vinhos me contou que nenhuma das suas chaves serviu.
— Puxa, que pena, senhor — disse Brian Kwok, cautelosamente.
— É. O cofre aqui não vai ser moleza. Armstrong se manifestou:
— Quem sabe devíamos procurar em Shek-O, senhor, por via das dúvidas.
— Você guardaria ali tais documentos... se existissem?
— Não sei, senhor. Dunross é imprevisível. Eu diria que estão na sua cobertura na Struan, seria o local mais seguro.
— Já esteve lá?
— Não, senhor.
— Brian?
— Não, senhor.
— Nem eu. — Crosse sacudiu a cabeça. — Mas que merda.
Brian Kwok disse, pensativo:
— Poderíamos somente mandar uma equipe à noite, senhor. Existe um elevador particular que leva àquele andar, mas é preciso uma chave especial. Parece que há também um outro elevador direto que sai da garagem subterrânea.
— Deram uma mancada dos diabos em Londres — falou Crosse. — Não entendo por que aqueles cretinos não estavam por dentro. Nem por que Alan não pediu permissão.