— Quem sabe não queria que o pessoal interno soubesse que estava transando com um cara de fora.
— Se havia um cara de fora, podia haver outros. Crosse soltou um suspiro e, imerso em seus pensamentos, acendeu um cigarro. Armstrong sentiu as pontadas de fome de tabaco. Tomou um gole de conhaque, mas isso não aliviou a dor.
— Langan passou a sua cópia adiante, senhor?
— Sim, para Rosemont, aqui, e, pela mala diplomática, para o seu QG do FBI em Washington.
— Pombas — lamentou-se Brian Kwok —, então Hong Kong inteira vai ficar sabendo, pela manhã.
— Rosemont me assegurou que não. — Crosse deu um sorriso sem humor. — Contudo, é melhor estarmos preparados.
— Quem sabe o Ian cooperaria mais prontamente, se soubesse, senhor.
— Não, melhor deixarmos isso entre nós. Mas ele está aprontando alguma coisa.
Armstrong falou:
— Quem sabe se o superintendente Foxwell falasse com ele, senhor, são velhos amigos.
— Se Brian não conseguiu persuadi-lo, ninguém mais conseguirá.
— O governador, senhor? Crosse sacudiu a cabeça.
— Não há por que envolvê-lo. Brian, cuide de Shek-O.
— Encontro e abro o cofre dele, senhor?
— Não. Basta levar uma equipe para lá e cuidar para que ninguém mais entre. Robert, vá para o QG e ligue para Londres. Chame Pensely na MI-5 e Sinders na MI-6. Descubra a hora exata do ocorrido com Alan. Tudo o que puder. Verifique a história do tai-pan. Verifique tudo... pode ser que haja outras cópias. A seguir, mande uma equipe de três agentes para cá, para vigiar o local hoje à noite, especialmente para vigiar Dunross, sem que ele saiba, é claro. Vou me encontrar com o chefe deles na junção da Peak Road com a Culum's Way dentro de uma hora, e isso lhe dará tempo o bastante. Mande outra equipe vigiar o prédio da Struan. Ponha um homem na garagem... por via das dúvidas. Deixe o seu carro comigo, Robert. Encontro vocês no meu gabinete dentro de uma hora e meia. Tratem de ir andando.
Os dois homens foram se despedir do anfitrião, e agradecer-lhe; depois foram para o carro de Brian Kwok. Enquanto desciam a Peak Road no velho Porsche, Armstrong disse o que ambos vinham pensando desde que Dunross lhes contara.
— Se Crosse é o espião, teria tempo de sobra para ligar para Londres, ou avisar a Sevrin, o KGB, ou quem diabo seja.
— Saímos do gabinete dele às seis e dez, onze horas de Londres, portanto não podíamos ter sido nós, não haveria tempo. — Armstrong mudou de posição para aliviar a dor nas costas. — Porra, mas que vontade de fumar um cigarrinho.
— Há um maço no porta-luvas, amigão.
— Amanhã... vou fumar amanhã. Igualzinho aos AA, a um maldito viciado! — Armstrong riu, mas não havia humor na sua risada. Lançou um olhar para o amigo. — Descubra discretamente quem mais leu a pasta de Alan hoje... além de Crosse... o mais rápido que puder.
— Foi o que também pensei.
— Se ele tiver sido o único a lê-la... bem, é mais uma evidência. Não chega a ser uma prova, mas estaremos chegando lá. — Abafou um bocejo nervoso, sentindo-se muito cansado. — Se for mesmo ele, estamos atolados na merda.
Brian dirigia muito depressa e muito bem.
— Ele disse quando deu a cópia para Langan?
— Disse. Ao meio-dia. Almoçaram juntos.
— Bem, então o vazamento de informações poderia ser deles, do pessoal do consulado... aquele lugar está cheio de boquirrotos.
— É possível, mas meu faro diz que não. Rosemont é legal, Brian... e o Langan. São profissionais.
— Não confio neles.
— Você não confia em ninguém. Ambos pediram aos seus QGs para verificarem as viagens de Bartlett e Casey a Moscou.
— Ótimo. Acho que vou mandar um telex para um amigo em Ottawa. Lá também pode haver alguma ficha deles. Aquela Casey é mesmo uma uva, não é? Será que estava usando alguma coisa sob a roupa?
— Aposto dez dólares contra um pêni como você nunca vai descobrir.
— Fechado.
Ao dobrarem uma esquina, Armstrong olhou para a cidade lá embaixo, para o porto, o cruzador americano todo iluminado ancorado no cais, do lado de Hong Kong.
— Nos bons tempos teríamos ali meia dúzia dos nossos vasos de guerra — comentou, tristemente. — A boa Marinha Real!
Ele servira em torpedeiros durante a guerra, tenente da Marinha Real. Fora a pique duas vezes, uma em Dunquerque, a segunda vez três dias após o Dia D, perto de Cherburgo.
— É. Uma pena, quanto à marinha, mas, bem, o tempo vai passando.
— Mas não melhora nada, Brian. Uma pena que o raio do Império tenha ido para o brejo! As coisas eram melhores antes. Melhores para toda esta droga de mundo! Maldita guerra! Malditos alemães, malditos japoneses...
— É. Falando na marinha, que tal o Mishauer?
— O sujeito do Serviço de Informações da Marinha americana? Foi legal — disse Armstrong, cansadamente. — Falou muito sobre assuntos navais. Murmurou para o Velho que os Estados Unidos vão dobrar a sua Sétima Frota. É tão super-secreto que nem quis confiar no telefone. Vai haver uma grande expansão por terra no Vietnam.
— Um bando de idiotas... vão ser triturados, como os franceses. Será que não lêem os jornais, para não falar nos relatórios dos serviços de informações?
— Mishauer murmurou também que o porta-aviões nuclear deles vai chegar depois de amanhã para uma visita de oito dias de descanso e recreação. Outro assunto ultra-secreto. Pediu-nos que dobrássemos a segurança... e bancássemos a ama-seca para os ianques em terra.
— Mais chateação.
— É. — E Armstrong acrescentou, secamente: — Especialmente porque o Velho mencionou que um cargueiro soviético danificado chegara à noite, para sofrer reparos.
— Puta que o pariu! — exclamou Brian, corrigindo um golpe de direção involuntário.
— Foi o que eu pensei. Mishauer quase teve um enfarte, e Rosemont soltou palavrões por dois minutos inteiros. O Velho lhes assegurou que, naturalmente, nenhum marujo russo poderá baixar a terra sem permissão especial, como sempre, e que nós os seguiremos, como sempre, mas um ou dois darão um jeito de precisar de um médico, ou coisa parecida, de repente, e talvez escapem da rede.
— É. — Depois de uma pausa, Brian Kwok disse: — Espero que possamos pôr as mãos naquelas pastas de Alan, Robert. A Sevrin é uma faca nas entranhas da China.
— É.
Guiaram em silêncio durante algum tempo.
— Estamos perdendo a nossa guerra, não estamos? — comentou Armstrong.
— Estamos.
16
23h25m
O cargueiro soviético Soviétski Ivãnov estava ancorado no cais do imenso Estaleiro Wampoa, que fora construído sobre terras recuperadas no lado oriental de Kowloon. Estava todo iluminado por holofotes. Era um navio de vinte mil toneladas que seguia as rotas comerciais da Ásia, partindo de Vladivostok, bem ao norte. Na sua ponte havia muitas antenas e equipamentos modernos de radar. Marinheiros russos rodeavam as pranchas de desembarque da proa e da popa, já em terra. Próximo de cada prancha havia um policial fardado, um jovem chinês usando as calças curtas caqui regulamentares, meias três-quartos, cinto e sapatos pretos. Um marujo que se dirigia a terra teve seu passe examinado pelos colegas, depois pelo guarda, e então, enquanto caminhava para os portões do estaleiro, dois chineses em trajes civis saíram das sombras e começaram a seguir-lhe os passos... abertamente.
Outro marujo desceu pela prancha da popa. Verificaram-lhe o passe e então, logo a seguir, mais policiais chineses à paisana saíram silenciosamente atrás dele.
Sem ser notado, um barco a remo saiu sem fazer barulho do lado oposto da popa do navio e enfiou-se sob as sombras do cais. Deslizou suavemente ao longo da muralha alta na direção de um lance de degraus úmidos que adentravam o mar, a uns cinqüenta metros de distância. Havia dois homens a bordo, e as forquetas estavam abafadas. Na base dos degraus, o barco parou. Os dois homens começaram a aguçar os ouvidos.