Na prancha da proa, um terceiro marujo que ia para a terra desceu cambaleante os degraus escorregadios. Ao chegar ao chão, foi interceptado, examinaram-lhe o passe e começou uma discussão. A guarda de terra recusou-lhe permissão. Ele estava obviamente bêbado, e, portanto, xingando em altos brados, e largou um soco num dos guardas. O homem se desviou e acertou o marujo com um forte soco. A atenção dos dois guardas chineses concentrou-se na luta unilateral. O homem corpulento e despenteado que estava sentado na popa do barco a remo subiu correndo os degraus, cruzou correndo o cais iluminado e os trilhos da estrada de ferro, e sumiu nos becos do estaleiro, sem ser visto. Calmamente, o barco a remo começou a voltar pelo caminho pelo qual viera, e, num momento, a briga acabou. O pobre bêbado foi carregado de volta para bordo, sem brutalidade.
Nos atalhos do estaleiro, o homem despenteado seguia o seu caminho. De quando em vez, hábil e descontraidamente, olhava para trás, para certificar-se de que não estava sendo seguido. Usava terno de tropical escuro e sapatos de boa qualidade de sola de borracha. Seus papéis identificavam-no como Ígor Voranski, marinheiro de primeira classe, marinha mercante soviética.
Ele evitou os portões do estaleiro e o policial que os vigiava, e acompanhou o muro por uns cem metros, até uma porta lateral. A porta ia dar num beco da área de reurbanização de Tai-wan Shan — um labirinto de barracos de ferro corrugado, madeira compensada e papelão. Apressou o passo. Logo saía da área e entrava em ruas fortemente iluminadas, cheias de lojas, barraquinhas e gente, que acabaram por conduzi-lo à Chatham Road, onde fez sinal para um táxi.
— Mong Kok, o mais rápido que puder — disse, em inglês. — Balsas Yaumati.
O motorista fitou-o com insolência.
— Hem?
— Ayeeyah! — replicou Voranski imediatamente, e acrescentou em cantonense rude e perfeito: — Mong Kok! Está surdo? Andou cheirando o Pó Branco? Está me tomando por um demônio estrangeiro turista da Montanha Dourada... eu, claramente uma pessoa de Hong Kong, que morou aqui vinte anos? Ayeeyah! Balsas Yaumati, do outro lado de Kowloon. Precisa de orientação? É da Mongólia Exterior? É um estranho, hem?
O motorista abaixou a bandeira, carrancudo, e arrancou, dirigindo-se para o sul, e depois para o oeste. O homem no assento traseiro vigiava a rua atrás deles. Não enxergou nenhum carro a segui-los, mas mesmo assim não se descontraiu. "São espertos demais aqui", pensou. "Tenha cuidado!" Na estação das Balsas Yaumati, pagou o táxi, deu ao homem a gorjeta estritamente correta, depois entrou no meio do povo, saiu, e fez sinal para outro táxi.
— Balsa Dourada.
O motorista concordou com ar de sono, bocejou e foi para o sul.
No terminal das balsas, ele pagou ao motorista quase antes que este parasse o carro, e se meteu no meio do povo que se apressava para chegar às borboletas das barcas e balsas de Hong Kong. Porém, depois de cruzar a borboleta, ele não se dirigiu para o portão das balsas, mas sim para o banheiro dos homens. Logo saiu de lá e entrou numa cabine telefônica. Agora, bem certo de que não fora seguido, estava mais descontraído.
Enfiou uma moeda no aparelho e discou.
— Sim? — atendeu um homem, falando inglês.
— Sr. Lop-sing, por favor.
— Não conheço tal nome. Aqui não há nenhum Sr. Lop-ting. É engano.
— Quero deixar um recado.
— Lamento, discou o número errado. Olhe no catálogo. Voranski relaxou, o coração bateu mais devagar.
— Quero falar com Arthur — disse, num inglês perfeito.
— Desculpe, ele ainda não chegou.
— Mandaram-lhe que ficasse aí, à espera do meu telefonema — disse, secamente. — Por que houve alteração?
— Quem fala, por favor?
— Brown — falou bruscamente, usando o seu codinome. Acalmou-se um pouco ao notar que a outra voz imediatamente assumiu a justa deferência.
— Ah, Sr. Brown, bem-vindo de volta a Hong Kong. Arthur ligou e me disse que esperasse o seu telefonema. Pediu-me que lhe desse as boas-vindas e dissesse que tudo está preparado para a reunião, amanhã.
— Para quando o espera?
— Estará chegando a qualquer momento, senhor. Voranski praguejou em silêncio, pois tinha obrigação de telefonar para o navio dentro de uma hora. Não gostava de divergências em nenhum plano.
— Está certo — disse. — Diga-lhe que ligue para mim no 32. — Este era o codinome do apartamento seguro deles, no Sinclair Towers. — O americano já chegou?
— Já.
— Ótimo. Veio acompanhado?
— Sim.
— Ótimo. E então?
— Arthur não me contou mais nada.
— Já a conheceu?
— Não.
— E Arthur?
— Não sei.
— Já foi feito contato com qualquer um dos dois?
— Desculpe, não sei. Arthur não me contou.
— E o tai-pan? E quanto a ele?
— Está tudo acertado.
— Ótimo. Quanto tempo vocês levariam para chegar ao 32, se fosse necessário?
— De dez a quinze minutos. Quer que o encontremos lá?
— Decido mais tarde.
— Ah, Sr. Brown, Arthur achou que o senhor talvez gostasse de companhia, depois de uma viagem tão longa. O nome dela é Koh, Maureen Koh.
— Gentil da parte dele... muito gentil.
— O número do telefone dela está ao lado do telefone, no 32. Basta ligar, e ela chegará dentro de meia hora. Arthur queria saber se o seu superior estava com o senhor hoje... talvez também gostasse de companhia.
— Não. Ele virá amanhã, conforme o planejado. Mas amanhã à noite estará esperando a hospitalidade. Boa noite. — Voranski desligou arrogantemente, consciente da sua posição hierárquica mais alta no KGB. Neste exato instante a porta da cabine telefônica se abriu e um chinês entrou violentamente, enquanto outro bloqueava a abertura. — Mas o que...
As palavras morreram enquanto ele morria. O estilete era longo e fino. Saiu com facilidade. O chinês deixou o corpo cair. Fitou o monte inerte por um momento, depois limpou a faca no cadáver e enfiou-a de volta na bainha, na manga da sua roupa. Deu um amplo sorriso para o chinês corpulento que ainda bloqueava a janela de vidro da parte superior da cabine, como se fosse o freguês seguinte, depois colocou uma moeda no aparelho e discou.
No terceiro toque uma voz educada disse:
— Delegacia de Tsim Sha Tsui, boa noite.
O homem deu um sorriso sardônico e perguntou rudemente, em xangaiense:
— Fala xangaiense?
Uma hesitação, um estalido, e agora nova voz, em xangaiense, falou:
— Aqui é o sargento comissionado Tang-po. O que é?
— Um porco soviético escapou da sua rede filha da puta esta noite, com a mesma facilidade com que o novilho caga, mas agora já foi se juntar aos seus ancestrais. Será que nós, da 14K, temos que fazer todo o seu trabalho infestado de estrume para vocês?
— Que sovi...
— Cale a boca e escute! O cadáver de bosta de tartaruga dele está numa cabine telefônica na Balsa Dourada, do lado de Kowloon. Diga aos cornos dos seus superiores para ficarem de olho nos inimigos da China, e não fitando os próprios eus!
Desligou imediatamente e saiu da cabine. Virou as costas momentaneamente e cuspiu no corpo, depois fechou a porta, e foi, junto com o amigo, unir-se às filas de passageiros que se dirigiam para a balsa que partiria para Hong Kong.
Eles não notaram o homem que os seguia. Era um americano baixo e gorducho, vestido como todos os outros turistas, com a inevitável máquina fotográfica à volta do pescoço. Agora, ele se apoiava à amurada de boreste, misturando-se perfeitamente com a multidão, apontando a câmara daqui para lá, enquanto a balsa seguia para a ilha de Hong Kong. Mas, ao contrário dos demais turistas, o filme dele era muito especial, assim como as lentes e a câmara.
— Alô, amigo — disse outro turista, sorriso amplo, aproximando-se dele. — Divertindo-se?