— Claro — retrucou o homem. — Hong Kong é uma beleza, hem?
— Sem dúvida. — Virou-se e admirou a vista. — Deixa Minneapolis no chinelo.
O primeiro homem também se virou, mas sem tirar os chineses da sua linha de visão, depois baixou a voz.
— Temos encrenca.
O outro turista perdeu a cor.
— Nós o perdemos? Ele não deu meia-volta, Tom, estou certo. Cobri as duas saídas. Pensei que você o tinha na mira, dentro da cabine.
— Pode apostar as calças que ele estava na mira. Olhe lá para trás, fileira do centro: o palhaço chinês de camisa branca e o que está ao lado dele. Os dois filhos da puta fecharam o paletó dele!
— Puta que o pariu! — Marty Povitz, um dos agentes da equipe da CIA encarregada da cobertura do Soviétski Ivánov, olhou com cuidado para os dois chineses. — Kuomintang? Nacionalistas? Ou comunas?
— Porra, e eu lá sei. Mas o presunto está numa cabine telefônica, lá atrás. Onde está Rosemont?
— Foi... — Povitz se deteve, depois ergueu a voz e tornou-se afável e turista de novo, enquanto os passageiros começaram a se amontoar perto da saída. — Olhe para lá! — falou, apontando para o topo do Pico. Os prédios de apartamentos eram altos e bem-iluminados, assim como as casas que pontilhavam as encostas, uma delas em especial, muito lá no alto, a mansão particular mais alta em Hong Kong. Estava iluminada por holofotes, e brilhava como uma jóia. — Puxa, quem mora lá mora quase no topo do mundo, hem?
Tom Connochie, o mais velho dos dois, soltou um suspiro.
— Só pode ser a casa do tai-pan. — Meditativo, acendeu um cigarro, e deixou o fósforo descer em espiral até as águas negras. Depois, tagarelando abertamente, como qualquer turista, tirou uma foto da casa e terminou com naturalidade o rolo do filme, tirando mais diversas fotos dos dois chineses. Recarregou a máquina fotográfica, e, sem ser observado, passou para o parceiro o outro rolo de filme. Mal movendo os lábios, falou:
— Mande chamar Rosemont lá, tão logo atraquemos... diga-lhe que temos problemas... depois vá mandar revelar isso ainda hoje. Ligo para você quando esses dois estiverem na cama.
— Está louco? — exclamou Povitz. — Não vai atrás deles sozinho.
— É preciso, Marty, o filme pode ser importante. Não vamos arriscar.
— Não.
— Porra, Marty, eu sou o tai-pan desta operação.
— As ordens dizem que dois...
— Fodam-se as ordens! — sibilou Connochie. — Basta ligar para Rosemont, e não deixe pintar sujeira com o filme.
— A seguir, ergueu a voz e comentou, animado: — Bela noite para um passeio de barco, não?
— É, sim.
Ele fez um sinal de cabeça para a luz que rebrilhava no alto do Pico, depois focalizou-a através do seu visor superpotente com lentes telescópicas.
— Quem mora lá em cima está mesmo numa boa, hem?
Dunross e Bartlett se fitavam na Galeria Longa no topo da escadaria. Sozinhos.
— Já fechou o negócio com Gornt? — indagou Dunross.
— Não — replicou Bartlett. — Ainda não.
Era vivaz e durão como Dunross, e seu traje a rigor lhe caía com igual elegância.
— Nem você nem Casey? — perguntou Dunross.
— Não.
— Mas estudou as possibilidades?
— Fazemos negócios para ganhar dinheiro, Ian... como você!
— É. Mas há uma questão de ética.
— Ética de Hong Kong?
— Posso perguntar-lhe há quanto tempo vem mantendo conversações com Gornt?
— Há uns seis meses. Vai concordar com a nossa proposta hoje?
Dunross tentou afastar o seu cansaço. Não tinha a menor vontade de falar com Bartlett ainda naquele dia, mas era necessário. Sentiu os olhos de todos os retratos pintados a observá-lo, da parede.
— Você falou terça-feira. Eu lhe direi na terça-feira.
— Bem, então até lá, se quiser negociar com Gornt, ou qualquer outro, estou no meu direito. Se você aceitar a nossa oferta agora, é negócio fechado. Disseram-me que é o melhor, a Casa Nobre, portanto prefiro negociar com você do que com ele... desde que consiga o maior valor pelo meu dólar, com todas as garantias necessárias. Eu tenho o ativo disponível, você não. Você tem a Ásia na palma da mão, eu não. Assim, deveríamos fazer negócio.
"É", disse Bartlett consigo mesmo, disfarçando seus pressentimentos, embora radiante de que sua entrevista com Gornt no dia seguinte houvesse produzido o confronto tão depressa, e encurralado o seu oponente... "No momento, Ian, você não passa disso, um oponente. Até fecharmos negócios, se fecharmos."
Chegara a hora da Blitzkrieg?
Estivera estudando Dunross a noite toda, fascinado por ele, pelas correntes ocultas, por tudo o que dizia respeito a Hong Kong, tão totalmente estranho a tudo o que jamais conhecera. Nova selva, novas regras, novos perigos. "Claro", pensou sombriamente, "com Dunross e com Gornt, tão perigosos quanto um pântano cheio de cascavéis, e sem um padrão para julgá-los, tenho que ser cauteloso como nunca."
Sentiu fortemente a tensão, cônscio dos olhos que o fitavam das paredes. "Até onde ouso forçá-lo, Ian? Até onde devo arriscar? O lucro em potencial é imenso, o prêmio é imenso, mas um só erro e você nos engolirá, a mim e a Casey. Você é o tipo de homem que aprecio, mas mesmo assim um oponente, e governado por fantasmas. Ah, sim, acho que Peter Marlowe estava certo sobre isso, embora não sobre tudo.
"Deus! Fantasmas e a extensão do ódio deles! Dunross, Gornt, Penelope, o jovem Struan, Adryon... Adryon, tão corajosa após o susto inicial!"
Voltou a fitar os frios olhos azuis que o observavam. "O que eu faria agora, Ian, se fosse você, com essa sua ascendência tão maluca, parado aí, aparentemente tão confiante?
"Não sei. Mas eu me conheço, e sei o que Sun Tse falou sobre os campos de batalha: só leve o seu oponente à luta na hora e local de sua própria escolha. Bem, já escolhi: é aqui e agora."
— Diga-me, Ian, antes de decidirmos, como vai pagar as suas três notas promissórias de setembro para as Indústrias de Navegação Toda?
Dunross ficou chocado.
— Como disse?
— Você ainda não tem um fretador, e seu banco não lhe pagará sem que o tenha, portanto depende de você, não é?
— O banco... não há problema.
— Mas ao que eu saiba você já passou vinte por cento dos limites da sua linha de crédito. Isso não significa que terá que arranjar uma nova linha de crédito?
— Terei uma, se precisar — disse Dunross, com um toque de irritação na voz, e Bartlett percebeu que ele fechara a guarda.
— Doze milhões para a Toda é um bocado de dinheiro, quando a gente o soma às outras dívidas.
— Que outras dívidas?
— A prestação de seis milhões e oitocentos mil dólares americanos, que vence a 8 de setembro, do seu empréstimo do Orlin Internacional Banking, de trinta milhões a descoberto. Você tem quatro milhões e duzentos mil em perdas do grupo consolidado este ano, até agora, contra um lucro escriturai aumentado de sete milhões e meio no ano passado; e doze milhões de perda do Eastern Cloud e todas aquelas máquinas de contrabando.
O rosto de Dunross estava sem cor.
— Você parece estar especialmente bem informado.
— E estou. Sun Tse disse que é preciso estar bem informado sobre os seus aliados.
A pequena veia na testa de Dunross pulsava.
— Quer dizer inimigos.
— Os aliados às vezes se tornam inimigos, Ian.
— É. Sun Tse também se referiu muito a espiões. Seu espião pode ser apenas um dentre sete homens.
Bartlett replicou, com igual aspereza.
— Por que deveria ter um espião? Esta informação pode ser obtida dos bancos... só é preciso cavoucar um pouco. O banco da Toda é o Yokohama National do Japão, que está metido em muitas transações junto com o Orlin... assim como nós, nos Estados Unidos.
— Seja lá quem for o seu espião, está errado. O Orlin aumentará o prazo. Sempre o fez.