— Não aposte nisso, dessa vez. Conheço aqueles sacanas, e, se farejarem um sucesso financeiro grande e rápido, terão a sua cabeça numa bandeja antes que você saiba o que aconteceu.
— Fazer uma coisa dessas com a Struan? — riu Dunross, sardonicamente. — Não há jeito de o Orlin, ou qualquer outro banco amaldiçoado, poder (ou querer) nos destruir.
— Talvez Gornt esteja em conluio com eles.
— Santo Deus... — Dunross controlou-se com esforço. — Está ou não está?
— Pergunte a ele.
— Perguntarei. Nesse meio tempo, se sabe de alguma coisa, conte-me agora!
— Você tem inimigos por toda parte.
— Você também.
— É. Isso nos torna sócios bons ou maus?
Bartlett fitava Dunross. Depois, seu olhar deparou com um retrato no final da galeria. Ian Dunross fitava-o do alto da parede, parte de um veleiro de três mastros pintado ao fundo. Que maravilhosa semelhança!
— Aquele é... pombas, tem que ser Dirk, Dirk Struan! Dunross virou-se para olhar para o quadro.
— É.
Bartlett foi até o quadro e examinou-o. Agora que olhava mais de perto, podia ver que o comandante não era Dunross, mas, mesmo assim, havia uma semelhança curiosa.
— Jacques estava certo — falou.
— Não.
— Ele está certo. — Virou-se e estudou Dunross como se o homem fosse um quadro, comparando um com o outro. Finalmente, falou: — São os olhos e a linha do maxilar. E o ar de desafio nos olhos, que diz: "Pode apostar que sou capaz de encher você de porrada na hora em que me der na telha".
Ian sorriu para ele.
— Está dizendo isso agora?
— Está.
— Não há problemas com linhas de crédito, novas ou antigas.
— Acho que há.
— O Victoria é o nosso banco... somos grandes acionistas.
— Grandes, como?
— Temos fontes alternativas de crédito, se houver necessidade. Mas teremos tudo o que quisermos do Vic. Eles também têm ativo disponível.
— Não é o que acha o seu Richard Kwang. Dunross afastou os olhos da tela, vivamente.
— Por quê?
— Ele não disse, Ian. Não disse nada, mas Casey conhece banqueiros e leu nas entrelinhas, e é isso o que ela acha que ele acha. Penso que ela também não foi muito na conversa do Havergill.
Depois de uma pausa, Dunross perguntou:
— O que mais ela acha?
— Que talvez devamos nos unir ao Gornt.
— À vontade.
— Pode ser. E quanto a Taipé? — perguntou Bartlett, tentando manter Dunross desconcertado.
— O que é que tem?
— O convite ainda está de pé?
— Está, é claro. Isso me lembra que você está entregue à minha custódia por gentil permissão do comissário assistente da polícia. Armstrong será informado disso amanhã. Você terá que assinar um pedaço de papel em que garante que voltará quando eu voltar.
— Obrigado por ter arranjado tudo. Casey não será mesmo convidada?
— Pensei que tínhamos deixado isso acertado hoje de manhã.
— Estava só perguntando. E quanto ao meu avião? Dunross franziu a testa, desconcertado.
— Suponho que ainda esteja retido. Queria usá-lo para a viagem a Taipé?
— Seria conveniente, não acha? Assim poderíamos partir ao nosso bel-prazer.
— Vou ver o que posso fazer. — Dunross observava-o. — E sua oferta vale até terça-feira?
— Vale, como Casey falou. Até o fim do expediente comercial de terça-feira.
— Até a meia-noite de terça-feira — retrucou Dunross.
— Você sempre barganha, independentemente de que diabo a outra pessoa diga?
— E você, não?
— Está certo, meia-noite de terça-feira. A um minuto da quarta, todas as dívidas e amizades ficam canceladas. — Bartlett precisava manter a pressão sobre Dunross, precisava da contraproposta agora, e não terça-feira, para poder usá-la com, ou contra, Gornt. — O sujeito do Blacs, o presidente da junta, como se chama?
— Compton Southerby.
— É, Southerby. Estava conversando com ele, depois do jantar. Disse que apoiavam Gornt integralmente. Insinuou também que Gornt tem um bocado de eurodólares à sua disposição, quando precisar. — Novamente, Bartlett viu uma informação atingir em cheio o alvo. — Portanto, ainda não sei como você vai pagar às Indústrias de Navegação Toda — concluiu.
Dunross não respondeu de pronto. Ainda estava tentando descobrir uma saída do labirinto. Todas as vezes, voltava ao começo: o espião tinha que ser Gavallan, De Ville, Linbar Struan, Phillip Chen, Alastair Struan, David MacStruan, ou seu pai, Colin Dunross. Algumas das informações de Bartlett seriam do conhecimento dos bancos... mas não as perdas da companhia naquele ano. A quantia fora precisa demais. Aquilo é o que o chocara. E o "...lucros escriturais aumentados".
Olhava para o americano, imaginando que outras informações confidenciais teria, sentindo a armadilha fechar-se sobre ele, sem espaço para manobrar, e no entanto sabendo que não poderia conceder demais, ou perderia tudo.
O que fazer?
Lançou um olhar a Dirk Struan, no alto da parede, e viu o meio sorriso retorcido e o olhar que lhe dizia: "Arrisque, rapaz, cadê os seus colhões?"
Pois bem.
— Não se preocupe com a Struan. Se decidir unir-se a nós, quero um contrato de dois anos... vinte milhões no ano que vem, também — falou, arriscando tudo. — Quero sete na assinatura do contrato.
Bartlett não demonstrou no rosto a alegria que sentia.
— Concordo com o contrato de dois anos. Quanto ao fluxo de caixa, Casey ofereceu dois milhões no ato e depois um e meio por mês no dia 1." de cada mês. Gavallan disse que era aceitável.
— Não é. Quero sete à vista, o resto dividido mensalmente.
— Se eu concordar com isso, quero o título dos seus novos navios da Toda como garantia, este ano.
— Mas para que diabo quer garantias? — falou Dunross, bruscamente. — O objetivo do negócio todo é sermos sócios, sócios numa imensa expansão pela Ásia.
— É. Mas os nossos sete milhões à vista cobrem os seus pagamentos de setembro para a Toda, livram-no do arrocho do Orlin. E não recebemos nada em troca?
— Por que lhe devo dar qualquer concessão? Posso descontar o seu contrato imediatamente, e receber um adiantamento de dezoito dos vinte milhões que você fornece, sem problema algum.
"É, pode sim", pensou Bartlett, "assim que o contrato esteja assinado. Mas, antes disso, não tem nada."
— Concordo em alterar o pagamento inicial, Ian. Mas em troca do quê?
Casualmente, olhou para o retrato à sua frente, mas sem vê-lo, pois todos os seus sentidos se concentravam em Dunross, sabendo que estavam chegando ao ponto que interessava. O título dos imensos cargueiros da Toda cobririam todos os riscos da Par-Con, fosse lá o que Dunross fizesse.
— Não se esqueça — acrescentou —, os seus vinte e um por cento das ações do Victoria já estão empenhados, entregues como garantia da sua dívida para com eles. Se você falhar no pagamento à Toda ou ao Orlin, seu velho amigo Havergill puxará o tapete de sob os seus pés. Eu puxaria.
Dunross sabia que estava derrotado. Se Bartlett sabia a quantidade exata de seus valores bancários secretos, dos valores secretos de Chen, junto com seus valores mobiliários conhecidos, era impossível prever que outro poder o americano teria sobre ele.
— Está bem — falou. — Dou-lhe o título dos meus navios por três meses, desde que, primeiro: você prometa que isso ficará apenas entre nós dois; segundo, que nossos contratos sejam assinados dentro de sete dias, a partir de hoje; terceiro, que concorde com o fluxo de caixa que sugeri; e último: que garantirá não deixar escapar uma só palavra do que foi dito entre nós até que eu anuncie a decisão.
— E quando fará isso?
— Entre a sexta e a segunda-feira.
— Eu gostaria de saber antecipadamente — falou Bartlett.
— Claro, vinte e quatro horas.