— Quero o título dos navios por seis meses, os contratos dentro de dez dias.
— Não.
— Então, nada feito — falou Bartlett.
— Pois bem — retrucou Dunross, imediatamente. — Então, voltemos à festa.
Virou-se prontamente e dirigiu-se com serenidade para as escadas.
Bartlett ficou espantado com o término abrupto das negociações.
— Espere — falou, o coração batendo fora do compasso. Dunross parou na balaustrada e fitou-o, uma das mãos pousada com naturalidade no corrimão.
Sombriamente, Bartlett tentou sondar Dunross, com o estômago dando voltas. Leu a decisão definitiva nos olhos do outro.
— Está certo, o título até 1.º de janeiro, são quatro meses e tanto, segredo entre mim, você e Casey, contratos terça-feira que vem (isso me dá tempo de trazer meus especialistas em impostos para cá), o fluxo de caixa como você quer, sujeito a... quando vai ser a nossa reunião de amanhã?
— Estava marcada para as dez. Pode ser às onze horas?
— Claro. Então, negócio fechado, sujeito a confirmação amanhã às onze horas.
— Não. Você não precisa de mais tempo. Eu posso precisar, mas você, não. — Outra vez, o sorriso seco. — Sim ou não?
Bartlett hesitou, todos os seus instintos dizendo "Feche agora, estenda a mão e feche, você tem tudo o que queria. É... mas e quanto a Casey?"
— Este negócio é de Casey. Ela pode negociar até vinte milhões. Incomoda-se de fechar apertando a mão dela?
— Um tai-pan só fecha com outro tai-pan, é um velho costume chinês. Ela é tai-pan da Par-Con?
— Não — disse Bartlett, serenamente. — Eu sou.
— Ótimo. — Dunross voltou e estendeu a mão, incitando-o, jogando com ele, lendo-lhe o pensamento. — Negócio fechado?
Bartlett olhou para a mão, depois para os frios olhos azuis, o coração batendo com força.
— Negócio fechado... mas quero que ela o feche com você.
Dunross deixou cair a mão.
— Repito, quem é o tai-pan da Par-Con? Bartlett devolveu-lhe o olhar, serenamente.
— Promessa é promessa, Ian. É importante para ela, e prometi-lhe que, até vinte milhões, a bola era dela.
Viu que Dunross começava a se afastar. Por isso, falou, com firmeza:
— Ian, se eu tiver que escolher entre o negócio e Casey, minha promessa a Casey, não há competição. Nenhuma. Consideraria um fa...
Interrompeu-se. Os dois moveram violentamente a cabeça ao ouvirem um barulho leve e involuntário de um espreitador oculto nas sombras do final da galeria, onde havia um grupo de sofás e poltronas de espaldar alto. Instantaneamente, Dunross girou nos calcanhares e, com a agilidade de um gato, lançou-se ao ataque, silenciosamente. As reações de Bartlett foram quase tão rápidas. Também partiu para ajudar.
Dunross parou junto ao sofá de veludo verde. Soltou um suspiro. Não era nenhum espreitador, era sua filha de treze anos, Glenna, ferrada no sono, toda enroscada, só braços e pernas, como uma potrinha, angelical no vestido de festa amassado, o fino colar de pérolas da mãe no pescoço.
O coração de Bartlett começou a bater mais devagar, ele murmurou:
— Deus, por um momento... Ei, mas ela é uma gracinha!
— Você tem filhos?
— Um menino e duas meninas. Brett tem dezesseis anos, Jenny, catorze, e Mary, treze. Infelizmente, não os vejo com muita freqüência. — Bartlett, recobrando o fôlego, continuou em voz baixa: — Moram agora na costa leste. Parece que não sou muito popular. A mãe deles... bem, nós nos divorciamos faz sete anos. Ela se casou de novo, mas... — Bartlett deu de ombros, depois olhou para a garota. — É uma bonequinha. Você tem sorte!
Dunross inclinou-se e levantou com cuidado a filha. Ela mal se moveu, apenas aninhou-se mais junto dele, satisfeita. Ele olhou pensativo para o americano. A seguir disse:
— Traga Casey para cá em dez minutos. Farei o que me pede, embora desaprove completamente, porque você deseja cumprir sua promessa.
Afastou-se, com passos firmes, e desapareceu na ala leste, onde ficava o quarto de Glenna.
Após uma pausa, Bartlett olhou para o retrato de Dirk Struan. O sorriso debochava dele.
— Vá se foder — resmungou, sentindo que Dunross lhe havia passado a perna, de alguma maneira. Depois, abriu um sorriso. — Que diabo, porra! O seu rapaz está se saindo bem, Dirk, meu velho!
Caminhou para as escadas. Foi então que notou um quadro sem iluminação, numa alcova semi-escondida. Parou. A tela representava um velho comandante de navio, de barba grisalha, com um olho só, nariz de gancho, ar arrogante, cicatrizes no rosto, uma espada de abordagem na mesa ao seu lado.
Bartlett soltou uma exclamação abafada ao ver que a tela fora cortada, numa direção e na outra, e que havia uma faca curta enfiada no coração do homem, prendendo o quadro à parede.
Casey fitava a faca. Tentou disfarçar o seu choque. Estava sozinha na galeria, esperando, irrequieta. O som de música para dançar chegava aos seus ouvidos, vindo lá de baixo... música rhythm-and-blues. Um vento breve repuxou as cortinas e moveu uma mecha de seus cabelos. Um mosquito zumbia.
— Este é Tyler Brock.
Casey deu meia-volta, assustada. Dunross a observava.
— Ah, não o escutei voltar — disse ela.
— Desculpe. Não quis assustá-la.
— Tudo bem.
Ela voltou a olhar para a tela.
— Peter Marlowe estava nos falando dele.
— Ele sabe muita coisa sobre Hong Kong, mas não tudo, e nem todas as informações que tem são precisas. Algumas são até bem erradas.
Após um momento, ela comentou:
— É... é um pouco melodramático, não é, deixar a faca aí, desse jeito?
— Foi a Bruxa Struan quem a pôs aí. Deu ordens para que não fosse retirada.
— Por quê?
— Dava-lhe prazer. Ela era tai-pan.
— Falando sério, por quê?
— Eu falava a sério. — Dunross deu de ombros. — Ela odiava o pai e queria que todos nos lembrássemos da nossa herança familiar.
Casey franziu o cenho, depois indicou uma tela na parede oposta.
— É ela?
— É. Foi pintada logo depois de seu casamento.
A moça do quadro era esbelta, teria uns dezessete anos, olhos azuis bem claros, cabelos louros. Usava um vestido de baile decotado — cintura fina, colo cheio —, um colar verde trabalhado enfeitando-lhe o pescoço.
Ficaram ali parados, fitando o quadro por um momento. Não havia nome na pequena placa de bronze ao pé da moldura dourada trabalhada, apenas os anos: 1825-1917. Casey falou:
— É um rosto comum, bonitinho mas comum, exceto pelos lábios. São finos, apertados, desaprovadores... e duros. O artista captou bem a força deles. É um Quance?
— Não. Nem sabemos quem o pintou. Dizem que era o seu retrato favorito. Há um Quance dela na cobertura da Struan, pintado mais ou menos na mesma época. É bem diferente, no entanto muito parecido.
— Pintaram algum retrato dela, quando mais velha?
— Três. Destruiu todos eles, no momento em que ficaram prontos.
— Existe alguma fotografia dela?
— Não que eu saiba. Odiava máquinas fotográficas... não admitia nenhuma dentro de casa. — Dunross riu, e ela notou como ele estava cansado. — Certa vez um repórter do China Guardian tirou uma foto dela, pouco antes da Grande Guerra. Dentro de uma hora ela havia mandado uma tripulação armada de um dos nossos navios mercantes para os escritórios do jornal, com ordens de tocar fogo no local se não lhe entregassem o negativo e todas as cópias, e se o editor não prometesse "desistir de atormentá-la". Ele prometeu.
— Mas não é possível agir assim impunemente!
— Realmente, não é... a não ser que se seja tai-pan da Casa Nobre. Além disso, todo mundo sabia que a Bruxa Struan não queria que tirassem seu retrato, e aquele filhozinho da mãe atrevido infringira a regra. Ela era como os chineses. Acreditava que, cada vez que alguém tira o seu retrato, você perde parte da sua alma.
Casey fitou o colar. Perguntou: