— É de jade?
— De esmeraldas.
Ela soltou uma exclamação abafada.
— Devia valer uma fortuna.
— Dirk Struan legou-lhe o colar... jamais poderia sair da Ásia... teria que pertencer à mulher de cada tai-pan da Casa Nobre, uma herança que passaria de senhora a senhora. — Deu um estranho sorriso. — A Bruxa Struan guardou o colar a vida inteira, e, quando morreu, deu ordem para que fosse queimado com ela.
— Meu Deus! E foi?
— Foi.
— Que desperdício!
Dunross voltou a olhar para o quadro.
— Não — falou, a voz diferente. — Ela manteve a Struan como Casa Nobre da Ásia durante quase setenta e cinco anos. Era a tai-pan, a verdadeira tai-pan, embora outros tivessem o título. A Bruxa Struan derrotou inimigos e catástrofes, manteve-se fiel ao legado de Dirk e arrasou os Brocks, fez o que era necessário. Portanto, o que significa um enfeite bonito que provavelmente nada custou, para começo de conversa? Foi provavelmente surrupiado do tesouro de algum mandarim, que o roubou de outra pessoa, cujos camponeses pagaram por ele com o seu suor.
Casey ficou observando enquanto ele fitava o rosto, quase alçado a outra dimensão.
— Só espero me sair igualmente bem — murmurou, distraidamente, e parecia a Casey que ele estava falando com ela, com a moça do quadro.
Os olhos dela foram para além de Dunross, para o quadro de Dirk Struan, e ela notou outra vez a maravilhosa semelhança. Havia uma forte parecença de família em todos os dez grandes retratos pintados (nove homens e a moça) pendurados nas paredes, em meio a paisagens de todos os tamanhos de Hong Kong, Xangai e Tien-tsin e muitas marinhas dos elegantes veleiros da Struan, e alguns dos seus navios mercantes. Ao pé do retrato de cada tai-pan havia uma pequena placa de bronze com o seu nome e os anos da sua vida: "Dirk Dunross, 4.° tai-pan, 1852-1894, perdido no oceano Índico com todos os seus marujos, no Sunset Cloud"... "Sir Lochlin Struan, 3.° tai-pan, 1841-1915"... "Alastair Struan, 9.° tai-pan, 1900-..." "Dirk Struan, 1798-1841"... "Ross Lechie Struan, 7.° tai-pan, 1887-1915, capitão do Regimento Real Escocês, morto em ação em Ypres"...
— Quanta história — falou ela, achando que era hora de desviá-lo de seus pensamentos.
— É. É mesmo — replicou, olhando agora para ela.
— Você é o décimo tai-pan?
— Sou.
— Já mandou pintar o seu retrato?
— Não.
— Vai ter que mandar, não é?
— É, vou, quando chegar a hora. Não há pressa.
— Como a pessoa se torna tai-pan, Ian?
— É preciso ser escolhido pelo anterior. É decisão dele.
— Já escolheu quem o sucederá?
— Não — retrucou ele, mas Casey achava que sim. "E por que deveria contar-me?", perguntou-se. "E por que você está lhe fazendo tantas perguntas?"
Desviou o olhar dele. Um quadro pequeno chamou sua atenção.
— Quem é esse? — perguntou, inquieta. O homem era deformado, um anão corcunda, os olhos curiosos e o sorriso sardônico. — Também foi tai-pan?
— Não. Esse é Stride Orlov, era o comandante-em-chefe de Dirk. Depois que o tai-pan foi morto no grande tufão, e Culum assumiu seu lugar, Stride Orlov tornou-se o mestre da nossa frota de veleiros. Conta a lenta que era um marujo e tanto.
Depois de uma pausa, ela disse:
— Desculpe, mas há alguma coisa nele que me dá arrepios. — Havia pistolas na cinta de Orlov e um veleiro ao fundo. — É um rosto assustador.
— Ele produzia esse efeito em todos... exceto no tai-pan e na Bruxa Struan. Dizem que até mesmo Culum o odiava.
Dunross virou-se e estudou-a. Ela sentiu o seu olhar perscrutador, que fez com que se sentisse excitada e perturbada, a um só tempo.
— Por que ela gostava dele? — indagou.
— Diz a história que logo após o grande tufão, quando todo mundo em Hong Kong ainda estava juntando os pedaços, inclusive Culum, o Demônio Tyler começou a tomar conta da Casa Nobre. Deu ordens, assumiu o controle, tratou Culum e Tess como se fossem crianças... mandou Tess para o seu navio, o White Witch, e ordenou a Culum que estivesse a bordo antes do pôr-do-sol, senão ia se ver com ele. No que dizia respeito a Tyler, a Casa Nobre agora era a Brock-Struan, e ele era o tai-pan! De um jeito ou de outro, ninguém sabe por quê ou como, Culum teve coragem... meu Deus, Culum tinha apenas vinte anos, na época, e Tess mal completara dezesseis... mas Culum ordenou a Orlov que subisse a bordo do White Witch e trouxesse sua mulher para terra. Orlov foi sozinho, imediatamente... Tyler ainda estava em terra, na ocasião. Orlov trouxe-a de volta, deixando atrás de si um homem morto e mais meia dúzia com cabeças ou membros quebrados. — Dunross olhava-a, e ela reconheceu o mesmo sorriso semizombeteiro, semiviolento, semidiabólico que havia no rosto d'o taipan, o do retrato. — Desde então, para todo o sempre, Tess (a futura Bruxa Struan) o adorou, é o que dizem. Orlov serviu bem à nossa frota, até que desapareceu. Era um bom homem, e um grande marujo, a despeito de toda a sua feiúra.
— Desapareceu? Perdeu-se no mar?
— Não. A Bruxa Struan contou que ele desembarcou certo dia em Cingapura, e jamais voltou. Estava sempre ameaçando partir e voltar para sua terra, a Noruega. Assim, pode ser que tenha ido para casa. Talvez tenha sido esfaqueado. Quem sabe? A Ásia é um lugar violento, embora a Bruxa Struan tenha jurado que homem algum poderia matar Stride Orlov, e que deve ter sido uma mulher. Talvez Tyler o tenha pegado de emboscada. Quem sabe?
Inexoravelmente, os olhos dela se voltaram para Tyler Brock. Ela estava fascinada com o rosto e as implicações da faca.
— Por que ela fez isso com a imagem do pai?
— Algum dia eu lhe contarei, mas hoje só vou dizer que ela martelou a faca na parede com o bastão de críquete de meu avô, e amaldiçoou ante Deus e o Diabo a quem tirasse a faca dela da parede dela. — Sorriu para Casey, e novamente ela notou o seu extremo cansaço, e ficou satisfeita, porque ela mesma estava ficando exausta, e não queria cometer nenhum erro, agora. Ele estendeu a mão. — Temos que fechar um negócio.
— Não — falou Casey, calmamente, feliz por poder começar. — Desculpe, estou fora dessa.
O sorriso dele se evaporou.
— Como?
— É, Linc me falou das alterações que você quer. É um negócio de dois anos... isso faz subir o nosso pagamento, portanto não posso aprová-lo.
— É?
— Pois é. — Ela continuou no mesmo tom de voz monótono mas agradável. — Desculpe, meu limite é vinte milhões, portanto vai ter que fechar com o Linc. Ele está esperando no bar.
A compreensão estampou-se no rosto dele por um instante (junto com alívio, achou ela), mas logo ficou sereno de novo.
— Está, é? — falou, suavemente, observando-a.
— Está.
Casey sentiu uma onda de calor percorrê-la, suas faces começaram a arder e ela ficou imaginando se estaria vermelha.
— Então, não podemos fechar, você e eu. Tem que ser Linc Bartlett?
Ela manteve o olhar firme, com esforço.
— Um tai-pan deve tratar com um tai-pan.
— É uma regra básica, mesmo na América? A voz dele era suave e meiga.
— É.
— Isso foi idéia sua ou dele?
— Isso importa?
— Muitíssimo.
"Se eu disser que foi do Linc, ele fica desmoralizado, e se eu disser que foi minha, também fica, embora de forma diferente."
Dunross sacudiu de leve a cabeça e sorriu. O calor do seu sorriso aumentou a íntima excitação de Casey. Embora estivesse muito controlada, sentiu-se reagir à sua masculínidade intacta.
— Todos nós estamos presos a esse tipo de convenção, de uma forma ou de outra, não é? — comentou ele.
Ela não respondeu. Olhou para o outro lado para dar-se um tempo. Seus olhos detiveram-se no retrato da moça. Como era possível uma moça tão bonita ficar conhecida como a Bruxa, pensou. Devia ser horrível envelhecer no rosto e no corpo, quando ainda se é jovem de coração, e forte e decidida... era tão injusto para a mulher. "Será que, algum dia, também ficarei sendo conhecida como a Bruxa Tcholok? Ou como 'aquele chinelo velho Tcholok', se ainda estiver sozinha, solteira, no mundo dos negócios, no mundo dos homens, ainda lutando pelas mesmas coisas por que eles lutam — identidade, poder e dinheiro —, e odiada por ser igual ou melhor do que eles no meu trabalho? Pouco me importa, contanto que ganhemos, Linc e eu. Portanto, desempenhe o papel que escolheu para esta noite", disse consigo mesma, "e agradeça à senhora francesa o conselho que lhe deu."