"Lembre-se, menina", o pai lhe repetira inúmeras vezes, "lembre-se de que os conselhos, os bons conselhos, surgem em locais inesperados, em horas inesperadas."
"É", pensou Casey, feliz "se não fosse pelo lembrete de Susanne de como uma mulher deve operar neste mundo masculino, Ian, talvez eu não lhe tivesse oferecido essa fórmula para ficar por cima. Mas não se engane, Ian Struan Dunross. Este negócio é meu, e nele eu sou tai-pan da Par-Con."
Casey sentiu uma sensação gostosa e diferente percorrer-lhe o corpo. Nunca anteriormente definira sua posição real na Par-Con para si mesma. "É", pensou, muito satisfeita, "é isso o que sou."
Olhou para a moça do retrato com ar crítico, e notou, agora, o quanto estivera errada antes, e como a jovem era especialíssima. Não era a tai-pan em embrião, já naquela época?
— Você é muito generosa — disse Dunross, interrompendo os pensamentos dela.
— Não — replicou imediatamente, preparada, e voltou a olhar para ele, pensando: "Se quer a verdade, tai-pan, não sou nada generosa. Estou simplesmente sendo modesta, doce e meiga porque isso o faz se sentir mais à vontade". Mas não foi isso o que disse. Apenas baixou o olhar e murmurou com a dose certa de suavidade: — Você é que é generoso.
Ele tomou sua mão, curvou-se sobre ela e beijou-a com galanteria à moda antiga.
Ela ficou espantada, e tentou disfarçar. Nunca ninguém fizera aquilo com ela antes. Emocionou-se, apesar de tudo.
— Ah, Ciranoush — disse ele, com falsa gravidade —, sempre que precisar de um campeão, mande me chamar. — Abriu um sorriso repentino. — Provavelmente meterei os pés pelas mãos, mas tudo bem.
Ela achou graça, toda a tensão evaporada, agora, simpatizando demais com ele.
— Negócio fechado.
Com naturalidade, ele a enlaçou pela cintura e conduziu-a suavemente para as escadas. O contato dele era agradável... agradável demais. "Esse aí não é nenhum garoto", pensou. "Tenha cuidado."
17
23h58m
O Rolls de Phillip Chen freou ruidosamente diante de sua casa. Ele saltou do banco traseiro, o rosto rubro de raiva, Dianne caminhando nervosa, atrás dele. A noite estava escura, as luzes da cidade, dos navios e dos prédios altos brilhavam forte bem lá embaixo.
— Tranque os portões, depois entre você também — falou com brusquidão para o chofer, igualmente nervoso. Depois dirigiu-se apressado para a porta da frente.
— Ande logo, Dianne — falou, irritado, enfiando a chave na fechadura.
— Phillip, mas que diabo está lhe acontecendo? Por que não pode me contar? Por que...
— Cale a boca! — berrou, perdendo a paciência, e ela parou de chofre, chocada. — Cale a boca e faça o que estou mandando! — Escancarou violentamente a porta da frente. — Chame aqui as criadas!
— Mas, Phil...
— Ah Sun! Ah Tak!
As duas amahs sonolentas e despenteadas vieram às pressas da cozinha e fitaram-no boquiabertas, chocadas com aquela raiva fora do comum.
— Sim, Pai? Sim, Mãe? — perguntaram em coro, em cantonense. — Mas o que aconteceu, em nome dos deu...
— Bico fechado! — rugiu Phillip Chen, o pescoço vermelho e agora o rosto mais vermelho. — Entrem nessa sala e fiquem aí até que eu mande todos saírem! — Escancarou a porta. Era a sala de jantar deles, e as janelas davam para a estrada norte. — Fiquem todos aqui até eu mandar que saiam, e se algum de vocês se mexer ou olhar pela janela, antes que eu volte... mandarei alguns amigos meus amarrar pesos nos seus corpos e jogá-los na baía!
As duas amahs começaram a choramingar, mas todos obedeceram rapidamente, e ele bateu a porta com força.
— Parem já com isso, as duas! — gritou Dianne Chen para as amahs. Depois estendeu a mão e beliscou com força a bochecha de uma delas. A velha parou de choramingar, e falou, ofegante, revirando os olhos:
— O que deu em todo mundo? O que deu no Pai? Oh, oh, oh, a fúria dele se ouve em Java... oh, oh, oh...
— Cale-se, Ah Tak!
Dianne se abanou, fumegando, desnorteada de raiva. "Em nome de todos os deuses, o que deu nele? Não confia em mim... sua única mulher verdadeira e o amor da sua vida? Em toda a minha vida... E sair correndo daquele jeito da festa do tai-pan quando tudo ia indo tão bem... todo mundo em Hong Kong falando de nós, todos admirando o meu querido Kevin, bajulando-o, certos de que agora é o novo herdeiro da Casa de Chen, pois todos concordaram em que John Chen certamente morreu de choque quando lhe cortaram fora a orelha. Qualquer um morreria! Eu, na certa, morreria."
Estremeceu, sentindo de novo a sua orelha sendo cortada e vendo-se raptada, como no sonho daquela tarde, quando acordara da sesta suando frio.
— Ayeeyah — murmurou, para ninguém em especial. — Ele enlouqueceu?
— É, Mãe — disse o chofer, Confiantemente —, acho que sim. É o resultado do seqüestro. Nunca vi o Pai assim, em todos os meu an...
— Quem lhe perguntou alguma coisa? — gritou Dianne. — E depois, é tudo culpa sua! Se tivesse trazido o meu pobre John para casa em vez de deixá-lo com suas meretrizes nojentas, isso nunca teria acontecido!
As duas amahs recomeçaram a choramingar, por causa da fúria dela, e Dianne descarregou nelas o seu mau humor, por um momento, acrescentando:
— E quanto a vocês duas, já que estamos nesse assunto, a qualidade do serviço nesta casa está de dar desarranjo em qualquer um. Alguém me perguntou se preciso de um calmante, ou de aspirinas? Ou de chá? Ou de uma compressa fria?
— Mãe — disse uma delas, apaziguadoramente, apontando esperançosa para o aparador laqueado —, não posso fazer chá, mas gostaria de um pouco de conhaque?
— Wat? Ah, ótimo. Sim, sim, Ah Tak. Prontamente a velha se dirigiu ao aparador, apanhou uma garrafa do conhaque que sabia que a patroa apreciava e serviu-o num copo.
— Pobre Mãe, ver o Pai tão furioso! Terrível! O que deu nele, e por que não quer que a gente olhe pela janela?
"Porque não quer que vocês, seus ladrões de bosta, o vejam desenterrar seu cofre secreto no jardim", pensava Dianne. "Não quer nem que eu veja." Sorriu sombriamente consigo mesma, bebericando o conhaque suave e gostoso, acalmada pelo conhecimento do lugar onde a caixa de ferro estava enterrada. Estava no seu direito ao protegê-lo, observando secretamente quando ele a enterrara, para o caso de, Deus nos livre, os deuses o levarem deste mundo antes que lhe pudesse revelar o esconderijo. Fora seu dever quebrar a promessa de não ir espiá-lo, naquela noite, durante a ocupação japonesa, quando ele sabiamente arrebanhara todos os seus objetos de valor e os escondera.
Ela não sabia o que havia realmente na caixa. Nem se importava. Ela fora aberta e fechada muitas vezes, sempre em segredo, ou assim ele pensava. A mulher não se importava, contanto que soubesse onde estava o marido, onde estavam todas as suas diversas caixas de depósito bancário, e as suas chaves, por via das dúvidas.
"Afinal de contas", disse consigo mesma, confiante, "se ele morrer, a Casa de Chen desmoronará sem mim."
— Pare de choramingar, Ah Sun!
Levantou-se e cerrou as longas cortinas. Do lado de fora a noite estava escura, e ela não conseguia enxergar o jardim, apenas a entrada dos carros, os altos portões de ferro e a estrada que ficava além deles.
— Mais uma bebida, Mãe? — perguntou a velha amah.
— Obrigada, sua bajuladora — replicou, afetuosamente, o calor da bebida alcoólica afastando sua ira. — E depois pode massagear o meu pescoço. Estou com dor de cabeça. Vocês dois fiquem sentados, de boca fechada, não dêem um pio até o Pai voltar!