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— Compreendi. Mas por quê, Pai? Fiz alguma coisa errada? Desculpe se o ofendi.

— Não ofendeu. É um bom menino, e dá duro no trabalho. Só que é melhor para a família que tenha outro nome.

— Mas por quê, Pai?

— Quando chegar a hora, saberá. — Então, quando estava com doze anos, e treinado, e provara o seu valor, o pai o mandara para os Estados Unidos. — Agora vai aprender os costumes dos demônios estrangeiros. Deve começar a falar como se fosse um deles, dormir como se fosse um deles, tornar-se externamente um deles, mas nunca se esquecer de quem é, de quem é o seu povo, ou de que todos os demônios estrangeiros são inferiores, mal são seres humanos e não são civilizados porra nenhuma.

Paul Choy riu consigo mesmo. "Se os americanos soubessem — desde os tai-pans até a escória —, se os britânicos, iranianos, alemães, russos, gente de todas as raças e cores, se todos eles soubessem realmente o que até o mais ínfimo cule pensa deles, teriam um derrame", disse para si mesmo pela milionésima vez. "Não é que todos os povos da China desprezem os estrangeiros. É só que os estrangeiros estão abaixo de qualquer consideração. Claro que estamos errados", disse consigo mesmo. "Os estrangeiros são humanos, e alguns são civilizados (à moda deles), e muito à nossa frente, tecnicamente. Mas nós somos melhores..."

— Do que está sorrindo? — perguntou Gornt, abaixando a cabeça para não tocar nas cordas, desviando-se do lixo espalhado por todos os tombadilhos.

— Ah, estava só pensando como esta vida é maluca. No mês passado, nesta época, eu estava fazendo surfe em Malibu Colony, Califórnia. Pombas, Aberdeen é bem diferente, não é?

— Está se referindo ao cheiro?

— Claro.

— É mesmo.

— Não é muito melhor na maré alta. Parece que só eu sinto o fedor!

— Quando esteve aqui pela última vez?

— Faz uns dois anos... durante dez dias... depois que me formei em administração de empresas, mas não me acostumo com ele. — Choy riu. — Não tem nada a ver com a Nova Inglaterra!

— Onde estudou?

— Primeiro em Seattle. Depois, cursei a Universidade de Washington em Seattle. Depois, fiz mestrado em Harvard, na Escola de Administração de Harvard.

Gornt parou.

— Harvard?

— É isso aí, consegui uma bolsa, como assistente.

— Que beleza! Quando se formou?

— Em junho do ano passado. Foi como sair da prisão! Puxa, eles realmente fazem você cortar um dobrado, se não tira notas altas. Dois anos de inferno! Quando saí de lá, me mandei para a Califórnia com um amigo, fazendo biscates aqui e ali, ganhando o bastante para sustentar o nosso surfe, divertindo-nos um bocado para compensar o sufoco da escola. Então... — Choy abriu um sorriso — então há dois meses o Tio Wu me procurou e disse: "Chegou a hora de trabalhar", e cá estou eu! Afinal, foi ele quem pagou os meus estudos. Meus pais morreram há anos.

— Você foi o primeiro da turma em Harvard?

— Fui o terceiro.

— Que beleza!

— Obrigado. Não falta muito, agora. O nosso é o último junco.

Conseguiram atravessar uma prancha precária, enquanto Gornt era observado com desconfiança pelos habitantes dos barcos, em silêncio, quando passavam de casa flutuante para casa flutuante, as famílias cochilando, cozinhando, comendo, ou jogando mah-jong, alguns ainda consertando redes de pescar, algumas crianças fazendo pescaria noturna.

— Este pedaço é escorregadio, Sr. Gornt. — Saltou para o convés pegajoso. — Chegamos! Lar, doce lar! — Despenteou o cabelo do garotinho sonolento que fazia as vezes de vigia, e disse em haklo, que sabia que Gornt não compreendia: — Fique acordado, Irmãozinho, senão os demônios vêm nos pegar.

— Fico, sim — disse logo o menino, os olhos desconfiados fitos em Gornt.

Paul Choy desceu na frente. O velho junco cheirava a piche e teca, peixe podre, maresia e mil tormentas. Sob o convés, a prancha da meia-nau dava para a única grande cabine normal, para vante, que ocupava toda a extensão e a largura do navio, até a proa. Um fogo de carvão aberto queimava numa lareira de tijolos malcuidada, com uma chaleira suja de fuligem fervendo sobre ele. A fumaça se enroscava para o alto, e chegava ao exterior através de um conduto tosco aberto no convés. Umas velhas cadeiras de palhinha, mesas e camadas de beliches toscos ocupavam um dos lados da cabine.

Wu Quatro Dedos estava sozinho; indicou uma das cadeiras e abriu um amplo sorriso.

— Heya, prazer em ver — falou, num inglês incerto, quase incompreensível. — Uísque?

— Obrigado — replicou Gornt. — Prazer em vê-lo, também.

Paul Choy serviu o bom uísque em dois copos semilimpos.

— Quer água, Sr. Gornt? — perguntou.

— Não, puro está ótimo. Apenas um pouco, por favor.

— Certo.

Wu aceitou o copo e brindou a Gornt.

— Prazer ver você, heya?

— É. Saúde!

Observaram-no enquanto Gornt bebia o seu uísque.

— Bom — aprovou Gornt. — Muito bom uísque.

Wu sorriu amplamente de novo, e indicou Paul.

— Ele filho irmã.

— Sei.

— Boa escola... País Dourado.

— É. É, ele me contou. Você deve estar muito orgulhoso.

— Como?

Paul Choy traduziu para o velho.

— Ah, obrigado, obrigado. Ele fala bom, heya?

— É. — Gornt sorriu. — Muito bom.

— Ah, bom, tudo bem. Fuma?

— Obrigado. — Ficaram olhando-o enquanto Gornt aceitava um cigarro. Depois Wu apanhou um, e Paul Choy acendeu ambos. Novo silêncio.

— Tudo bom com velho amigo?

— Tudo. E com você?

— Bom. — Novo silêncio. — Ele filho irmã — falou o velho marujo outra vez, e viu Gornt sacudir a cabeça e ficar calado, esperando. Ficou contente ao ver que Gornt permanecia sentado, esperando pacientemente que ele fosse ao assunto que interessava, como convém a uma pessoa civilizada.

"Alguns desses diabos rosados estão aprendendo, finalmente. É, mas alguns aprenderam bem demais, porra, como o tai-pan, por exemplo, aquele com os olhos azuis de peixe, feios e frios, que a maioria dos demônios estrangeiros tem, e que fitam a gente como um tubarão morto, o tal que até sabe falar um pouquinho do dialeto haklo. É, o tai-pan é astuto e civilizado demais, mas, enfim, teve gerações antes dele, e todos os seus ancestrais tiveram o Mau-Olhado, antes dele. É, mas o velho Demônio de Olhos Verdes, o primeiro da família, que fez um pacto com o meu ancestral, o grande senhor da guerra do mar, Wu Fang Choi, e seu filho, Wu Kwok, o cumpriu e fez com que seus filhos o cumprissem... e os filhos deles. Portanto, este tai-pan atual deve ser considerado um velho amigo, embora seja o mais mortífero de toda a descendência."

O velho conteve um estremecimento, escarrou e cuspiu para afastar o deus mau da saliva que espreitava na garganta de todos os homens. Examinou Gornt. "Eeee", falou consigo, "deve ser terrível ter que olhar para aquele rosto rosado em cada espelho... todo aquele pêlo facial, feito um macaco, e uma pele pálida de barriga de sapo branco no resto do corpo. Arre!”.

Forçou um sorriso para disfarçar o seu embaraço e tentou ler o rosto de Gornt, o que havia por detrás dele, mas não conseguiu. "Não faz mal", disse para si mesmo, alegremente, "foi para isso que se gastou tanto tempo e dinheiro a fim de preparar o Filho Número Sete... ele conseguirá”.

— Poderia pedir favor? — perguntou, testando.

As vigas do navio rangiam agradavelmente, enquanto ele forçava as suas amarras.

— Sim. Que favor, velho amigo?

— Filho irmã... hora trabalhar... dá emprego? — Notou o espanto evidente no rosto de Gornt, e isso o irritou, mas soube disfarçar. — Explique — falou, em inglês. Depois acrescentou para Paul Choy, num haklo guturaclass="underline" — Explique para esse Comedor de Bosta de Tartaruga o que eu quero. Como lhe ensinei.