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— Meu tio pede desculpas por não poder falar-lhe diretamente, por isso pediu-me para explicar, Sr. Gornt — falou Paul Choy, educadamente. — Quer pedir-lhe que me dê um emprego... como uma espécie de estagiário... na sua divisão de aviões e navegação.

Gornt bebericava o seu uísque.

— Por que nessa divisão, Sr. Choy?

— Meu tio possui substanciais interesses em navegação, como o senhor sabe, e deseja que eu modernize a sua operação. Posso dar-lhe todas as informações sobre os meus antecedentes, se resolver me aceitar, senhor... meu segundo ano em Harvard foi dirigido para essas áreas... meu principal interesse era todo tipo de transportes. Já tinha sido aceito na Divisão Internacional do Ohio Bank quando meu tio me arran... mandou me chamar. — Paul Choy hesitou. — Bem, é isso o que ele está pedindo.

— Que dialetos fala, além do haklo?

— Mandarim.

— Quantos caracteres sabe escrever?

— Cerca de quatro mil.

— Sabe taquigrafia?

— Apenas datilografia rápida, senhor. Posso bater oitenta palavras por minuto, mas não perfeitas.

— O quê? — perguntou Wu.

Gornt esperou que Paul Choy traduzisse o que fora dito para o tio, observando-o... e a Wu Quatro Dedos. Finalmente, perguntou:

— Que espécie de estagiário quer ser?

— Ele quer que eu aprenda tudo o que for possível sobre a administração de navios e aviões. Também o negócio de corretagem e fretagem, o funcionamento prático e, é claro, quer que eu seja uma engrenagem lucrativa para o senhor, na sua máquina. Talvez a minha perícia técnica ianque, ao menos teórica, possa lhe ser de alguma ajuda. Estou com vinte e seis anos. Tenho o meu mestrado. Estou por dentro de todas as novas teorias de computadores. Claro que sei programar um. Em Harvard, especializei-me em conglomerados, fluxos de caixa.

— E se não se sair bem, ou se houver, digamos, um conflito de personalidades?

O rapaz disse com firmeza:

— Não haverá, Sr. Gornt. Pelo menos, trabalharei feito um burro de carga para evitar isso.

— O que foi que ele disse exatamente? — Quatro Dedos perguntou vivamente em haklo, notando uma mudança de inflexão, os olhos e os ouvidos ultra-atentos.

O filho explicou, exatamente.

— Ótimo — falou Wu, a voz roufenha. — Diga-lhe, exatamente, que se você não cumprir suas tarefas como for do agrado dele, será escorraçado da família, e a minha ira destruirá os seus dias.

Paul Choy hesitou, ocultando o seu choque, todo o seu treinamento americano gritando que mandasse o pai ir se foder, que era formado por Harvard, que era americano, e tinha um passaporte americano que ele próprio ganhara, não importa de que maldita sampana ou maldita família tivesse vindo. Mas manteve os olhos baixos e não deixou transparecer no rosto a raiva que sentia.

"Não seja ingrato", ordenou a si mesmo. "Você não é americano, americano de verdade. É chinês, e o chefe de sua família tem o direito de mandar. Se não fosse por ele, você provavelmente estaria dirigindo um bordel flutuante, aqui em Aberdeen."

Paul Choy soltou um suspiro. Sabia que era mais afortunado do que os seus onze irmãos. Quatro eram comandantes de juncos em Aberdeen, um morava em Bangkok e navegava no rio Mekong, um tinha uma balsa em Cingapura, outro tinha um negócio de importação e exportação de material de construção naval na Indonésia, dois haviam morrido no mar, um estava na Inglaterra (fazendo o quê, não sabia) e o último, o mais velho, chefiava, no porto de Aberdeen, a dúzia de sampanas auxiliares que eram cozinhas flutuantes... e também três barcos-bordel e oito damas da noite.

Depois de uma pausa, Gornt perguntou:

— O que foi que ele disse? Exatamente?

Paul Choy hesitou, depois resolveu dizer-lhe, exatamente.

— Obrigado por ter sido franco comigo, Sr. Choy. Foi muito sensato da sua parte. É um rapaz realmente notável. — falou Gornt. — Compreendo perfeitamente. — Agora, pela primeira vez desde que Wu fizera a pergunta original, voltou o olhar para o velho marujo e sorriu. — Mas, claro. Prazer em dar emprego sobrinho.

Wu sorriu de orelha a orelha, e Paul Choy tentou não demonstrar na fisionomia o seu alívio.

— Não o desapontarei, Sr. Gornt.

— É, sei que não. Wu indicou a garrafa.

— Uísque?

— Não, obrigado. Já chega — disse Gornt.

— Quando começa emprego? Gornt olhou para Paul Choy.

— Quando gostaria de começar?

— Amanhã? Quando for conveniente para o senhor.

— Amanhã. Quarta-feira.

— Puxa, obrigado. Oito horas?

— Nove; do dia seguinte em diante, às oito. Semana de seis dias. Trabalhará muitas horas, e eu ficarei em cima de você. Dependerá de você o quanto poderá aprender, e a presteza com que poderei aumentar suas responsabilidades.

— Obrigado, Sr. Gornt.

Muito contente, Paul Choy traduziu para o pai. Wu tomou goles do seu uísque, sem se apressar.

— Qual dinheiro? — perguntou.

Gornt hesitou. Sabia que tinha que ser a quantia certa, nem de mais nem de menos, para não desprestigiar nem Paul Choy nem o tio.

— Mil HK por mês, nos três primeiros meses, depois revejo a quantia.

O rapaz não demonstrou na fisionomia o seu aborrecimento. Mal chegava a duzentos dólares americanos, mas traduziu para o haklo.

— Quem sabe dois mil? — falou Wu, disfarçando o seu prazer. Mil era a quantia perfeita, mas estava barganhando meramente para não desprestigiar o demônio estrangeiro, nem o filho.

— Se vai ser treinado, muitos gerentes valiosos terão que perder tempo, afastando-se de suas outras obrigações — Gornt disse, cortesmente. — Sai caro treinar uma pessoa.

— Muito dinheiro Montanha Dourada — Wu falou, com firmeza. — Dois?

— Mil no primeiro mês, mil duzentos e cinqüenta nos dois meses seguintes?

Wu franziu o cenho, e acrescentou:

— Mês três, mil e quinhentos?

— Pois bem, mil e quinhentos no terceiro e quarto meses. E reexaminarei o salário dele depois de quatro meses. E Paul Choy se compromete a trabalhar para a Rothwell-Gornt durante pelo menos dois anos.

— Hem?

Paul Choy traduziu de novo. "Merda", pensava, "como vou poder tirar férias nos Estados Unidos com cinqüenta mangos por mês, ou mesmo sessenta? Merda! E onde vou morar, porra? Numa bosta duma sampana?" Então ouviu Gornt dizer algo que o desnorteou inteiramente.

— Senhor?

— Falei que, como você foi muito honesto comigo, dar-lhe-emos acomodações grátis numa das casas da nossa companhia: The Gables. É onde colocamos todos os nossos gerentes estagiários que vêm da Inglaterra. Se vai fazer parte de uma hong de demônios estrangeiros, então é melhor se misturar aos seus futuros líderes.

— Sim, senhor! — Paul Choy não conseguiu conter o amplo sorriso. — Sim, senhor, obrigado, senhor.

Wu Quatro Dedos perguntou alguma coisa em haklo.

— Ele está perguntando onde fica a casa, senhor.

— Fica no Pico. É realmente muito simpática, Sr. Choy. Estou certo de que ficará mais do que satisfeito.

— Pode apostar que... sim, senhor.

— Esteja preparado para mudar-se amanhã à noite.

— Sim, senhor.

Depois que Wu compreendeu o que Gornt dissera, concordou com um aceno de cabeça.

— Tudo concordado. Dois anos, depois ver. Quem sabe mais, heya?

— É.

— Bom. Obrigado, velho amigo. — Depois, em haklo: — Agora pergunte a ele o que queria saber... sobre o banco.

Gornt preparava-se para se levantar quando Paul Choy disse:

— Há mais uma coisinha que meu tio queria perguntar-lhe, senhor, se dispuser de tempo.

— Claro.

Gornt acomodou-se na cadeira, e Paul Choy notou que o homem parecia mais atento agora, mais cauteloso.

— Meu tio gostaria de saber sua opinião sobre a corrida à agência do Ho-Pak Bank de Aberdeen, hoje.

Gornt fitou-o, olhar firme.

— O que é que tem?

— Corre todo tipo de boatos — dizia Paul Choy. — Meu tio tem muito dinheiro lá, a maioria dos amigos dele também. Uma corrida àquele banco seria uma péssima notícia.