— Acho que seria uma boa idéia sacar o dinheiro dele — disse Gornt, radiante com a oportunidade inesperada de alimentar o fogo.
— Deus — murmurou Paul Choy, estupefato. Estivera sondando Gornt com muito cuidado, e percebera a súbita tensão, e agora um prazer igualmente súbito o surpreendera. Pensou por um momento, depois decidiu mudar de tática e mostrar as cartas. — Ele queria saber se o senhor estava vendendo a descoberto.
Gornt falou, ironicamente:
— Ele ou o senhor, Sr. Choy?
— Nós dois, senhor. Ele tem uma grande carteira de ações que quer que eu administre, no futuro — falou o jovem, o que era um exagero completo. — Estive lhe explicando a mecânica da operação moderna dos bancos e da Bolsa de Valores... como funcionam, e como Hong Kong é diferente dos Estados Unidos. Ele entendeu facilmente, senhor. — Novo exagero. Paul Choy descobrira ser impossível derrubar os preconceitos do pai. — Pergunta se deve vender a descoberto.
— Sim, acho que deve. Tem havido muitos boatos de que o Ho-Pak ultrapassou seus limites... pedindo emprestado a curto prazo e juros baixos, emprestando a longo prazo e juros altos, especialmente com propriedades, o meio clássico de qualquer banco se meter em sérias dificuldades. Por medida de segurança, ele devia retirar todo o seu dinheiro e vender a descoberto.
— Próxima pergunta, senhor: o Blacs ou o Victoria Bank salvarão o Ho-Pak?
Foi com esforço que Gornt manteve a fisionomia impassível. O velho junco inclinou-se de leve quando as ondas formadas por outro junco que passava lamberam seus flancos.
— Por que outros bancos fariam tal coisa?
"Estou encurralado", pensava Gornt, estupefato. "Não posso contar-lhes a verdade... é impossível saber quem mais obterá a informação. Ao mesmo tempo, não ouso não contar ao velho sacana e ao seu maldito pirralho. Ele está pedindo a retribuição do favor, e eu tenho que pagar, é uma questão de prestígio."
Paul Choy inclinou-se para a frente, na cadeira, com excitação evidente:
— A minha teoria é que, se houver mesmo uma corrida de verdade ao Ho-Pak, os outros não deixarão que entre em colapso... não como o desastre do East índia and Canton Bank no ano passado, porque isso criaria ondas de choque que o mercado, os grandes operadores do mercado, não apreciariam. Todo mundo aqui está à espera de uma alta repentina, e aposto que os figurões não vão deixar que uma catástrofe destrua esta chance. Como o Blacs e o Victoria são os bancos da pesada, é lógico imaginar que eles salvarão o outro.
— Aonde quer chegar, Sr. Choy?
— Se alguém soubesse antecipadamente quando as ações do Ho-Pak chegariam ao fundo do poço, e quando um dos bancos, ou os dois, começariam a operação para tirá-lo do buraco, essa pessoa poderia ganhar uma fortuna.
Gornt estava tentando decidir o que fazer, mas agora estava cansado, sua mente não estava tão aguçada quanto deveria. "O acidente deve ter me esgotado mais do que imaginei", disse consigo mesmo. "Será que foi Dunross? O filho da mãe estaria tentando acertar as contas, me fazer pagar por aquela noite de Natal, ou pela vitória do Pacific Orient, ou cinqüenta outras vitórias... talvez até mesmo a velha ferida de Macau."
Gornt sentiu uma súbita animação ao recordar-se da excitação febril que sentira ao assistir à corrida, sabendo que a qualquer momento o motor do tai-pan pifaria... vendo os carros passarem roncando, volta após volta, e então, Dunross, o líder, não mais apareceria... depois a espera da torcida, e depois a notícia de que ele saíra fora da pista na curva Melco, superfechada, numa batida ruidosíssima, quando seu motor pifara. Nova espera, o estômago dando voltas. Depois, a notícia de que o carro de corrida explodira numa bola de fogo, mas que Dunross tivera tempo de pular fora, incólume. Ficara a um só tempo muito triste e muito feliz.
Não queria que Dunross morresse. Queria-o vivo e destruído; queria-o vivo para dar-se conta da sua destruição.
Riu baixinho, consigo mesmo. "Ora, não fui eu que apertei o botão que deu início à operação. Claro que dei um empurrãozinho no jovem Donald Nikklin, sugerindo-lhe todos os meios e modos pelos quais um pouquinho de h'eung yau nas mãos apropriadas..."
Percebeu que Paul Choy e o velho marujo esperavam, fitando-o, e todo o seu bom humor desapareceu. Afastou os pensamentos errantes e concentrou-se.
— É, claro que tem razão, Sr. Choy. Mas está partindo da premissa errada. Claro que isso tudo não passa de teoria, o Ho-Pak ainda não entrou em colapso. Talvez nem entre. Mas não há motivo para que qualquer banco fizesse o que sugeriu, nenhum o fez no passado. Cada banco fica de pé ou cai graças aos seus próprios méritos. Essa é a glória do nosso sistema de livre empresa. Um plano como o que o senhor propõe abriria um precedente perigoso. Seria certamente impossível sustentar cada banco que fosse mal administrado. Nenhum desses bancos precisa do Ho-Pak, Sr. Choy. Ambos têm um número mais do que suficiente de clientes próprios. Nenhum deles jamais adquiriu outros interesses bancários aqui, e duvido que algum deles jamais precise fazê-lo.
"Papo furado", pensava Paul Choy. "Um banco tem o compromisso de crescer, como qualquer outro negócio, e o Blacs e o Victoria são os mais rapaces de todos... exceto a Struan e a Rothwell-Gornt. Merda, e as Propriedades Asiáticas, e todas as outras hongs."
— Estou certo de que tem razão, senhor. Mas meu tio Wu agradeceria se o senhor soubesse algo, fosse o que fosse.
Virou-se para o pai e disse em haklo:
— Terminei agora, Honrado Tio. Este bárbaro concorda que o banco possa estar em dificuldades.
O rosto de Wu ficou sem cor.
— Hem? A coisa é ruim?
— Serei o primeiro da fila, amanhã. O senhor deve sacar todo o seu dinheiro, e depressa.
— Ayeeyah! Por todos os deuses! — disse Wu, a voz áspera. — Eu pessoalmente cortarei a garganta do Banqueiro Kwang se perder uma só moeda de merda, mesmo sendo meu sobrinho!
Paul Choy não tirou os olhos dele.
— Ele é?
— Os bancos são invenções de merda dos demônios estrangeiros para roubar a fortuna das pessoas honestas — esbravejava Wu. — Eu vou recuperar cada moeda de cobre, caso contrário o sangue dele vai correr! Conte-me o que ele falou do banco.
— Por favor, seja paciente, Honrado Tio. É cortês, segundo o costume dos bárbaros, não deixar este bárbaro esperando.
Wu guardou a sua ira, e disse para Gornt, num inglês execráveclass="underline"
— Banco ruim, heya? Obrigado diz verdade. Banco mau costume, heya?
— Às vezes — falou Gornt, cautelosamente.
Wu Quatro Dedos abriu os punhos ossudos e procurou acalmar-se.
— Obrigado por favor... sim... também quero como filho irmã diz, heya?
— Desculpe, não estou entendendo. O que seu tio quer dizer, Sr. Choy?
Depois de falar um pouquinho com o pai, para manter ás aparências, o rapaz disse:
— Meu tio consideraria um grande favor se pudesse saber, em particular, adiantadamente, de qualquer incursão, tentativa de compra de controle ou de salvação do banco... naturalmente, isso seria estritamente confidencial.
Wu balançou a cabeça, e apenas a sua boca sorria, agora.
— Sim. Favor.
Estendeu a mão e apertou a de Gornt amistosamente, sabendo que os bárbaros apreciavam tal costume, embora ele o achasse de mau gosto e incivilizado, e contrário às boas maneiras, desde tempos imemoriais. Mas queria o filho treinado rapidamente, e tinha que ser com a Segunda Grande Companhia, e precisava da informação de Gornt. Sabia bem da importância do conhecimento antecipado. "Eee", pensou, "sem meus amigos nas forças da Polícia Marítima da Ásia, minhas frotas seriam impotentes."
— Vá para terra com ele, sobrinho. Ponha-o num táxi e depois me espere. Vá buscar Tok Duas Machadinhas e espere por mim, lá junto ao ponto de táxis.
Agradeceu a Gornt de novo, depois acompanhou-os até o convés e ficou vendo enquanto se afastavam. Sua balsa-sampana estava esperando, e eles entraram nela e dirigiram-se para terra.