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Era uma noite gostosa, e ele sentiu o gosto do vento. Havia umidade nele. Chuva? Prontamente examinou as estrelas e o céu noturno, todos os seus anos de experiência se concentrando. A chuva só viria com a tempestade. Tempestade poderia significar tufão. Já estava no fim da estação, para chuvas de verão, mas as chuvas podiam chegar tarde e ser repentinas e muito fortes, e o tufão podia vir até novembro, ou começar em maio, e, se fosse a vontade dos deuses, chegar em qualquer estação do ano.

A chuva seria bem-vinda, pensou. Mas não o tufão.

Estremeceu. Estavam quase entrando no nono mês.

O nono mês lhe trazia más lembranças. Durante os anos da sua vida, o tufão o atingira dezenove vezes nesse mês, sete vezes desde que o pai morrera e ele se tornara chefe da Casa dos Wus Marítimos e Comandantes das Frotas.

Dessas sete vezes, a primeira fora naquele mesmo ano. Ventos de cento e quinze nós sopraram violentamente do nor-noroeste e afundaram uma frota inteira de cem juncos no estuário do rio Pearl. Mais de mil pessoas morreram afogadas, daquela vez... o filho mais velho dele e toda a sua família. Em 1949, quando ordenara a toda a sua armada sediada no rio Pearl que fugisse do continente comunista e se radicasse per-manentetnente nas águas de Hong Kong, fora apanhado no mar e afundado junto com noventa juncos e trezentas sampanas. Ele e a família foram salvos, mas perdera oitocentos e dezessete do seu povo. Aqueles ventos tinham vindo do leste. Doze anos atrás, novamente do leste-nordeste, e setenta juncos perdidos. Dez anos atrás, o tufão Susan, com suas rajadas de vento e chuva de oitenta nós, vindas do nordeste, mudando de direção para o leste-sudeste, dizimara a sua frota sediada em Formosa, e custara-lhe outras quinhentas vidas ali, e mais duzentas para o sul, até Cingapura, e outro filho com toda a família. O tufão Glória, em 57, rajadas de vento de chuva de cem nós, outra multidão afogada. No ano passado viera o tufão Wandâ, que destruíra Aberdeen e a maioria das aldeias marítimas haklo nos Novos Territórios. Aqueles ventos tinham vindo do nor-noroeste, voltado para o noroeste, depois mudado de direção e ido para o sul.

Wu conhecia bem os ventos, e o número dos dias também: 2, 8, 2 de novo, 18, 22, 10 de setembro, e o tufão Wanda no dia 1.°. "Ê", pensou, "e esses números somam 63, que é divisível pelo algarismo mágico 3, que dá 21, que dá 3 de novo. Será que o tufão virá no terceiro dia do nono mês, este ano? Nunca veio antes, nunca, ao que me conste, mas virá este ano? O número 63 também dá 9. Virá no nono dia?"

Provou o vento de novo. Continha umidade. Vinha chuva. O vento refrescara ligeiramente. Agora vinha do nor-nordeste.

O velho marinheiro escarrou e cuspiu. "Joss! Seja no terceiro, ou nono, ou segundo, só depende dos fados. A única coisa certa é que o tufão virá de um canto ou de outro, e virá no nono mês... ou neste mês, o que é igualmente ruim."

Observava agora a sampana, e via o filho sentado na meia-nau, ao lado do bárbaro, e ficou pensando até onde poderia confiar nele. "O rapaz é esperto, e conhece muito bem os costumes dos demônios estrangeiros", pensou, cheio de orgulho. "É, mas até onde converteu-se aos seus hábitos daninhos? Bem, logo vou descobrir. Uma vez que o rapaz passe a fazer parte da cadeia, será obediente. Ou morrerá. No passado, a Casa de Wu sempre comerciou com ópio, com ou para a Casa Nobre, e às vezes para nós mesmos. Antigamente, o ópio era honroso.

"Ainda é, para alguns. Eu, Mo Contrabandista, Lee Pó Branco, ah, e quanto a eles? Devemos formar uma irmandade ou não?

"Mas os Pós Brancos? São assim tão diferentes? Não são apenas um ópio mais forte... como a bebida alcooólica comparada à cerveja?

"Qual a diferença comercial entre os Pós Brancos e o sal? Nenhuma. Só que agora a lei cretina dos demônios estrangeiros diz que um é contrabando, e o outro não! Ayeeyah, até vinte e tantos anos atrás, quando os bárbaros perderam a sua bosta de guerra para os monstros do mar do Leste, o governo monopolizava o comércio aqui.

"O comércio de Hong Kong com a China não se baseou no ópio, alimentado apenas pelo ópio produzido na índia bárbara?

"Mas agora que destruíram seus próprios campos produtores, estão tentando fingir que o comércio nunca existiu, que é imoral e um crime terrível, passível de vinte anos de cadeia!

"Ayeeyah, como pode uma pessoa civilizada compreender um bárbaro?"

Enojado, voltou para baixo.

"Eeee", pensou, cansado, "que dia difícil! Primeiro, John Chen some. Depois aqueles dois cantonenses filhos da puta são presos no aeroporto, e meu carregamento de armas é roubado pela merda da polícia. Então, hoje à tarde, chegou a carta do tai-pan, entregue em mãos."

"Saudações, Honrado Velho Amigo. Pensando bem, sugiro que ponha o Filho Número Sete com o inimigo — melhor para ele, melhor para nós. Peça ao Barba Negra para vê-lo hoje à noite. Telefone-me depois." Estava assinada "Velho Amigo" e trazia o carimbo oficial do tai-pan.

"Velho Amigo", para um chinês, era uma pessoa ou uma companhia que lhe havia feito um favor extremo no passado, ou alguém no setor comercial que provara ser digno de confiança e lucrativo, ao longo dos anos. Às vezes, os anos abrangiam gerações.

"É", pensou Wu, "este tai-pan é um Velho Amigo." Fora ele que sugerira a certidão de nascimento e o novo nome para o Sétimo Filho, que sugerira mandá-lo para o País Dourado, e que aplainara o terreno por lá, e o terreno que levava à grande universidade, e cuidara dele lá sem que ele soubesse... o subterfúgio resolvendo o dilema de como conseguir que um de seus filhos fosse treinado nos Estados Unidos sem a mácula da ligação com o ópio.

"Que tolos são os bárbaros! É, mas mesmo assim, este tai-pan não é. Ele é verdadeiramente um Velho Amigo... e a Casa Nobre também."

Wu lembrou-se de todos os lucros que ele e a família haviam ganho secretamente durante gerações, com ou sem a ajuda da Casa Nobre, na paz e na guerra, comerciando onde os navios bárbaros não podiam: contrabando, ouro, gasolina, ópio, borracha, maquinaria, remédios, toda e qualquer coisa que estivesse em escassez. Até mesmo gente. Ajudando as pessoas a fugir do ou para o continente, sendo considerável o dinheiro da passagem. Com ou sem, mas principalmente com a assistência da Casa Nobre, com esse tai-pan e seu antecessor, o Velho Nariz Aquilino, seu velho primo, e antes dele, Cão Danado, seu pai, e antes dele o pai do primo, o clã dos Wus prosperara.

Agora, Wu Quatro Dedos possuía seis por cento da Casa Nobre, adquiridos ao longo dos anos, e escondidos com a ajuda deles num labirinto de representantes, mas mesmo assim sob seu controle exclusivo, a maior parte do seu negócio de transmissão de ouro, juntamente com grandes investimentos aqui, em Macau, Cingapura e Indonésia, e em propriedades, navegação, operações bancárias.

"Operações bancárias", pensou, com azedume. "Vou cortar a garganta do meu sobrinho, depois de fazê-lo comer o seu Saco Secreto, se perder uma moeda de cobre!"

Já estava sob o convés, e entrou na cabine principal desarrumada e nada atraente onde ele e a mulher dormiam. Ela estava deitada no grande beliche cheio de palha, e virou-se, semi-adormecida.

— Já acabou? Já vem para a cama?

— Não. Vá dormir — disse ele, bondosamente. — Tenho trabalho para fazer.

Obedientemente, ela fez o que ele mandou. Era a tai-tai dele, a sua mulher principal, e estavam casados há quarenta e sete anos.

Ele tirou as roupas, e vestiu outras: uma camisa branca limpa, meias e sapatos limpos, e as calças cinzentas estavam bem vincadas. Fechou a porta da cabine às suas costas e subiu agilmente ao convés, sentindo-se muito desconfortável e constrangido dentro das roupas.

— Volto antes do alvorecer, Quarto Neto — disse.

— Sim, Avô.

— Trate de ficar acordado!

— Sim, Avô.