Ele deu um cascudo de leve no garoto. Depois cruzou as pranchas e parou no terceiro junco.
— Poon Bom Tempo? — chamou.
— Sim... sim? — retrucou a voz sonolenta. O velho estava enrascado sobre um saco velho, cochilando.
— Reúna todos os comandantes. Volto dentro de duas horas.
Poon ficou imediatamente alerta.
— Vamos zarpar? — indagou.
— Não. Volto daqui as duas horas, reúna os comandantes! Wu continuou o seu caminho, e entrou na sua balsa-sampana pessoal, sob as reverências da tripulação. Olhou para terra. O filho estava de pé, ao lado do seu grande Rolls preto com a chapa do número da sorte — um único algarismo 8 — que comprara por cento e cinqüenta mil HK no leilão do governo, seu chofer uniformizado e seu guarda-costas, Tok Duas Machadinhas, esperando deferentemente ao lado dele. Como sempre, sentiu prazer ao ver seu grande automóvel, e isso sobrepujou sua preocupação crescente. Naturalmente, não era o único morador das aldeias marítimas que possuía um Rolls. Mas, por costume, o dele era sempre o maior e o mais novo. Oito, baat, era o número de maior sorte, porque rimava com faat, que queria dizer "prosperidade em expansão".
Sentiu o vento mudar de posição um ponto, e sua ansiedade aumentou. "Eeee, hoje foi um dia ruim, mas amanhã será pior.
"Aquele bolo de carne de cachorro, John Chen, fugiu para o País Dourado ou foi realmente seqüestrado? Sem aquele pedaço de bosta ainda sou o menino de recados do tai-pan. Estou cansado de ser um menino de recados. A recompensa de cem mil por John Chen é dinheiro bem investido. Eu pagaria doze vezes essa quantia por John Chen e sua merda de moeda. Graças a todos os deuses que coloquei espiões na casa do Chen da Casa Nobre."
Fez um sinal firme com a mão, na direção da terra.
— Ande ligeiro, velho — ordenou ao barqueiro, o rosto sombrio. — Tenho muito o que fazer antes do alvorecer!
19
14h23h
O dia estava muito quente e muito úmido, o ar abafado, as nuvens começando a se juntar. Desde a hora em que o Ho-Pak Bank abriu, de manhã, não houvera nenhuma diminuição no movimento das multidões suadas e barulhentas, tanto dentro quanto fora da pequena agência de Aberdeen.
— Não tenho mais dinheiro para pagar, Honorável Sung — sussurrou a caixa, assustada, o suor manchando o seu cheong-sam bem-feito.
— De quanto precisa?
— De sete mil quatrocentos e cinqüenta e sete dólares para o cliente Tok-sing, mas deve haver mais umas cinqüenta pessoas esperando.
— Volte para o seu guichê — replicou o gerente, igualmente nervoso. — Protele. Finja estar examinando mais atentamente a conta... a matriz jura que mais um carregamento de dinheiro saiu de seus escritórios faz uma hora... quem sabe o tráfego... Volte para o seu guichê, srta. Pang. — Apressadamente, fechou a porta do seu gabinete atrás dela e, suando, pegou novamente no telefone: — O Honorável Richard Kwang, por favor. Depressa...
Desde que o banco abrira, às dez horas em ponto, quatrocentas ou quinhentas pessoas haviam aberto caminho até um dos três guichês e exigido o seu dinheiro e seus depósitos na poupança, integralmente, e depois, abençoando sua sorte, tinham aberto caminho aos empurrões de volta ao mundo exterior.
Aqueles que possuíam caixas de depósito bancário haviam exigido acesso a elas. De um em um, acompanhados por um funcionário, haviam descido para o cofre-forte, extáticos ou tontos de alívio. Lá embaixo, o funcionário usara a sua chave, o cliente a dele, depois o funcionário se retirara. Sozinho no ar abafado, o cliente suado abençoara os deuses porque seu destino lhe permitira ser um dos afortunados. Então, as mãos trêmulas tinham agarrado seus títulos, dinheiro vivo, barras de ouro, jóias e todas as outras coisas secretas, enfiando-os numa pasta, mala ou saco de papel... ou quem sabe nos bolsos estufados, já cheios de notas. Então, subitamente, assustado por estar de posse de tal fortuna, de modo tão aberto e tão vulnerável, toda a fortuna de seu mundo individual, a felicidade dele se evaporava, e ele se afastava cabisbaixo, dando lugar a outro cliente, igualmente nervoso, e de início igualmente ex-tático.
A fila começara a formar-se bem antes do alvorecer. O pessoal de Wu Quatro Dedos pegou os trinta primeiros lugares. A notícia logo correra pelo porto, portanto outros haviam se juntado a eles, instantaneamente, depois mais outros, depois todo mundo que tinha qualquer tipo de conta, à medida que a notícia se espalhava, aumentando a multidão. Por volta das dez horas, a aglomeração ansiosa, nervosa, assumia proporções de levante. Agora, alguns policiais fardados caminhavam por entre o povo, calados e atentos, sua presença tendo um efeito calmante. Mais policiais chegaram no decorrer do dia, seu número discreta e cuidadosamente determinado pela delegacia de Aberdeen Leste. Lá pelo meio-dia, dois camburões da polícia estacionaram num dos becos próximos, com um pelotão de combate especialmente treinado a postos. E oficiais europeus.
A maior parte da multidão era composta de pescadores e gente simples do lugar, haklos e cantonenses. Talvez um em dez tivesse nascido em Hong Kong. Os demais eram migrantes recentes da República Popular da China, o Reino Médio, como chamavam à sua terra. Tinham vindo aos montes para o santuário de Hong Kong, fugindo dos comunistas, ou dos nacionalistas, da fome, ou da simples miséria, como seus antepassados haviam feito por mais de um século. Noventa e oito por cento da população de Hong Kong eram chineses, e essa proporção se mantinha a mesma desde o início da colônia.
Cada pessoa que saía do banco dizia a quem lhe perguntasse que havia sido paga integralmente. Mesmo assim, os outros que esperavam permaneciam apreensivos. Todos se lembravam do colapso do ano anterior, e de uma vida inteira, nas suas aldeias natais, de outros colapsos e fracassos, fraudes, agiotas rapaces, desfalques, corrupção, e de como era fácil ver as economias de toda uma vida se evaporarem sem que a pessoa tivesse culpa alguma, não importa qual fosse o governo, comunista, nacionalista ou dos senhores feudais. Há quatro mil anos era a mesma coisa.
E todos odiavam sua dependência aos bancos... mas tinham que guardar seu dinheiro em algum lugar, a vida sendo o que era e os ladrões abundando como pulgas. "Dew neh loh moh para todos os bancos", pensava a maioria. Eram invenções do demônio... dos demônios estrangeiros! É. Antes dos demônios estrangeiros chegarem ao Reino Médio, não havia dinheiro de papel, só dinheiro de verdade, prata, ouro ou cobre... na maioria prata e cobre... que podiam tocar e esconder, que jamais se evaporaria. Não como o papel nojento. Os ratos podiam comer papel, os homens também. O dinheiro de papel era mais uma invenção do demônio estrangeiro. Antes da vinda deles para o Reino Médio a vida era boa. E agora... Dew neh loh moh para todos os demônios estrangeiros!
Às oito horas daquela manhã, o ansioso gerente da agência ligara para Richard Kwang.
— Mas, Honrado Senhor, já deve haver umas quinhentas pessoas, e a fila sai daqui e corre pela beira do cais.
— Não faz mal, Honorável Sung! Pague àqueles que exigirem o seu dinheiro. Não se preocupe! Fale com eles, a maioria não passa de pescadores supersticiosos. Convença-os a não sacarem. Mas pague àqueles que insistirem! O Ho-Pak é tão forte quanto o Blacs ou o Victoria! É uma mentira maliciosa que estamos em dificuldades! Pague! Verifique cuidadosamente as cadernetas de poupança deles, e não se apresse com cada cliente. Seja metódico.
E assim o gerente e os caixas do banco tentaram persuadir os seus clientes de que não havia necessidade de ficarem ansiosos, de que boatos falsos estavam sendo difundidos por gente maliciosa.
— Claro que pode tirar o seu dinheiro, mas não acha...
— Ayeeyah, dê-lhe o seu dinheiro — dizia o seguinte da fila, irritado —, ela quer o seu dinheiro, eu quero o meu, e o irmão da minha mulher atrás de mim quer o dele, e a minha tia está na fila lá fora. Ayeeyah, não posso perder o dia todo! Tenho que sair para o mar. Com este vento, não demora vai haver tempestade, e preciso fazer uma boa pescaria...