E o banco começara a fazer os pagamentos. Integrais.
Como todos os bancos, o Ho-Pak usava seus depósitos para fazer empréstimos para outras pessoas... todo tipo de empréstimos. Em Hong Kong havia poucos regulamentos e poucas leis. Alguns bancos emprestavam até oitenta por cento dos seus bens em caixa, porque tinham certeza de que os clientes jamais iriam querer o dinheiro de volta, todos de uma só vez.
Exceto naquele dia, em Aberdeen. Mas, felizmente, aquela era apenas uma das dezoito agências espalhadas pela colônia. O Ho-Pak ainda não estava ameaçado.
Três vezes durante o dia o gerente tivera que ligar para a matriz para pedir dinheiro extra. E duas vezes para pedir conselhos.
Passava um minuto das dez horas da manhã, e Wu Quatro Dedos estava sentado, de cara fechada, ao lado da mesa do gerente, junto com Paul Choy, tendo Tok Duas Machadinhas de pé atrás de si.
— Quer encerrar todas as suas contas no Ho-Pak? — exclamou o Sr. Sung, com voz trêmula.
— Quero. Agora — falou Wu, e Paul Choy concordou com um movimento de cabeça.
— Mas não temos di... — começou a dizer o gerente, com voz débil.
Wu sibilou:
— Quero todo o meu dinheiro agora. Em espécie ou em barras. Agora! Não está entendendo?
O Sr. Sung fez uma careta assustada. Ligou para Richard Kwang e explicou rapidamente.
— Sim, sim, senhor. — Estendeu o telefone. — O Honorável Kwang quer falar com o senhor, Honorável Wu.
Mas não houve conversa que conseguisse fazer o velho marujo mudar de idéia.
— Não. Agora. Meu dinheiro, e o dinheiro do meu pessoal, agora. E também daquelas contas... bem... contas especiais, estejam onde estiverem.
— Mas não há tanto dinheiro assim aí na agência, Honrado Tio — disse Richard Kwang, apaziguadoramente. — Terei prazer em dar-lhe um cheque de administração.
Wu explodiu.
— Não quero cheques, quero dinheiro! Não entendeu? Dinheiro!
Ele não sabia o que era um cheque de administração, portanto o atemorizado Sr. Sung começou a explicar. Paul Choy ficou mais animado.
— Tudo bem, Honrado Tio — disse. — Um cheque de administração...
O velho trovejou:
— Como é que um pedaço de papel pode ser igual a dinheiro de verdade? Quero dinheiro, meu dinheiro, agora!
— Por favor, deixe-me falar com o Honorável Kwang, Grande Tio — falou Paul Choy, buscando tranqüilizá-lo, compreendendo o dilema. — Talvez possa ajudar.
— Pois bem, fale — concordou Wu, azedamente —, mas consiga o meu dinheiro vivo.
Paul Choy apresentou-se ao telefone e falou:
— Talvez seja mais fácil em inglês, senhor. — Conversou durante alguns momentos. Depois, sacudiu a cabeça, satisfeito. — Só um momentinho, senhor. — A seguir, em haklo: — Grande Tio — explicou —, o Honorável Kwang lhe dará o pagamento integral em apólices do governo, ouro ou prata lá na matriz, e um pedaço de papel que o senhor poderá levar ao Blacs ou ao Victoria, para pegar o restante. Mas, se puder fazer uma sugestão, como o senhor não tem cofre para guardar todo esse montante, quem sabe devesse aceitar o cheque de administração do Honorável Kwang... com ele, posso abrir conta em qualquer dos dois bancos para o senhor. Imediatamente.
— Bancos! Bancos são armadilhas dos demônios estrangeiros para pegar lagostas civilizadas!
Paul Choy levara meia hora para convencê-lo. A seguir, haviam-se dirigido para a matriz do Ho-Pak, mas Wu deixara Tok Duas Machadinhas com o apavorado Sr. Sung.
— Fique aqui, Tok. Se eu não conseguir o meu dinheiro, você o arranca desta agência.
— Sim, senhor.
E assim, dirigiram-se à matriz, e ao meio-dia Wu Quatro Dedos tinha novas contas, metade no Blacs, metade no Victoria. Paul Choy ficara estonteado com o número de contas separadas que tiveram que ser encerradas e abertas. E com a quantia.
Vinte e tantos milhões de HK.
A despeito de todas as suas súplicas e explicações, o velho marujo se recusara a investir um pouco de dinheiro vendendo ações da Ho-Pak a descoberto, dizendo que aquilo era jogo para ladrões quai loh. Então, Paul saíra de fininho e se dirigira a todos os corretores que pudera encontrar, tentando vender a descoberto, por conta própria.
— Mas, meu caro rapaz, você não tem crédito. Claro, se me apresentar o carimbo oficial de seu tio, ou a palavra dele por escrito, então...
Descobriu que as firmas de corretagem eram quase exclusivamente européias, e na sua grande maioria britânicas. Não havia uma só chinesa. Todas as posições na Bolsa de Valores eram ocupadas por europeus, novamente britânicos em grande maioria.
— Isso não me parece direito, Sr. Smith — disse Paul Choy.
— Ah, infelizmente o pessoal local, Sr... Sr... Sr. Chee, não é?
— Choy, Paul Choy.
— Ah, sim. Infelizmente o pessoal local não se interessa realmente por práticas complicadas e modernas, como corretagem e Bolsa de Valores... como sabe, o pessoal local é todo composto de imigrantes. Quando viemos para cá, Hong Kong não passava de uma rocha estéril.
— Sei. Mas eu estou interessado, Sr. Smith. Nos Estados Unidos, um corret...
— Ah, sei, a América! Estou certo de que agem de modo diferente por lá, Sr. Chee. Bem, se me dá licença... boa tarde.
Furioso, Paul Choy fora de corretor em corretor, mas era sempre a mesma coisa. Ninguém o apoiaria sem o carimbo oficial do pai.
Agora, estava sentado num banco de praça, na Memorial Square, perto do Tribunal de Justiça e dos altos prédios da Struan e da Rothwell-Gornt, fitando a baía e pensando. A seguir, entrou na biblioteca do tribunal e passou a conversa no pedante bibliotecário.
— Sou da Sims, Dawson e Dick — falou, despreocupadamente. — Sou o novo advogado deles, dos Estados Unidos. Querem algumas informações rápidas sobre Bolsa de Valores e corretagem.
— Regulamentos do governo, senhor? — perguntou o idoso eurasiano, prestativamente.
— É.
— Não há nenhum, senhor.
— Hem?
— Bem, praticamente nenhum. — O bibliotecário foi até as prateleiras. A seção de exigências não passava de uns poucos parágrafos num tomo gigantesco.
Paul Choy fitou-o, boquiaberto.
— Mas é só isso?
— Sim, senhor.
A cabeça de Paul Choy começou a rodar.
— Mas então está totalmente aberto, o mercado está totalmente aberto!
O bibliotecário mostrou-se levemente divertido.
— Está, comparado ao de Londres, ou de Nova York. Quanto à corretagem, senhor, bem, qualquer um pode se estabelecer como corretor, desde que haja alguém que queira que ele venda ações, e haja alguém que queira que ele as compre, e ambos estejam preparados para pagar-lhe uma comissão. O problema é que, bem, as firmas existentes controlam completamente o mercado.
— Como se acaba com esse monopólio?
— Ah, não faríamos isso, senhor. Somos todos a favor do status quo, aqui em Hong Kong.
— Bem, então como se entra na "panelinha", para aproveitar também?
— Duvido que o senhor conseguisse, senhor. Os britânicos controlam tudo com muito cuidado — disse o homem, delicadamente.
— Isso não me parece direito.
O homem idoso sacudiu a cabeça e sorriu suavemente. Formou um triângulo com os dedos, simpatizando com o jovem chinês à sua frente, invejando-lhe a pureza... e a educação americana.
— Suponho que queira jogar na Bolsa por conta própria... — perguntou, em voz baixa.
— É... — Paul Choy tentou mascarar o seu erro, e gaguejou: — Pelo menos... Dawson mandou que eu...
— Ora, vamos, Sr. Choy, o senhor não pertence a Sims, Dawson e Dick — falou, admoestando-o polidamente. — Se tivessem contratado um americano (uma inovação surpreendente), eu teria sabido disso, juntamente com centenas de outras pessoas, muito antes que o senhor chegasse aqui. Deve ser o Sr. Paul Choy, sobrinho do grande Wu Sang Fang, que acaba de retornar de Harvard, nos Estados Unidos.