Paul Choy fitou-o, boquiaberto.
— Como sabia?
— Estamos em Hong Kong, Sr. Choy. É um lugarzinho minúsculo. Temos que saber o que ocorre. É assim que sobrevivemos. Quer jogar na Bolsa?
— Quero, Sr.... ?
— Manuel Pereira. Sou português de Macau. — O bibliotecário apanhou uma caneta-tinteiro e escreveu com bela caligrafia uma apresentação nas costas de um dos seus cartões de visita. — Tome. Ishwar Soorjani é um velho amigo. Seu local de trabalho fica junto da Nathan Road, em Kowloon. É um par se da índia, e lida com dinheiro e câmbio, compra e vende ações, de vez em quando. Poderá ajudá-lo... mas lembre-se de que, se ele emprestar dinheiro, será com juros altos. Portanto não deve cometer nenhum erro.
— Puxa, obrigado, Sr. Pereira. — Paul Choy estendeu a mão. Surpreso, Pereira fez o mesmo. Paul Choy apertou-lhe a mão efusivamente, depois começou a se afastar depressa, mas se deteve. — Escute, Sr. Pereira... a Bolsa de Valores. Não existe nenhum macete? Nada? Nenhum modo de faturar o meu?
Manuel Pereira tinha cabelos prateados, mãos longas e belas e feições chinesas pronunciadas. Fitou o jovem à sua frente. Depois falou, suavemente:
— Não há nada que o impeça de formar uma companhia para criar a sua própria Bolsa de Valores, uma Bolsa chinesa. Isso se enquadra nas leis de Hong Kong... ou na ausência delas. — Os velhos olhos brilhavam. — Você só precisa de dinheiro, contatos, conhecimentos e telefones...
— Meu dinheiro, por favor — sussurrou a velha amah, com voz rouca. — Aqui está a minha caderneta de poupança. — Estava com o rosto afogueado pelo calor dentro da agência do Ho-Pak em Aberdeen. Faltavam agora dez minutos para as três horas, e ela esperava desde o alvorecer. O suor manchava sua blusa branca velha e as calças negras. Uma trança comprida, suja e grisalha, lhe descia pelas costas. — Ayeeyah, não empurrem — gritou para os que estavam atrás. — Logo chegará a sua vez!
Com ar cansado, a jovem caixa apanhou a caderneta e olhou de novo para o relógio. "Ayeeyah, graças a todos os deuses que fechamos às três", pensou, e ficou se perguntando, ansiosamente, com a cabeça latejando de dor, como iam poder fechar as portas com tanta gente irritada espremida diante das caixas, empurrada pelos que se encontravam do lado de fora.
A quantia da caderneta de poupança era trezentos e vinte e três HK e quarenta e dois centavos. Cumprindo as instruções do Sr. Sung para ir com calma e ser meticulosa, caminhou até os arquivos, tentando fazer ouvidos moucos à corrente de obscenidades impacientes e resmungos que escutava há horas. Certificou-se de que a quantia estava correta, depois olhou de novo para o relógio e voltou para o seu banquinho alto, para destrancar e abrir a gaveta de dinheiro. Não havia dinheiro o bastante na sua caixa. Por isso, trancou de novo a gaveta e foi para o gabinete do gerente. Uma corrente oculta de ódio percorreu o povo que esperava. Ela era uma mulher baixa e desajeitada. Foi seguida por vários pares de olhos, que logo se desviaram para o relógio, depois retornaram para ela.
A moça bateu à porta do gerente e a fechou atrás de si.
— Não posso pagar à Velha Ah Tam — disse, desalentada. — Tenho apenas cem HK. Já protelei o quanto pude...
O gerente Sung enxugou o suor do lábio superior.
— São quase três horas. Portanto, que ela seja a sua última cliente, srta. Cho.
Conduziu-a por uma porta lateral até o cofre-forte. A porta do cofre era pesadíssima. Ela soltou uma exclamação abafada ao ver as prateleiras vazias. Nessa altura do dia, geralmente, as prateleiras estavam cheias de pilhas certinhas de notas e tubinhos de papel cheios de moedas, as notas presas em grupos de centenas, milhares e dezenas de milhares. Separar o dinheiro depois que o banco fechava era a tarefa de que ela mais gostava, além da de tocar nos maços sensuais de notas estalando de tão novas.
— Ah, mas que coisa terrível, Honorável Sung! — falou, quase chorando, os grossos óculos embaçados, o penteado desfeito.
— É só temporário, só temporário, srta. Cho. Lembre-se do que o Honorável Haply escreveu no Guardian de hoje! — Esvaziou a última prateleira, apanhando suas reservas finais, amaldiçoando o carregamento que ainda não havia chegado. — Tome.
Deu-lhe quinze mil para exibir, mandou que assinasse o recibo, e levou mais quinze mil para cada um dos outros caixas. Agora, o cofre-forte estava vazio.
Quando ele apareceu na sala principal, houve um silêncio repentino, elétrico, excitante, à visão da quantia aparentemente grande de dinheiro vivo.
Entregou o dinheiro aos outros dois caixas, depois sumiu de novo dentro do gabinete.
A srta. Cho empilhava o dinheiro meticulosamente na gaveta, todos os olhos fitos nela e nos outros caixas. Deixou uma das pilhas de mil sobre a mesa. Rasgou o selo e contou metodicamente trezentos e vinte, mais três notas de um e os trocados. Recontou-os e passou-os para o outro lado do balcão. A velha enfiou tudo dentro de um saco de papel, e o seguinte da fila veio bruscamente para a frente e enfiou sua caderneta de poupança na cara da srta. Cho.
— Tome, por todos os deuses. Quero sete mil... Naquele momento, soou o gongo das três horas, e o Sr. Sung apareceu instantaneamente e falou, em voz muito alta:
— Lamento, temos que fechar agora. Todos os caixas, cerrem suas...
O resto das suas palavras foi abafado pelo vozerio raivoso.
— Por todos os deuses, estou esperando desde o alvorecer...
— Dew neh loh moh, mas faz oito horas que estou aqui...
— Ayeeyah, paguem-me, vocês têm o bastante...
— Oh, por favor, por favor, por favor... Normalmente, o banco teria cerrado as portas e atendido aos clientes que já estavam lá dentro, mas, desta feita, obedientemente, os três caixas assustados trancaram as gavetas no meio do tumulto, colocaram o cartaz de fechado e se afastaram das mãos estendidas.
Repentinamente, a multidão dentro do banco virou uma turba.
Os que estavam na frente foram espremidos contra o balcão, enquanto outros lutavam para entrar no banco. Uma moça berrou, ao ser jogada com força contra o balcão. Mãos se estenderam para as grades, que eram mais um elemento de decoração do que de proteção. Agora, todos estavam enfurecidos; Um velho marujo, que era o seguinte da fila, tentou se esticar para abrir à força a gaveta do dinheiro. A velha amah ficou imprensada na massa fervilhante de cem ou mais pessoas, e lutou para se afastar, o dinheiro agarrado com firmeza nas mãos esquálidas. Uma moça perdeu o equilíbrio e foi pisoteada. Tentou levantar-se, mas o monte de pernas não deixava. Portanto, desesperada, mordeu uma das pernas, e conseguiu espaço suficiente para se levantar, as meias desfiadas, cheong-sam rasgado, tomada de pânico, agora. O pânico dela atiçou ainda mais a turba, depois alguém gritou:
— Matem o filho da puta sem mãe... — e logo todos repetiram: — Matemmmmmmm!
Houve uma fração de segundo de hesitação. Depois, como se fossem uma só pessoa, lançaram-se à frente.
— Parem!
A palavra irrompeu na atmosfera em inglês, depois em haklo, depois em cantonense, novamente em inglês.
Fez-se um silêncio vasto e repentino.
O inspetor-chefe fardado apareceu diante deles, calmo e desarmado, um megafone elétrico nas mãos. Viera pela porta dos fundos. Estivera numa sala interna, e agora os fitava.
— São três horas — disse suavemente, em haklo. — A lei diz que os bancos fecham às três horas. Este banco está fechado. Por favor, voltem para casa. Calmamente!
Outro silêncio, desta feita mais irado, depois o começo de uma violenta agitação, quando um homem resmungou, aborrecido:
— E quanto à porra do meu dinheiro...
Outros quase chegaram a repetir-lhe as palavras, mas o policial moveu-se rápido, muito rapidamente, na direção exata do homem, ergueu destemidamente o tampo do balcão e partiu para cima dele, metendo-se no meio da turba. A turba recuou.