— Amanhã — disse o policial, gentilmente, superando-o, e muito, em altura. — Receberá todo o seu dinheiro amanhã.
O homem baixou os olhos, odiando os olhos frios e azuis de peixe e a proximidade do demônio estrangeiro. Aborrecido, deu um passo para trás.
O policial olhou para o resto deles, para dentro dos seus olhos.
— Você, aí no fundo — ordenou, selecionando o homem instantaneamente, com cuidado infalível, a voz autoritária, mas com a mesma confiança tranqüila. — Vire-se e deixe os outros passarem.
Obedientemente, o homem fez o que lhe tinha sido ordenado. A turba voltou a ser multidão. Uma hesitação momentânea, depois outro homem se virou e começou a abrir caminho em direção à porta.
— Dew neh loh moh, não tenho o dia inteiro, ande logo — falou, com azedume.
Todos começaram a sair, resmungando, furiosos... mas individualmente, não como uma turba. Sung e os caixas enxugaram a testa suada, depois sentaram-se, trêmulos, por trás da segurança do balcão.
O inspetor-chefe ajudou a velha amah a se levantar. Havia uma gota de sangue no canto de sua boca.
— Está bem, Velha Senhora? — indagou em haklo. Ela o fitou, sem compreender. Ele repetiu a pergunta em cantonense.
— Ah, sim, sim — replicou em voz rouca, ainda agarrando o saco de papel firmemente junto ao peito. — Obrigada, Honrado Senhor.
Meteu-se no meio do povo e sumiu. A sala ficou vazia. O inglês saiu para a calçada após o último cliente e ficou parado diante da porta, assobiando desafinadamente, observando enquanto sumiam de vista.
— Sargento!
— Sim, senhor.
— Pode dispensar os homens, agora. Mande um destacamento para cá amanhã às nove horas. Instale barreiras e deixe os sacanas entrarem no banco apenas de três em três. Você e mais quatro homens serão mais do que o suficiente.
— Sim, senhor. — O sargento bateu continência. O inspetor-chefe voltou a entrar no banco. Trancou a porta da frente e sorriu para o gerente Sung. — Uma tarde bastante úmida, não é? — disse em inglês, para prestigiar Sung; todos os chineses instruídos em Hong Kong orgulhavam-se de falar o idioma internacional.
— Sim, senhor — replicou Sung, nervosamente. Normalmente, apreciava e admirava imensamente aquele inspetor-chefe. Mas aquela fora a primeira vez que vira com os próprios olhos um quai loh com mau-olhado, desafiando uma turba, sozinho como um deus malévolo de pé diante dela, desafiando-a a se mexer, para dar-lhe a oportunidade de cuspir fogo e enxofre. Sung estremeceu de novo.
— Obrigado, inspetor-chefe.
— Vamos para o seu escritório, para eu tomar uma declaração sua.
— Sim, por favor. — Sung empertigou-se diante do seu pessoal, reassumindo o comando. — Todos vocês, acertem os livros e arrumem as coisas.
Foi na frente, conduzindo o inglês, sentou-se e abriu um amplo sorriso.
— Chá, inspetor-chefe?
— Não, obrigado. — O inspetor-chefe Donald C. C. Smyth media cerca de um metro e setenta e oito, era forte, tinha os olhos azuis, cabelos louros e um rosto bronzeado, de pele esticada. Pegou um maço de papéis e colocou-os sobre a mesa. — Estas são as contas dos meus homens. Amanhã, às nove, o senhor encerrará as contas deles e lhes pagará. Virão pela porta dos fundos.
— Ora, claro. Sentir-me-ei honrado. Mas ficarei desmoralizado se tantas contas valiosas me deixarem. O banco está tão firme quanto estava ontem, inspetor-chefe.
— Claro. Nesse meio tempo, amanhã, às nove. Dinheiro vivo, por favor. — Entregou-lhe mais alguns papéis. E quatro cadernetas de poupança. — Aceitarei um cheque administrativo por todos esses. Agora.
— Mas, inspetor-chefe, hoje foi um dia extraordinário. Não há problema com o Ho-Pak. Certamente o senhor poderia...
— Agora. — Smyth sorriu docemente. — Os talões de retirada já estão todos assinados e prontos.
Sung olhou para eles. Todos eram nomes chineses que ele sabia serem representantes de representantes daquele homem cujo apelido era Cobra. As contas totalizavam quase oitocentos e cinqüenta mil HK. "E isso é só nesta agência", pensou, impressionadíssimo com a sagacidade do Cobra. "E quanto ao Victoria, e ao Blacs, e a todas as outras agências em Aberdeen?"
— Pois bem — falou, cansado. — Mas lamento muito ver tantas contas deixarem o banco.
Smyth sorriu de novo.
— O Ho-Pak inteiro ainda não está quebrado, não é mesmo?
— Oh, não, inspetor-chefe — exclamou Sung, chocado. — Temos um ativo publicado no valor de um bilhão de HK e reservas em dinheiro de muitas dezenas de milhões. É só esse pessoal simplório, um problema temporário de confiança. Leu a coluna do Sr. Haply, no Guardian?
— Li.
— Ah. — O rosto de Sung ficou sombrio. — Boatos maliciosos espalhados por tai-pans invejosos, e outros bancos! Se Haply alega isso, naturalmente é verdade.
— Naturalmente! Bem, estou um pouco atarefado, esta tarde.
— Sim, é claro. Vou fazê-los imediatamente. Ah! li no jornal que pegou um daqueles malvados Lobisomens.
— Temos um suspeito de uma tríade, Sr. Sung, só um suspeito.
Sung estremeceu.
— Demônios! Mas o senhor pegará todos eles... demônios, enviando uma orelha! Devem ser estrangeiros. Aposto que são estrangeiros, pode crer. Pronto, senhor, já preenchi os cheques...
Bateram à porta. Um cabo entrou e bateu continência.
— Com licença, senhor, há um carro blindado lá fora. Diz que é da matriz do Ho-Pak.
— Ayeeyah — falou Sung, muitíssimo aliviado —, e já não é sem tempo. Prometeram a entrega às duas. É mais dinheiro.
— Quanto? — quis saber Smyth.
— Meio milhão — informou o cabo, prontamente, entregando o manifesto de carga. Era um homem baixo e vivo, de olhos alegres.
— Ótimo — falou Smyth. — Bem, Sr. Sung, isso aliviará a pressão de cima do senhor, não é?
— É, é, sim. — Sung viu que os dois homens o fitavam e falou imediata e expansivamente. — Se não fosse pelo senhor, e os seus homens... Com sua permissão, gostaria de ligar agora para o Sr. Richard Kwang. Estou certo de que ele se sentirá honrado, como eu, em dar uma modesta contribuição ao seu fundo de caridade da polícia, em sinal de agradecimento.
— É muita gentileza, mas não é necessário, Sr. Sung.
— Mas ficarei desprestigiadíssimo se o senhor não aceitar, inspetor-chefe.
— O senhor é muito gentil — disse Smyth, sabendo que, na realidade, sem sua presença dentro do banco, e a dos seus homens do lado de fora, Sung, os caixas e muitos outros estariam mortos. — Obrigado, mas não é necessário.
Aceitou os cheques administrativos e foi embora.
O Sr. Sung insistiu com o cabo, que, finalmente, mandou buscar o seu superior. O sargento comissionado Mok também declinou da oferta.
— Vinte mil vezes — declarou.
Mas o Sr. Sung não desistia. Sabiamente. E Richard Kwang ficou igualmente encantado e honrado em aprovar o presente não solicitado. Vinte mil HK. Em dinheiro vivo.
— Com os profundos agradecimentos do banco, sargento comissionado Mok.
— Obrigado, Honorável Gerente Sung — falou Mok, cortesmente, botando o dinheiro no bolso, satisfeito por pertencer à divisão do Cobra, e totalmente impressionado, pois vinte mil era o preço justo de mercado que o Cobra considerara que valia o trabalho daquela tarde. — Espero que o seu grande banco se mantenha solvente, e que vença essa tormenta com a sua esperteza habitual. Amanhã tudo correrá ordeiramente, é claro. Estaremos aqui às nove da manhã em ponto para receber o nosso dinheiro.
A velha amah ainda estava sentada na amurada do porto, recuperando o fôlego. As costelas lhe doíam, mas, afinal, sempre doíam, pensou, cansada. Era joss. Seu nome era Ah Tam, e estava começando a se levantar quando um jovem se acercou dela e falou:
— Sente-se, Velha Senhora, quero lhe falar. — Era baixo e atarracado, tinha vinte e um anos, e o rosto marcado de cicatrizes de varíola. — O que tem nesse saco?