— Como? Que saco?
— O saco de papel que mantém grudado aos seus trapos fedorentos.
— Este? Nada, Honrado Senhor. São só minhas pobres compras que...
Ele sentou-se no banco, ao lado dela, aproximou-se mais e sibilou:
— Cale-se, Bruxa Velha! Vi você sair da porra do banco. Quanto tem aí?
A velha agarrou-se desesperadamente ao saco de papel, os olhos fechados de terror, e falou, com voz ofegante:
— São todas as minhas economias, Hon... Ele arrancou o saco das mãos dela e o abriu.
— Ayeeyah! — As notas eram velhas, e ele as contou. — Trezentos e vinte e três dólares! — exclamou, desdenhosamente. — Você é amah de quem... de um mendigo? Não foi muito esperta, nessa vida.
— Ah, sim, tem toda a razão, senhor! — replicou, os olhinhos pretos agora fitos nele.
— O meu h'eung yan é de vinte por cento — falou, começando a contar as notas.
— Mas, Honrado Senhor — disse ela, agora choramingando —, vinte por cento é alto demais. Mas eu me sentiria honrada se aceitasse cinco, com os agradecimentos de uma pobre velha.
— Quinze.
— Seis!
— Dez, e é a minha oferta final. Não posso ficar aqui o dia todo!
— Mas, senhor, é um homem moço e forte, evidentemente um 489. Os fortes devem proteger os velhos e fracos.
— É verdade, é verdade. — Ele pensou por um momento, querendo ser justo. — Está certo, sete por cento.
— Oh, como é generoso, senhor! Obrigada, obrigada.
Toda contente, ela o viu contar vinte e dois dólares, depois enfiar a mão nos bolsos do jeans e contar sessenta e um cents.
— Tome.
Devolveu à velha os trocados e o resto do seu dinheiro.
Ela lhe agradeceu efusivamente, radiante com a pechincha que fizera. "Por todos os deuses", pensou, radiante, "sete por cento, ao invés de, bem, pelo menos quinze seria justo".
— Também tem dinheiro no Ho-Pak, Honrado Senhor?
— indagou, cortesmente.
— Claro — disse o jovem, com ar de importância, como se fosse verdade. — A minha irmandade tem uma conta lá há anos. Temos... — dobrou a quantia que primeiro veio à sua cabeça — temos mais de vinte e cinco mil só nessa agência.
— Eeee! — exclamou a velha. — Ser rico desse jeito! No momento em que botei os olhos em cima de você, soube que era da 14K... e certamente um Honorável 489.
— Sou mais do que isso — falou o jovem, prontamente, cheio de orgulho e bravata. — Sou... — Mas se deteve, lembrando-se das recomendações do seu líder para ser cauteloso, e deixou de dizer: "Sou Kin Sop-ming, Kin Bexiguento, e sou um dos famosos Lobisomens, e somos em número de quatro".
— Vá andando, Velha Senhora — falou, cansando-se dela. — Tenho coisas mais importantes a fazer do que papear com você.
Ela se levantou e fez uma reverência, e então seus olhos se detiveram no homem que estivera na fila, à sua frente. Era cantonense como ela. Era um comerciante rechonchudo que ela conhecia, dono de uma barraca de aves num dos fervilhantes mercados de Aberdeen.
— Sim — falou com voz rouca —, mas se quer outro freguês, estou vendo um que é moleza. Estava na fila, na minha frente. Retirou mais de oito mil dólares.
— É, onde? Onde está ele? — indagou o jovem, imediatamente.
— Por uma comissão de quinze por «cento?
— De sete... e fim de papo, sete!
— Está bem, sete. Ali, olhe lá! — sussurrou. — O gordo, redondo como um mandarim, de camisa branca... aquele que está suando como se acabasse de curtir o Nuvens e Chuva!
— Estou vendo.
O jovem levantou-se e caminhou rapidamente para interceptar o homem. Apanhou-o na esquina. O homem parou, petrificado, barganhou por algum tempo, pagou dezesseis por cento e se mandou, bendizendo a sua argúcia. O jovem voltou para junto dela.
— Tome, Velha Senhora — falou. — O sacana tinha oito mil cento e sessenta e dois dólares; dezesseis por cento dá...
— Dá mil trezentos e cinco dólares e noventa e dois cents, e os meus sete por cento são noventa e um dólares e quarenta e um cents — replicou ela, prontamente.
Ele pagou-lhe a quantia exata, e ela concordou em voltar no dia seguinte para lhe servir de olheira.
— Como se chama? — perguntou ele.
— Ah Su, senhor — replicou, dando-lhe um nome falso. — E o senhor?
— Mo Wu-fang — disse, usando o nome de um amigo.
— Até amanhã — disse ela, satisfeita. Agradecendo-lhe mais uma vez, lá se foi, radiante com o lucro do dia.
O lucro dele também fora bom. Agora, tinha mais de três mil no bolso, e pela manhã tinha apenas o suficiente para a passagem de ônibus. E fora tudo um golpe de pura sorte, pois viera de Glessing's Point para Aberdeen apenas para enviar outra nota de resgate pelo Chen da Casa Nobre.
— É por medida de segurança — dissera-lhe o pai, o líder deles. — Para lançar um rastro falso para a porra da polícia.
— Mas isso não nos trará dinheiro — ele respondeu, aborrecido, dirigindo-se ao pai e aos outros. — Como vamos apresentar o sacana do filho, se já está morto e enterrado? Você pagaria sem alguma prova de que ele estava vivo? Claro que não! Foi um erro bater-lhe com a pá.
— Mas o cara estava tentando fugir! — disse o irmão.
— É verdade, Irmão Mais Moço. Mas o primeiro golpe não o matou, apenas entortou-lhe um pouquinho a cabeça. Você devia ter parado por ali.
— E teria parado, mas os maus espíritos entraram dentro de mim, por isso bati nele de novo. Só bati nele quatro vezes! Eeee, mas esses grã-finos têm os crânios moles!
— É, tem razão — disse o pai. Era baixo e careca, com muitos dentes de ouro, e chamava-se Kin Careca. — Dew neh loh moh, mas já está feito, portanto não resolve nada ficar lembrando. Foi azar. A culpa foi dele, por tentar fugir! Já viu a primeira edição do Times?
— Não... ainda não, Pai — replicara.
— Deixe que eu leia para você: "O chefe de polícia disse hoje que prenderam um tríade que suspeitam seja um dos Lobisomens, a perigosa quadrilha de criminosos que seqüestrou John Chen. As autoridades esperam resolver o caso a qualquer momento".
Todos riram, ele, o irmão mais moço, o pai e o último membro, seu grande amigo Chen Vincado — Pun Po Chen —, pois sabiam que era tudo mentira. Nenhum deles era tríade ou tinha ligações com as tríades, e nenhum jamais fora preso por qualquer crime, anteriormente, embora houvessem formado sua própria irmandade, e o pai costumasse dirigir, de tempos em tempos, um pequeno sindicato de jogo em North Point. Fora o pai que propusera o primeiro seqüestro. "Eeee, que esperteza!", pensou, recordando. E quando John Chen, infelizmente, buscara a própria morte ao tentar fugir, estupidamente, o pai também sugerira que lhe cortassem a orelha e a enviassem à família.
— Transformaremos o azar dele na nossa boa sorte. "Matar um para aterrorizar dez mil!" O envio da orelha aterrorizará Hong Kong inteira e nos tornará famosos e ricos!
"É", pensou, sentado ao sol em Aberdeen. "Mas ainda não ganhamos riqueza alguma." Por isso, naquela manhã, ele dissera ao pai:
— Não me incomodo de ir longe para botar a carta no correio, pai. É sensato, e é o que Humphrey Bogart ordenaria. Mas ainda não acho que isso nos traga qualquer recompensa.
— Fique quieto e escute! Tenho um novo plano digno do próprio Al Capone. Esperamos alguns dias. Depois, ligamos para o Chen da Casa Nobre. Se não recebermos o dinheiro imediatamente, seqüestramos o próprio Phillip Chen! O Grande Pão-Duro Chen em pessoa!
Todos o fitaram, assombrados.
— É, e acham que ele não vai pagar rapidinho, depois de ver a orelha do filho? Claro que lhe diremos que era a orelha do filho... quem sabe até possamos desenterrar o corpo e mostrar para ele, heya?
Kin Bexiguento sorriu de orelha a orelha, lembrando-se de como todos haviam rido. Ah, como haviam rido, segurando a barriga, quase rolando no chão do seu apartamento de cortiço.