Imediatamente, sentiu alguma coisa dura ser pressionada contra a base de sua espinha, justamente no vão entre suas duas nádegas e a cadeira acolchoada.
Ao mesmo tempo, uma voz pastosa, falando francês com sotaque meridional, disse suavemente, urgentemente, bem atrás da orelha direita de Bond:
"Trata-se de uma arma, monsieur. Absolutamente silenciosa. Que pode estourar a base de sua espinha, sem emitir o menor som. Parecerá que Monsieur teve um desmaio. Eu já estarei longe. Retire sua aposta antes que eu conte até dez. Se pedir socorro, eu disparo".
Era um tom de voz confiante. Bond acreditou na sinceridade daquelas palavras. Essa gente já mostrara que não hesitaria em ir às últimas conseqüências. A grossa bengala estava então explicada. Bond conhecia esse tipo de arma. O cano é feito com uma série de amortecedores de borracha, que absorvem a detonação, mas permitem a passagem da bala. Foram inventadas e utilizadas na guerra para assassínios. Bond já havia experimentado uma delas.
"Un", disse a voz.
Bond virou a cabeça para trás. Havia um homem, debruçado atrás dele, com um amplo sorriso sob o bigode preto, como se estivesse desejando boa sorte a Bond, completamente seguro de si no meio do barulho c da multidão.
Os dentes estragados se juntaram.
"Deux", disse a boca sorridente.
Bond olhou para o outro lado da mesa. Le Chiffre o observava. Seus olhos brilhavam. Estava com a boca aberta, a respiração apressada. Esperava, esperava que a mão de Bond fizesse um gesto ao croupier, ou que, de repente, Bond caísse para trás na cadeira, o rosto contorcido por um grito.
"Trois".
Bond olhou para Vésper e Felix Leiter. Estavam sorrindo, conversando um com o outro. Os imbecis! Onde estava Mathis? Onde andavam esse tão famosos homens de quem Mathis se gabava tanto?
"Quatre".
E os outros espectadores? Essa multidão de idiotas conversadores. Será que ninguém via o que estava acontecendo? O chef de partie, o croupier, o outro empregado?
"Cinq".
O croupier estava arrumando o maço de notas. O chef de partie inclinou-se sorridente em direção a Bond. Na hora em que a aposta estivesse em ordem, Ele anunciaria "Le jeux est fait", e a arma dispararia, tivesse o pistoleiro contado até dez ou não.
"Six".
Bond tomou uma decisão. Era uma chance. Cuidadosamente, moveu as mãos até a beirada da mesa, firmou-as, empinou as nádegas bem para trás, sentindo a mira da arma machucar seu cóccix.
"Sept".
O chef de partie voltou-se para Le Chiffre com as sobrancelhas levantadas, esperando um sinal do banqueiro para indicar que estava pronto para jogar.
Subitamente, Bond empurrou-se para trás com toda a força que tinha. Seu ímpeto foi tão forte que deslocou a barra das costas da cadeira tão rapidamente que ela se quebrou de encontro à bengala de Malacca, tirando-a das mãos do pistoleiro antes que Ele pudesse puxar o gatilho.
Bond foi parar no chão, de pernas para o ar, entre os pés dos espectadores. As costas da cadeira fizeram-se em pedaços com a batida seca. Ouviram-se gritos de susto. Os espectadores afastaram-se e, depois, encorajados, juntaram-se novamente, Mãos ajudaram Bond a pôr-se de pé, escovaram-no. O chef de partie e o outro empregado apressaram-se. Um escândalo deve ser evitado a qualquer custo.
Bond apoiou-se no corrimão de metal. Parecia confuso, embaraçado. Passou a mão na testa. "Um desmaio momentâneo", explicou Ele. "Não foi nada — a excitação, o calor".
Houve expressões de simpatia. Naturalmente, com esse jogo tão alto! Monsieur gostaria de retirar-se, deitar-se, ir embora? Queria que fossem buscar um médico?
Bond recusou tudo. Estava perfeitamente bem agora. Pediu desculpas à mesa. Ao banqueiro também.
Trouxeram uma nova cadeira e Ele se sentou. Olhou para Le Chiffre: junto com a satisfação de estar vivo, sentiu um momento de triunfo no que viu — um pouco de medo estampado naquela cara gorda e pálida.
Uma onda de comentários percorreu a mesa. Os vizinhos de Bond, de ambos os lados, inclinaram-se para a frente, solícitos, falando sobre o calor, sobre como já era tarde, sobre a fumaça, a falta de ar.
Bond respondeu delicadamente. Virou-se para examinar as pessoas que estavam às suas costas. Não havia sinal do pistoleiro, mas o empregado estava procurando alguém que reclamasse a bengala de Malaca. Parecia perfeita. Mas não tinha mais a ponta de borracha. Bond Fez-lhe um sinal.
"Se você entregá-la àquele senhor que está ali" — indicou Felix Leiter — "Ele poderá devolvê-la. Pertence a um conhecido dele".
O empregado inclinou-se.
Sorrindo, Bond imaginou que, mesmo com um rápido exame, Leiter compreenderia por que Ele, Bond, tinha feito uma cena tão embaraçosa em público.
Voltou-se para a mesa e bateu no pano verde à sua frente a fim de indicar que estava pronto para continuar.
13- "UM SUSSURRO DE AMOR, UM SUSSURRO DE ÓDIO"
DANDO bastante ênfase ao que dizia, o chef anunciou: "O jogo continua". E acrescentou: "Un banco de trente-deux millions".
Os espectadores aglomeraram-se em volta da mesa. Le Chiffre bateu na caixa das cartas e ouviu-se um barulho semelhante ao de um chocalho. Parou, como se tivesse pensado melhor, retirou o inalador de benzedrina do bolso e aspirou o vapor pelo nariz.
"Estúpido", murmurou Mrs. Du Pont, à esquerda de Bond.
Bond sentia novamente a cabeça desanuviada. Por um milagre, sobrevivera a uma situação gravíssima. Sentia ainda o suor debaixo do braço, provocado pelo medo que passara. Mas o êxito do golpe com a cadeira varrera de sua lembrança a desagradável sensação de derrota que experimentara pouco tempo antes.
Fizera um papelão. O jogo fora interrompido pelo menos durante dez minutos, demora nunca vista num cassino respeitável. Mas agora, superada esta situação, as cartas estavam outra vez à sua espera. Desta vez, não poderiam traí-lo. Com esta perspectiva, Bond sentiu o coração leve.
Eram duas horas da manhã. Além da compacta multidão que se formara em volta da mesa do jogo, ainda se jogava nas três mesas de chemin de fer e num número igual de mesas de roleta.
No silêncio que cercava a mesa que estava jogando, Bond ouviu a voz distante de outro croupier, em outra mesa, dizer: "Neuf. Le rouge gagne, impair et manque".
Seria uma previsão para Ele ou para Le Chiffre?
Duas cartas escorregaram na direção de Bond, através daquele verde mar.
Como um polvo escondido numa pedra, Le Chiffre o observava do outro lado da mesa. Bond estendeu a mão direita, firme, e puxou as cartas. Sentiria aquela sensação de alívio que só um nove pode trazer, ou um oito?
Fazendo uma cortina com a própria mão, abriu as duas cartas em leque. Os músculos de seus maxilares saltaram, quando Ele cerrou os dentes. Seu corpo inteiro retesou-se, num reflexo de autodefesa.
Bond tinha duas rainhas, duas rainhas vermelhas.
Nas sombras em que se escondiam, as duas olhavam para Ele despudoradamente. Representavam o que poderia acontecer de pior. Eram nada. Zero. Baccarat.
"Uma carta", pediu Bond, lutando para que sua voz não traísse sua completa falta de esperança. Sentiu o cérebro atravessado pelos olhos de Le Chiffre.
Vagarosamente, o banqueiro virou suas próprias cartas de cara para cima.