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Tudo somado, tinha um três — um rei e um três preto.

Sentindo um suave alívio, Bond soltou a fumaça que tragara de seu cigarro. Ainda tinha uma chance. Agora encarava realmente o momento da verdade. Le Chiffre bateu na caixa, tirou uma carta, a carta de Bond, o destino de Bond, e vagarosamente virou-a para cima.

Era um nove, um maravilhoso nove de copas, a carta que a superstição cigana chama de "um sussurro de amor, um sussurro de ódio", a carta que representava vitória quase certa para Bond.

O croupier Fez com que ela deslizasse suavemente para o outro lado da mesa. Para Le Chiffre, aquela carta não representava nada. Bond poderia ter um, e neste caso estaria agora dez pontos, ou nada, ou baccarat, que é como se diz. Ou poderia ter dois, quatro ou até cinco. Neste caso, com nove, sua máxima soma seria cinco.

Para o banqueiro, que tinha um três e tirara um nove para adversário, a situação era bastante discutível. As probabilidades dividem-se perfeitamente entre tirar e não tirar outra carta. Bond deixou que o banqueiro suasse, tentando resolver estas equações. Como o nove que tirara só poderia ser igualado se o banqueiro tirasse um seis, Ele teria normalmente mostrado o próprio jogo, se fosse uma partida amigável.

As cartas de Bond continuavam na mesa à sua frente, as duas rainhas de costas, mostrando aqueles desenhos cor de rosa bastante impessoais, e o nove de copas virado para cima. Para Le Chiffre, aquele nove poderia estar dizendo a verdade, ou uma grande variedade de mentiras.

Todo o segredo do jogo estava escondido no outro lado das duas cartas cor de rosa, onde as duas rainhas beijavam o pano verde.

O suor escorria pelas narinas do banqueiro. Sua língua grossa apareceu sub-repticiamente num canto da boca e lambeu uma gota de suor. Le Chiffre olhou as cartas de Bond, depois as suas e novamente as de Bond.

Em seguida, encolhendo o corpo na cadeira, tirou da caixa uma carta para si mesmo.

Virou-a para cima. Todo mundo quis ver. Era uma ótima carta, um cinco.

"Huit à Ia banque", disse o croupier.

Enquanto Bond permanecia em silêncio, Le Chiffre sorria animalescamente. Já contava com a vitória.

A espátula do croupier atravessou a mesa quase pedindo desculpas. Não havia praticamente na mesa quem não acreditasse na derrota de Bond.

A espátula apanhou as duas cartas e virou-as de cara para cima. As duas alegres rainhas vermelhas sorriram para as luzes.

"Et le neuf".

Um enorme suspiro correu em volta da mesa, seguido de um ruído de vozes.

Os olhos de Bond fixavam Le Chiffre. O homenzarrão caiu para trás na cadeira, como se tivesse sido golpeado no coração. Abriu e fechou a boca umas duas vezes, como se quisesse protestar, e levou a mão direita à garganta. Mas acomodou-se de novo na cadeira. O sangue fugira de seus lábios, que agora estavam cinzentos.

Enquanto a enorme pilha de fichas era empurrada para o lado de Bond, o banqueiro enfiou a mão no bolso de dentro do paletó e jogou um pacote de notas na mesa.

O croupier contou-as.

"Un banco de dix millions", anunciou então. Trocou as notas pelo equivalente em fichas: dez fichas de um milhão.

É o fim, pensou Bond. Este homem chegou ao fim da linha. Este é o último dinheiro que tem. Está na mesma situação em que eu estava há uma hora, e este é seu último gesto, como aquele parecia ser o meu. Só que, se este homem perder, ninguém virá ajudá-lo, nenhum milagre o salvará.

Bond ajeitou-se na cadeira e acendeu um cigarro. Numa pequena mesa a seu lado, materializaram-se meia garrafa de Clicquot e uma taça. Sem perguntar quem fora o amável doador, Bond encheu a taça e esvaziou-a em dois longos goles.

Então inclinou-se para trás na cadeira, com os braços estendidos para a frente, apoiados na mesa, como os braços de um lutador que procuram segurar o adversário no início de uma partida de jiu-jitsu.

à sua esquerda, os outros jogadores continuavam em silêncio.

"Banco", disse Bond, olhando diretamente para Le Chiffre.

Mais uma vez, duas cartas lhe foram entregues, só que desta vez o croupier empurrou-as até a lagoa verde que se formara entre seus braços estendidos.

Bond curvou a mão para dentro, olhou de relance para baixo e atirou as duas cartas viradas para cima no centro da mesa.

"Le neuf", disse o croupier.

Le Chiffre contemplava os dois reis pretos que tirara para si mesmo.

"Et le baccarat", disse o croupier, já empurrando a pilha de fichas para Bond.

Le Chiffre acompanhou-as com o olhar, enquanto se juntavam às outras protegidas pela sombra do braço esquerdo de Bond. Então, devagar, levantou-se e sem dizer uma palavra saiu em direção à abertura no corrimão de metal. Desenganchou a ponta da corrente coberta de veludo e deixou-a cair. Os espectadores abriram caminho. Olharam-no curiosamente e com um pouco de medo, como se Ele levasse consigo o próprio cheiro da morte. Depois, desapareceu da vista de Bond.

Bond levantou-se. Tirou uma ficha de cem mil francos da pilha que estava a seu lado e empurrou-a para o outro lado da mesa, em direção ao chef de partie. Cortou os efusivos agradecimentos pela metade e pediu ao croupier que mandasse levar tudo o que ganhara para a caixa. Os outros jogadores também começavam a deixar seus lugares. Sem banqueiro, não poderia haver jogo e já eram duas e meia da manhã. Bond trocou algumas palavras delicadas com seus vizinhos de mesa e passou, por baixo do corrimão, para onde Vésper e Felíx Leiter esperavam por Ele.

Juntos, caminharam até a caixa. Bond foi convidado a comparecer ao escritório particular dos diretores do cassino. Na escrivaninha, estava sua enorme pilha de fichas. Bond juntou a elas as que haviam ficado em seus bolsos.

Ao todo, somavam mais de 70 milhões de francos.

Bond separou uma quantia em notas igual à que Felix Leiter lhe emprestara e Fez um cheque no valor dos quarenta o poucos milhões restantes, para ser depositado em sua conta do Crédit Lyonnais. Foi calorosamente felicitado pelos seus ganhos. Os diretores do cassino esperavam que Ele voltasse a jogar naquela noite.

Bond deu uma resposta evasiva. Dirigiu-se ao bar, onde devolveu a Felix Leiter o dinheiro emprestado. Diante de uma garrafa de champanha, discutiram o jogo durante algum tempo. Leiter tirou uma bala calibre 45 do bolso e depositou-a na mesa.

"Entreguei a arma ao Mathis", disse Ele, "que a levou. Quando você caiu da cadeira, Mathis ficou tão intrigado quanto nós. Ele estava parado atrás daquela multidão, com um de seus homens, quando você caiu da cadeira. Pode imaginar como ficaram desapontados consigo mesmos quando viram a arma. Mathis deu-me esta bala para mostrar do que você escapou.

A ponta foi cortada com uma cruz de bala dum-dum. Você ficaria num estado deplorável. Mas não se pode acusar Le Chiffre de nada. O homem entrou aqui sozinho. O formulário para obter o cartão de entrada foi preenchido por Ele mesmo. Naturalmente, tudo o que Ele escreveu deve ser mentira. Tinha permissão para entrar com a bengala no cassino, porque apresentou um certificado de que fora ferido na guerra. Esta gente está muito bem organizada. As impressões digitais da bengala foram tiradas e enviadas para Paris. É possível que amanhã de manhã a gente já saiba alguma coisa sobre o homem." Leiter acendeu outro cigarro. "De qualquer maneira, felizmente, tudo acabou bem. Você deu trabalho a Le Chiffre no fim, embora nós também tivéssemos passado por uns maus momentos. Aliás, você os passou também, se não me engano".

Bond sorriu. "Aquele envelope foi uma das coisas mais lindas da minha vida. Pensei que estivesse realmente liquidado. O que era uma sensação nada agradável. Se algum dia você estiver em apuros, tentarei retribuir a atenção."