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Levantou-se. "Vou ao hotel guardar isto aqui", disse, batendo de leve no bolso. "Não gosto de andar por aí com a sentença de morte de Le Chiffre no bolso. Ele pode tentar fazer alguma coisa. Depois, gostaria de comemorar. Que acham?"

Virou-se para Vésper. Ela praticamente não falara, depois do jogo.

"Vamos tomar uma taça de champanha na boate, antes de dormir? A boate chama-se Roí Galant. Parece um lugar divertido".

"Acho que gostaria muito", respondeu Vésper. "Vou mo arrumar um pouco, enquanto você guarda o dinheiro. E nos encontraremos no salão de entrada".

"E você, Leiter?" Bond esperava poder ficar sozinho com Vésper.

Leiter olhou para Ele, adivinhando-lhe os pensamentos.

"Eu gostaria descansar um pouco, antes do café da manhã", respondeu. "Foi um dia cheio e acho que Paris precisará de mim amanhã cedo para tratar de alguns pequenos pormenores. Coisas com as quais você não precisa incomodar-se, mas eu sim. Vou com você até o hotel. É melhor comboiar até o porto o navio com o tesouro."

E saíram caminhando, cortando as sombras que a lua cheia estava entre as árvores. Ambos tinham as mãos sobre as armas. Eram três horas da manhã, mas ainda havia muita gente ali e o pátio do cassino estava repleto de carros estacionados. . .

O pequeno trajeto foi percorrido sem incidentes.

No hotel, Leiter insistiu em acompanhar Bond até o quarto Estava exatamente como Bond o deixara, seis horas antes.

"Ninguém para nos receber", observou Leiter. "Mas não duvido que eles ainda tentem uma última jogada. Você quer que eu fique acordado e faça companhia a vocês dois?"

"Vá dormir", respondeu Bond, "e não se preocupe conosco Eles não se interessarão por mim, se eu estiver sem o dinheiro. Muito obrigado por tudo o que você Fez. Espero que algum dia possamos trabalhar juntos de novo".

"Eu acho ótimo", disse Leiter, "contanto que você sempre tire um nove na hora certa — e esteja com Vésper", acrescentou secamente. Saiu e fechou a porta.

Bond voltou-se para o quarto acolhedor.

Depois daquela arena apinhada de gente, na qual ficara praticamente três horas em constante tensão nervosa, sentia-se contente por estar a sós um pouco, observado amigavelmente pelo pijama em cima da cama e pela escova de cabelo na penteadeira. Dirigiu-se ao banheiro, lavou o rosto com água fria e gargarejou com um líquido refrescante. Sentiu que ainda estava machucado na nuca e no ombro direito. E foi com alegria que pensou no fato de que escapara duas vezes de ser assassinado naquele dia. Será que teria de esperar sentado a noite inteira para defender-se de algum outro ataque, ou Le Chiffre já estaria agora a caminho de Le Havre ou Bordeaux, a fim de tomar um navio para algum canto do mundo onde pudesse estar a salvo dos olhos e das armas da Smersh?

Bond encolheu os ombros. O mal que eles haviam feito aquele dia fora mais do que suficiente. Olhou-se ao espelho o imaginou qual seria o comportamento de Vésper diante do sexo. Ele desejava aquele corpo frio e arrogante. Queria ver lágrimas e desejo naqueles olhos azuis, pegar os longos cabelos negros de Vésper e dobrá-la para trás, cobrindo com o seu o corpo esguio da moça. Bond cerrou levemente os olhos diante do espelho e achou que seu rosto refletia um pouco de fome.

Dirigiu-se até a porta, tirando do bolso o cheque de 40 milhões de francos. Dobrou-o bem pequenino. Depois, abriu a porta e olhou para os dois lados do corredor. Deixou a porta bem aberta e, com os ouvidos atentos a qualquer som de passos ou barulho de elevador, começou a trabalhar com uma pequena chave de fenda.

Cinco minutos depois, examinou pela última vez o trabalho que fizera na fechadura, colocou alguns cigarros na cigarreira, trancou a porta, desceu as escadas depois de atravessar o corredor, cruzou o salão de entrada e deixou o hotel em direção ao luar.

14- LA VIE EN ROSE?

A ENTRADA do Roi Galant era uma gigantesca moldura dourada, que talvez antigamente tivesse enfeitado o retrato de algum nobre europeu. Ficava num canto discreto da "cozinha" — os salões públicos de roleta e de boule, onde muitas mesas ainda estavam funcionando. Quando tomou o braço de Vésper e se dirigiu para o degrau dourado da porta, Bond teve de lutar contra o impulso de pedir dinheiro na caixa e cobrir os máximos da mesa mais próxima. Mas sabia que, se fizesse isto, estaria obedecendo a um impulso bobo, só "pour épater Ia bourgeoisie". Se ganhasse ou perdesse, estaria brincando com a sorte, e ela não merecia este tipo de tratamento. Já o salvara muitas vezes num mesmo dia.

A boate era pequena e escura, iluminada somente por velas em candelabros, cujas luzes cálidas se repetiam nos espelhos dourados espalhados pelas paredes. Cetim vermelho-escuro recobria as paredes, as cadeiras e banquetas estofadas. Num canto discreto, um trio — piano, bateria e guitarra elétrica — tocava "La vie en rose" com velada doçura. Naquele ambiente quase silencioso, palpitava uma atmosfera de sedução. Bond teve a impressão de que todos os casais se tocavam sob as mesas.

Sentaram-se em uma mesa de canto, perto da porta. Bond pediu uma garrafa de Veuve Clicquot e ovos mexidos com "bacon".

Em silêncio, ouviram a música durante algum tempo. Depois, Bond voltou-se para Vésper: "Acho ótimo estar sentado aqui com você, sabendo que a missão está cumprida. O fim ideal para um dia como hoje — a entrega do prêmio".

Ele esperava que a moça sorrisse. Mas, em lugar de fazê-lo, disse simplesmente: "É mesmo, não é?", num tom de voz quase áspero. Ela parecia estar ouvindo a música com a maior atenção. Estava com um dos cotovelos sobre a mesa, segurando o queixo com a mão: mas não com a palma da mão, e sim com as costas da mão; e Bond notou que os nós dos dedos de Vésper estavam brancos, como se seu punho estivesse fortemente cerrado.

Entre o polegar e os dois primeiros dedos da mão direita" ela segurava um cigarro que Bond lhe oferecera, como um artista segura um crayon; e, embora fumasse com compostura, batia o cigarro ocasionalmente num cinzeiro, mesmo não havendo cinza a depositar.

Bond notou todas estas pequenas coisas porque sentia fortemente a presença da moça a seu lado e queria trazê-la para o estado de espírito em que se achava: calor humano, uma suave sensualidade. Mas aceitou a reserva manifestada pela moça. Pensou que isto se devesse, quem sabe?, ao desejo de defender-se dele, ou talvez fosse uma reação à frieza que Bond manifestara no começo da noite, àquela frieza deliberada, que Ele sabia que a moça encarara como uma recusa.

Mas Bond sabia esperar. Bebeu champanha, falou um pouco sobre os acontecimentos do dia, sobre a personalidade de Leiter, de Mathis, e sobre as possíveis conseqüências que Le Chiffre teria de enfrentar. Estava sendo discreto, e só mencionou aspectos do caso sobre os quais ela já deveria ter sido informada por Londres.

Ela respondia casualmente. Disse que, naturalmente, eles tinham reparado nos dois pistoleiros, mas que não pensaram nada de mais quando o homem da bengala se colocou atrás de Bond. Não acreditavam que eles tentassem alguma coisa dentro do cassino. Logo que Bond e Leiter deixaram o cassino, para ir ao hotel, ela ligara para Paris a fim de contar ao representante de M o resultado do jogo. Tivera que falar veladamente, e o agente desligara sem nenhum comentário. Explicou que recebera ordens para dar este telefonema, fosse qual fosse o resultado do jogo. M pedira que a informação fosse transmitida para ele diretamente, a qualquer hora do dia ou da noite.

Isto foi tudo o que ela disse. De vez em quando, bebia um pouco de champanha, e raramente olhava para Bond. Não sorria. Bond sentiu-se frustrado. Bebeu muito champanha e pediu outra garrafa. Chegaram os ovos mexidos e eles comeram em silêncio.