Às quatro horas da manhã, quando Bond se preparava para pedir a nota, o maitre d’hôtel aproximou-se da mesa e perguntou por miss Lynd. E entregou a ela um bilhete, que foi lido apressadamente.
"Oh, é de Mathis", disse ela. "Pedindo que eu vá até o salão de entrada. Tem uma mensagem para você. Talvez não esteja vestido a rigor. Não leva nem um minuto. Depois seria melhor irmos embora".
Vésper dirigiu um sorriso forçado em direção a Bond. "Acho que não estou sendo muito boa companheira esta noite. Foi um dia muito agitado e estou um pouco nervosa. Desculpe-me".
Bond deu uma resposta qualquer e levantou-se, empurrando a mesa. "Enquanto você vai até lá, eu pedirei a conta", disse Ele, e observou-a até que ela desaparecesse pela porta.
Sentou-se novamente e acendeu um cigarro. Sentia-se vazio. Descobriu subitamente que estava cansado. O abafamento do salão atingiu-o, como nas primeiras horas de cassino no dia anterior. Pediu a conta e tomou um último gole de champanha. E esta última taça lhe pareceu amarga, como sempre parece amarga aquela taça que se toma a mais. Gostaria de ver a cara alegre de Mathis, ouvir as novidades, talvez até uma palavra de elogio.
Então aquele bilhete para Vésper pareceu-lhe estranho. Mathis não costumava agir desta maneira. Normalmente pediria aos dois que o encontrassem no bar do cassino, ou teria entrado na boate, estivesse ou não em traje a rigor. Ririam muito e Mathis estaria bastante animado. Teria muito mais coisas para contar a Bond do que Bond a Ele: a prisão do búlgaro, que provavelmente já teria dito mais alguma coisa; a perseguição do homem com a bengala; o que Le Chiffre fizera, depois de deixar o cassino.
Rapidamente, Bond pagou a conta sem esperar pelo troco, empurrou a cadeira para trás e correu para a porta, sem responder aos agradecimentos do maítre e do porteiro.
Atravessou correndo o salão de jogo e olhou para todos os lados no salão de entrada. Disse um palavrão e apressou o passo. No vestiário, um ou dois oficiais, e uns dois ou três homens e mulheres em trajes de noite retiravam suas coisas.
Nada de Vésper. Nem de Mathis.
Continuava correndo. Chegou à entrada e olhou com cuidado a escadaria e os poucos carros que estavam estacionados em frente.
O porteiro chegou perto de Bond. "Um táxi, Monsieur?"
Bond recusou com um aceno de mão e desceu os degraus da escadaria, enquanto seus olhos perscrutavam as sombras e sentia o ar frio da noite em suas têmporas suadas.
Estava no meio da escada quando ouviu um grito fraco, depois a batida de uma porta de carro, longe, à sua direita. Com o escapamento roncando, um Citroen irrompeu das sombras para a luz da lua, parecendo um besousro gigante, derrapando a roda da frente no pedregulho solto que cobria o pátio. A traseira do carro balançava nas molas macias, como se um esforço violento estivesse acontecendo no banco de trás.
Sempre roncando, o carro correu em direção ao largo portão de entrada, provocando uma chuva de areia. Um pequeno objeto preto foi atirado pela janela de trás, caindo num canteiro de flores. Ouviu-se um grito de borracha torturada quando os pneus entraram na avenida, numa violenta curva para a esquerda, o ronco ensurdecedor do escapamento do Citroen com a marcha engatada em segunda, depois o barulho de outra mudança de marcha, e o ruído que diminuía rapidamente à medida que o carro*passava entre as lojas da cidade em direção à estrada costeira.
Bond tinha certeza de que encontraria a bolsa de Vésper entre as flores.
Apanhou-a e correu de volta pelo caminho de pedregulhos até as escadas bem iluminadas, remexendo nas coisas que estavam dentro da bolsinha, enquanto o porteiro se aproximava correndo.
Entre as muitas coisas que uma mulher carrega normalmente numa bolsinha, estava lá o bilhete amassado:
"Você pode vir ao salão de entrada por um momento? Tenho novidades para o seu companheiro.
René Mathis".
15- LEBRE PRETA E CÃO CINZENTO
A LETRA de Mathis estava muito mal falsificada.
Bond pulou para o Bentley, abençoando o impulso que o fizera vir de carro depois do jantar. Com o afogador todo puxado, o motor respondeu imediatamente à partida e o ronco da máquina abafou as palavras entrecortadas do porteiro, que pulou para o lado quando as rodas de trás do carro jogaram areia em suas calças apertadas.
Quando o carro tombou um pouco para o lado esquerdo ao atravessar o portão, Bond desejou com uma certa inveja ter nas mãos a direção e a carroçaria baixa do Citroen. Depois, mudou rapidamente de marcha e concentrou-se na perseguição, saboreando rapidamente o eco que o escapamento provocava ao longo da rua principal da pequena cidade.
Logo deixou a cidade e entrou na estrada costeira, uma estrada bastante larga, que corria entre as dunas e que ele conhecera naquela mesma manhã. Tratava-se de uma estrada muito bem conservada, com uma ótima sinalização nas curvas. Bond apertava cada vez mais o acelerador, correndo a 80 milhas por hora, depois a 90, os enormes faróis iluminando o nevoeiro branco da noite, que formava uma parede de quase meio quilômetro à sua frente.
Bond tinha certeza de que o Citroen viera por ali. Ouvira o escapamento atravessar a cidade, e um pouco de poeira ainda pairava nas curvas. Esperava em breve ver o clarão distante do carro que estava perseguindo. Era uma noite clara e calma. Mas o leve nevoeiro de verão deveria também cobrir o mar, porque em intervalos regulares Bond ouvia as sirenas mugindo como gado, lá embaixo na costa.
Enquanto guiava, aumentando mais e mais a velocidade do carro pela noite a dentro, Bond destacou uma parte de sua mente para xingar Vésper, e M também, já que fora o responsável pela vinda da moça.
O que estava acontecendo era exatamente o que Ele temia. Esse tipo muito animado de mulher que pensa poder fazer o trabalho de um homem. Por que diabo não podiam elas ficar em casa cuidando das panelas, contentando-se em falar de roupas e em fazer mexericos, deixando o trabalho dos homens para ser feito pelos próprios homens? E acontecer uma coisa dessas logo agora, quando o trabalho terminara tão bem: Vésper tinha de cair num truque tão velho assim, deixar-se raptar e provavelmente ser mantida como refém, como qualquer infeliz heroína de estória em quadrinhos? A imbecil!
Bond fervia de ódio ao pensar nas complicações que o aguardavam.
Lógico. A idéia era fazer uma troca direta. A moça pelo cheque de quarenta milhões. Bem, nesta jogada Ele não entraria: nem sequer pensaria em entrar. Ela estava em serviço e sabia o que a esperava. Nem mesmo consultaria M. Este trabalho era muito mais importante do que ela. Uma pena. Era uma moça ótima, mas Ele não cairia nesse truque infantil. Nada disso. Tentaria alcançar o Citroen e atirar neles; se a moça fossa atingida, pior para ela. Ele teria cumprido a missão — tentar salvá-la, antes que a levassem para algum esconderijo — mas, se não os alcançasse, voltaria para o hotel, iria direto para a cama, sem dizer mais uma palavra sobre o assunto. No dia seguinte perguntaria a Mathis o que acontecera à moça e mostraria o bilhete. Se Le Chiffre entrasse em contato com Ele, para pedir o dinheiro em troca da moça. Bond nada faria, nada diria a ninguém. Ela teria de agüentar as conseqüências. Se o porteiro resolvesse contar o que presenciara, Bond o enganaria, dizendo que tivera uma briga com a moça.
Enquanto essa discussão furiosa acontecia na cabeça de Bond, o grande automóvel engolia a estrada, fazendo as curvas automaticamente e desviando dos ciclistas e das carroças que chegavam a Royale. Nas retas, o carburador Amherts Villiers esporeava os vinte e cinco cavalos, e o motor soltava um alto grito de dor dentro da noite. Então o velocímetro acusava 110 milhas por hora, até 120.
Bond sabia que se aproximava rapidamente. Carregado como estava, o Citroen não poderia passar de 80, nem mesmo nesta estrada. Num impulso, Bond diminuiu a velocidade para 70, acendeu os faróis de neblina e abaixou os Marshall gêmeos. Realmente, sem a cortina cegante dos faróis de seu próprio carro, podia ver o clarão de outro carro a uns dois quilômetros pela costa.