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Procurou o coldre embaixo do painel e dele tirou uma pistola 45 de cano longo, Colt, fabricada especialmente para o Exército, e colocou-a ao lado, no assento. Se a estrada permitisse, talvez conseguisse acertar num dos pneus ou no tanque de gasolina a uma distância de cem jardas.

Acendeu novamente os faróis altos e continuou a perseguição com os pneus guinchando. Sentia-se calmo, à vontade. A vida de Vésper já não era um problema. Na luz azul do painel, o rosto de Bond mostrava uma expressão fechada, mas serena.

Adiante, no Citroen, havia três homens e a moça.

Le Chiffre estava guiando, seu corpo grande e flácido inclinado para a frente, suas mãos leves e delicadas na direção. A seu lado, estava aquele homem atarracado que entrara no cassino com a bengala. Na mão esquerda, segurava uma alavanca grossa, que aparecia a seu lado quase encostada no chão. Poderia ser uma alavanca para ajustar o assento do motorista.

No banco de trás, estava o pistoleiro alto e magro. Aparentemente desinteressado pela alta velocidade do carro, olhava o teto, descansado, com a cabeça encostada no assento. Com a mão direita acariciava a coxa nua de Vésper, que estava estendida a seu lado.

Se não fossem suas pernas, que estavam nuas até os quadris Vésper pareceria um embrulho. Sua longa saia de veludo preto tinha sido levantada sobre seus braços e amarrada em cima de sua cabeça com uma corda. Na altura do rosto, um pequeno buraco tinha sido rasgado no veludo, para que ela pudesse respirar. Mas não estava amarrada em nenhum outro lugar e decidira ficar quieta, deixando que o balanço do carro mexesse desajeitadamente seu corpo sobre o assento.

A atenção de Le Chiffre estava dividida entre a estrada e o clarão dos faróis de Bond que se aproximavam cada vez mais pelo espelho retrovisor. Quando a distância entre os dois automóveis diminuiu para uma milha, Le Chiffre não pareceu preocupado. Ao contrário, diminuiu a velocidade de 80 milhas por hora para 60. Ao fazer uma curva, diminuiu ainda mais. Alguns metros adiante, apareceu um anúncio Michelin mostrando o cruzamento de uma pequena estrada com a via principal.

"Attention", disse de repente ao homem que estava a seu lado.

A mão do homem apertou a alavanca.

A uns cem metros do cruzamento, Ele diminuiu a velocidade para 30. Pelo espelhinho, viu que as luzes do carro de Bond iluminavam a curva.

Le Chiffre pareceu tomar uma decisão.

"Allez".

A seu lado, o homem puxou a alavanca com força para cima. A tampa do porta-mala, na traseira do carro, escancarou-se como a boca de uma baleia. Ouviu-se um ruído metálico na estrada e um tilintar ritmado, como se o carro estivesse arrastando milhares de correntes atrás dele.

"Coupez".

O homem abaixou a alavanca com força e o tilintar cessou com um barulho final.

Le Chiffre olhou pelo espelho. O carro de Bond estava virando a curva. Mudando a marcha rapidamente, Le Chiffre atirou o Citroen para a esquerda, entrando na estradinha estreita com as luzes baixas.

Parou o carro de chofre, e os três homens desceram rapidamente, escondendo-se atrás de uma sebe baixa que acompanhava a estrada, agora inteiramente iluminada pelos faróis do Bentley. Os três estavam armados.

O Bentley voava em direção a eles, como um trem expresso.

16- UM ARREPIO NA PELE

ENQUANTO Bond fazia a curva velozmente, acariciando o grande carro com um balanço fácil do corpo e das mãos, imaginava o que faria quando a distância entre os dois carros diminuísse ainda mais. Pensou que o inimigo tentaria entrar por uma estrada transversal, se tivesse oportunidade. Assim, quando acabou de fazer a curva e não viu luzes pela frente, teve o reflexo normal de diminuir a velocidade e, quando viu o anuncio da Michelin, preparou-se para frear.

O carro corria a 60 quando se aproximou do que parecia uma mancha preta no lado direito da estrada, que Bond pensou tratar-se da sombra de uma árvore. Mesmo assim, não teve tempo de salvar-se. Subitamente, encontrou um pequeno tapete de pregos de metal brilhante. Em menos de um segundo, estava em cima deles.

Automaticamente, Bond pisou no freio até o fim e concentrou todas as suas forças na direção, a fim de corrigir a inevitável e violenta torção para a esquerda, mas só conseguiu manter o controle durante um segundo. Quando os pregos cortaram a borracha dos pneus c os aros rasgaram a lona, o pesado automóvel rodopiou, cruzando a estrada numa terrível derrapada em seco, batendo no barranco da esquerda com uma violência que atirou Bond do banco para o chão; depois, de costas para a estrada, virou para cima, sua rodas da frente girando e seus enormes faróis vasculhando o céu. Durante uma fração de segundo, equilibrou-se no tanque de gasolina, parecendo orar para o céu, como um gigantesco louva-deus. Depois, capotou vagarosamente para trás, caindo com um barulho de vidros quebrados e de carroçaria amassada.

No silêncio ensurdecedor, a roda esquerda da frente ainda sussurrou um pouco e em seguida, gemendo, parou de rodar. Le Chiffre e seus dois pistoleiros saíram da emboscada e tiveram de andar somente alguns metros para chegar ao local em que estava Bond.

"Guardem essas armas e tirem-no para fora", ordenou bruscamente. "Eu protejo vocês, Cuidado com Ele! Não quero um cadáver. E depressa, que está clareando o dia".

Os dois homens ajoelharam-se no chão. Um deles pegou uma faca de lâmina longa e cortou um pedaço de lona na parte lateral do conversível. Pelo buraco, conseguiu agarrar Bond pelos ombros. Estava inconsciente e imóvel. O outro enfiou-se entre o carro capotado e o barranco, forçando caminho através da moldura amassada da janela. Libertou as pernas de Bond, presas entre a direção e o teto de lona do carro. Então, tiraram Bond para fora, através de um buraco feito no teto.

Estavam suando e sujos de poeira e de óleo quando conseguiram deitá-lo na estrada.

O homem magro auscultou o coração de Bond e lhe deu uns tapas fortemente. Bond gemeu e moveu uma mão. O homem magro esbofeteou-o novamente.

"Chega", disse Le Chiffre. "Amarre os braços dele e coloque-o no carro. Tome". Atirou um rolo de corda para o homem "Esvazie os bolsos dele primeiro e dê-me sua arma. Talvez Ele tenha outra escondida, mas nós procuraremos mais tarde". Pegou os objetos que o homem magro lhe entregara e guardou-os junto com a Beretta de Bond dentro dos bolsos largos sem examiná-los. Voltou então para o carro. Seu rosto não demonstrava prazer nem excitação.

Foi a dor aguda do arame flexível amarrando seus pulsos que Fez com que Bond voltasse a si. Estava todo dolorido, como se tivesse levado pauladas no corpo inteiro. Mas, quando o colocaram de pé e o empurraram na direção da estreita estrada, onde o motor do Citroen já funcionava mansamente, descobriu que não quebrara nenhum osso. Não estava com vontade de fazer gestos desesperados: deixou que o arrastassem para o banco de trás do carro sem resistir.

Estava deprimido. Sentia uma grande fraqueza, tanto física quanto espiritual. Agüentara muita coisa nas últimas 24 horas e este último golpe do inimigo parecia ser quase o fim de tudo. Desta vez não aconteceria um milagre. Ninguém sabia onde ele estava e ninguém sentiria sua falta até que fosse muito tarde, na manhã seguinte. Os destroços do carro seriam descobertos, mas muitas horas se passariam até que descobrissem que o dono era Ele.

E Vésper? Olhou para a direita, sobre o homem magro, que estava recostado no assento do carro com os olhos fechados. Sua primeira reação foi de desprezo. Que menina idiota, enrolada como uma galinha, a saia amarrada em cima da cabeça, como se tudo não passasse de uma "curra" de brincadeira. Mas logo em seguida sentiu pena dela. Aquelas pernas nuas pareciam tão infantis e indefesas!