Não havia mesa alguma no centro, sob o lustre de alabastro; mas havia um tapete quadrado, todo manchado, com desenhos futuristas em dois tons de marrom. Perto da janela, uma cadeira incrível, com um ar de trono de carvalho todo esculpido, um assento de veludo vermelho, uma mesa baixa com uma garrafa vazia de água e dois copos, e uma cadeira leve, de braços, com um assento redondo de junco, sem almofada. As venezianas meio fechadas não mostravam a vista que se tinha da janela, mas em compensação atiravam faixas do sol da manhã sobre as poucas peças do mobiliário e sobre uma parte do papel de parede, de cor bem viva, e do assoalho manchado.
' Le Chiffre apontou para a cadeira de junco.
"Esta servirá bem", disse Ele ao homem magro. "Prepare-o rapidamente. Se Ele resistir, machuque-o um pouquinho só". Voltou-se para Bond. Seu rosto largo não demonstrava nenhuma emoção, seus olhos redondos demonstravam desinteresse. "Tire a roupa. A cada esforço que você fizer para resistir, Basil quebrará um de seus dedos. Somos gente séria, e sua saúde não nos interessa. Se você vai morrer, ou continuar vivo, tudo depende da conversa que teremos daqui a pouco".
Fez um gesto para o homem magro e deixou a sala. O primeiro gesto do homem magro foi muito curioso. Tirou do bolso a faca que usara na capota do carro de Bond, abriu-a, pegou a cadeirinha de braços e, agindo rapidamente, cortou fora o assento de junco.
Em seguida, voltou até onde estava Bond, enfiando a faca ainda aberta no bolso de cima do palito, como uma caneta num tinteiro. Virou Bond para a luz e desamarrou o arame de seus pulsos. Pulou depressa para o lado de Bond, já com a faca de novo na mão direita. "Depressa".
Bond levantou-se massageando os pulsos inchados e perguntando a si mesmo se pouparia muito tempo, caso resistisse. Não teve mais que um minuto para pensar. Com um passo rápido e um gesto igualmente veloz de sua mão direita, o homem magro segurou a gola do "dinner-jacket" de Bond, puxando-o para baixo e prendendo os braços de Bond. Este tentou aplicar o contra-golpe tradicional para este velho golpe de polícia, caindo sobre um joelho. Mas quando caiu o homem magro caiu junto, com a faca na mão. Ouviu-se o som de faca afiada cortando tecido e os braços de Bond ficaram subitamente livres, quando as duas metades de seu paletó caíram para a frente.
Bond praguejou e levantou-se. O homem magro voltara à posição anterior, a faca novamente pronta para qualquer coisa em suas mãos tranqüilas. Bond jogou no chão as duas metades de seu palito.
"Allez", disse o homem magro, com um ligeiro sinal de impaciência.
Bond olhou-o nos olhos e bem devagar começou a tirar a camisa.
Le Chiffre voltou silenciosamente para a sala. Trazia um bule cheirando a café. Colocou-o na mesinha perto da janela. Na mesma mesinha, colocou também dois outros objetos: um batedor de tapete, feito de junco torcido, com menos de um metro de comprimento, e uma faca de entalhar.
Ajeitou-se confortàvelmente na cadeira em forma de trono e despejou um pouco de café num dos copos. Com um pé puxou para a frente a cadeirinha de braços, cujo assento era agora uma moldura vazia de madeira, até que ela ficasse exatamente na frente dele.
Bond estava de pé no meio da sala, completamente nu, mostrando as marcas arroxeadas dos ferimentos em seu corpo branco, o rosto coberto por uma máscara cinzenta de exaustão, sabendo perfeitamente o que o esperava.
"Sente-se aí". Le Chiffre apontou a cadeira à sua frente.
Bond deu alguns passos e sentou-se.
O homem magro trouxe arame flexível. Amarrou os pulsos de Bond nos braços da cadeira, e os tornozelos nas pernas da frente. Passou um fio duplo pelo peito de Bond, sob as axilas, amarrando-o nas costas da cadeira. Ao fazer os nós, não cometeu o menor engano nem deixou a menor folga. Todos os nós enterravam-se fundo na carne de Bond. As pernas da cadeira ficavam bem distantes uma da outra, de modo que Bond não poderia tentar balançá-la.
Estava completamente aprisionado, nu e indefeso.
Suas nádegas e outras partes debaixo de seu corpo saíam pelo assento da cadeira.
Le Chiffre Fez um sinal ao homem magro, que silenciosamente deixou a sala, fechando a porta atrás de si.
Sobre a mesa havia também um maço de cigarros Gauloises e um isqueiro. Le Chiffre acendeu um cigarro e tomou um grande gole de café. Em seguida, apanhou o batedor de tapete e, repousando confortàvelmente o cabo em seu joelho, Fez com que a base larga descansasse no chão, bem debaixo da cadeira de Bond.
Olhou atentamente para Bond, quase como se o acariciasse com os olhos. Então, num gesto repentino, seu pulso movimentou-se como uma mola, para cima do joelho.
O resultado foi assustador.
O corpo inteiro de Bond arqueou-se num espasmo involuntário de dor. Seu rosto contraiu-se num grito mudo, e seus lábios afastaram-se dos dentes. Ao mesmo tempo, sua cabeça voou para trás com um tranco, mostrando os tendões repuxados do pescoço. Em todo o corpo de Bond, nós apareceram ao longo dos músculos, e seus dedos dos pés e das mãos contraíram-se até ficar brancos. Depois, seu corpo pendeu para a frente, e suor começou a brotar em todas as partes de seu corpo. Bond soltou um gemido profundo.
Le Chiffre esperou que seus olhos se abrissem. "Viu, meu caro rapaz?" Mostrava um sorriso macio e gordo. "Sua situação está bem clara agora?"
Uma gota de suor caiu do queixo de Bond em seu peito nu. "Agora vamos ao que interessa e vejamos em quanto tempo poderemos acabar com esta complicação em que você se meteu". Alegremente deu uma tragada no cigarro e uma batidinha de advertência no chão, debaixo da cadeira de Bond, com aquele estranho e horrível instrumento.
"Meu caro rapaz" — Le Chiffre falava como um pai — "o brinquedo de mocinho e bandido terminou. Por engano, você entrou num brinquedo de gente grande e já descobriu que se trata de uma experiência muito dolorosa. Você não tem equipamento, meu caro rapaz, para brincar com gente grande, e foi um grave erro de sua babá de Londres mandá-lo para cá com sua pazinha e com seu baldinho. Realmente uma bobagem, e muito triste para você".
"Mas vamos acabar com esta brincadeira, meu querido amigo, embora eu esteja certo de que você gostaria muito de acompanhar esta minha pequena, mas divertida narrativa".
Seu tom de voz agradável mudou de repente. Le Chiffre encarou Bond com raiva. "Onde está o dinheiro?"
Os olhos injetados de sangue de Bond encararam-no sem a menor expressão.
Novamente o mesmo movimento para cima com o pulso e novamente todo o corpo de Bond tremeu e contorceu-se.
Le Chiffre esperou até que aquele coração torturado voltasse ao ritmo normal e até que os olhos sem brilho se abrissem de novo.
"Talvez eu não tenha explicado as coisas direitinho", disse Le Chiffre. "Eu pretendo continuar batendo nas partes mais sensíveis de seu corpo até que você responda minha pergunta. Não tenho a menor piedade e não amolecerei de maneira alguma. Não há ninguém para encenar um salvamento de última hora, e você não tem a menor chance de fugir. Não pense que isto uma aventura romântica, na qual o vilão é finalmente derrotado e o herói ganha uma medalha e casa com a moça. Infelizmente estas coisas não acontecem na vida real. Se você continuar ser obstinado, será torturado até a beira da loucura, e daí a moca será trazida para cá e daremos um jeito nela na sua frente. Se isto não bastar, vocês dois terão uma morte dolorosa e eu, relutantemente, deixarei seus cadáveres e partirei para fora do país com destino a uma casa confortável que está esperando por mim. Lá, seguirei uma carreira útil e proveitosa, e viverei até uma velhice realizada e pacífica no seio de uma família que sem dúvida criarei. Como você vê, meu caro rapaz, nada tenho a perder. Se você entregar o dinheiro, ótimo. Senão, encolherei os ombros e irei embora."
Fez uma pausa e seu pulso Fez um leve movimento. Todo o corpo de Bond retesou-se, embora o junco só tivesse tocado seu corpo de leve.
"Mas você, meu caro amigo, a única coisa em que você pode ter esperança é que eu o poupe de uma dor ainda maior, que eu poupe sua vida. Não há outra esperança para você. Absolutamente nenhuma".